Análise de carbono em amostra lunar sugere outras origens do material

O carbono detectado na amostra data de 3,8 bilhões de anos, época de fortes bombardeios de meteoritos na superfície lunar.

taniager

02 Julho 2010 | 14h36

A espectroscopia Raman da amostra coletada pela Apollo 17 revela whiskers de grafite, mostrados pela cor amarela. Crédito: Andrew Steele, Instituição Carnegie.

A espectroscopia Raman da amostra coletada pela Apollo 17 revela whiskers de grafite, mostrados pela cor amarela. Crédito: Andrew Steele, Instituição Carnegie.

Cientistas da NASA realizaram uma nova análise em uma amostra coletada pela Apollo 17 em 1972, na área Mare Serenitatis da Lua. O carbono então detectado na amostra data de 3,8 bilhões de anos, época de fortes bombardeios de meteoritos na superfície lunar. O resultado da análise descartou a suposição dos cientistas de que os vestígios de carbono teriam sido levados ao nosso satélite natural pelo vento solar.

Um pouco do grafite revelado pelo novo estudo apareceu em uma forma rara conhecida como “whiskers” de grafite – estruturas longas e finas de carbono, como fios de cabelo – que os cientistas acreditam terem se formado nas reações de temperatura muito alta iniciadas pelo impacto de meteorito. A descoberta também significa que a Lua guarda potencialmente um registro da entrada de carbono por meteoros dentro do sistema Terra-Lua, quando a vida estava apenas começando a surgir na Terra. A pesquisa foi publicada na edição de 02 de julho da revista Science.

Andrew Steele, da Instituição Carnegie para a Ciência Washington, D.C., EUA, e autor responsável pelo estudo, explica que o Sistema Solar era caótico há 3,9 bilhões de anos. Terra e Lua eram bombardeadas por meteoritos e o calor produzido pelo choque vaporizava a matéria volátil – compostos como água e elementos como o carbono.  Estes materiais foram fundamentais para a criação da vida na Terra.

Como os materiais que caíram na Terra também caíram na Lua, por compartilharem ambos os corpos a mesma gravidade, a amostra em questão é a representante fiel de uma página intocada do passado da Terra, antes de as placas tectônicas e outras forças apagarem o material de carbono antigo de sua história. A afirmação é de Marc Fries, quem conduziu a pesquisa no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL, sigla em inglês) da NASA, Pasadena, Califórnia.

A nova técnica utilizada na análise, conhecida como espectroscopia Raman, permite aos cientistas não apenas entender a composição, mas também criar uma imagem dos minerais. Através dela, grafite e “whiskers“ de grafite foram detectados. Os whiskers de grafite apresentavam uns poucos micrômetros de diâmetro e até cerca de 10 mícrons de comprimento.

Os cientistas descartaram a possibilidade de que o grafite era um resultado de contaminação, porque os whiskers de grafite, em particular, são formados sob condições muito quentes, entre 1.000 e 3.600 graus Celsius (1.273 a 3.900 Kelvins). Eles também descartaram o vento solar como fonte, porque o grafite e os whiskers de grafite eram muito maiores do que o carbono depositado pelo vento solar. Ainda mais: enquanto a contaminação ocorria em toda a amostra, o grafite ficou restrito a uma área distinta enegrecida da amostra.

“Acreditamos que o carbono que nós detectamos ou pode ter vindo do objeto que formou a depressão no impacto, ou se condensou do gás rico em carbono que foi lançado durante o impacto”, disse o co-autor Francis McCubbin, da Instituição Carnegie, EUA.