Pesquisadores lançam nova teoria para a síndrome de Down

Deficiência de uma proteína no cérebro pode contribuir para o comprometimento cognitivo e pelas cardiopatias congênticas que caracterizam distúrbio.

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24 Março 2010 | 12h08

Pesquisa lança um novo olhar sobre a síndrome de Down.

Pesquisa lança um novo olhar sobre a síndrome de Down.

Por muito tempo médicos e pesquisadores acreditaram que pessoas com síndrome de Down eram afetadas pela presença de muitos genes e proteínas, pelo fato de terem um cromossomo extra. Mas, um novo estudo realizado pela Universidade Estadual de Ohio, no EUA, revela que o oposto pode ser verdadeiro: a deficiência de uma proteína no cérebro contribui para o comprometimento cognitivo e é responsável pelas cardiopatias congênitas que caracterizam o distúrbio.

Em uma série de experimentos, os pesquisadores demonstraram – tanto por amostras de tecidos de humanos como por modelos de ratos com a síndrome de Down – que esses indivíduos apresentam baixos níveis de uma proteína no cérebro, presentes em quantidades bem superiores em humanos e ratos normais.

A pesquisa mostrou ainda que a manipulação das peças do RNA que regulam a proteína podem aumentar os níveis dessa proteína. Na verdade, uma droga experimental que atua nos segmentos de RNA conseguiu equilibrar os níveis em modelos animais.


Desequilíbrio na síndrome de Down

Quando há superexpressão deste segmento do RNA – o que significa excesso em uma célula – o nível de proteína cai. Pelo menos cinco destes segmentos de RNA são naturalmente superexpressos em pessoas com a síndrome de Down, porque os segmentos estão abrigados no cromossomo 21 – justamente o que causa o distúrbio.

“Estamos falando de um paradigma, uma mudança de ideia, de que talvez devêssemos olhar para as proteínas, e proteínas superexpressas na síndrome de Down”, diz Terry Elton, autor sênior do estudo e professor de farmacologia da Universidade Estadual de Ohio, nos EUA. “Isso oferece para a comunidade com síndrome de Down o potencial de pelo menos cinco novos alvos terapêuticos a serem perseguidos”.

Proteína, microRNAs

Elton começou a estudar a questão após muitos anos de pesquisa com uma proteína que regulamenta um dos microRNAs alojados no cromossomo 21. Estudando doenças cardiovasculares, o pesquisador constatou que um traço genético em algumas pessoas induziram o trabalho mal feito de um microRNA específico, levando a altos  níveis de proteína que podem contribuir para problema. Essa molécula é chamada de microRNA-155 ou MIR-155.

“Assim, nos interessamos pelo MIR-155, que está no cromossomo 21. Desta maneira ‘saltamos’ para a questão da síndrome de Down”, explica Elton. A relação vai além: pessoas com síndrome de Down nascem com problemas na anatomia do coração, embora não apresentem doenças cardiovasculares ou pressão arterial elevada.

Cinco microRNAs estavam alojados no cromossomo 21, todos com superexpressão nos tecidos, cérebros e corações de pacientes com Down. “Isso significa que não importa com quais proteínas esses microRNAs trabalhem, estarão hipoexpressas”.

Embora a pesquisa tenha indicado relação com 1.695 proteínas, os pesquisadores descobriram que a MeCP2 poderia ter um papel interessante nesse arranjo. Entre as razões, uma mutação que leva a síndrome de Rett, uma desordem cognitiva.

O MeCP2 constitui um fator de transcrição, o que significa liga e desliga genes. Se os seus níveis estão muito baixos no cérebro, isso sugere que os genes influenciados pela sua presença também serão afetados.

“Tanto em adultos quanto em fetos as amostras de tecidos de pessoas com Down, não importa de que região do cérebro, as proteínas MeCP2 eram baixas. Essas são apenas observações, com nenhuma interferência nossa: as proteínas eram quase inexistentes em cérebros de pessoas com síndrome de Down”, ressalta Elton. “Marcamos a proteína com uma molécula fluorescente, e por comparação pudemos visualizar e apreciar quanto de MeCP2 estava sendo produzido pelos neurônios”.

Cada coisa no seu lugar

Por fim, os pesquisadores testaram uma droga experimental em camundongos que servem de modelo para a investigação. Esta droga, conhecida como antagomir, é um agente que inativa os microRNAs. Os cientistas injetaram a substância no cérebro dos ratos para silenciar o MIR-155 com a intenção de aumentar os níveis de proteínas MeCP2. Setes dias após a injeção, os níveis da proteína no cérebro dos ratos ficaram iguais aos de ratos normais.

“Nós mostramos que podemos consertar a anomalia em camundongos. Mas, não podemos desfazer uma patologia do que já ocorreu”, ressalta Elton. “É um ponto de partida, mas parece que temos novos alvos terapêuticos a considerar”.

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