Nem todos os imigrantes latinos nos EUA são aceitos como brancos

Estudo realizado por sociólogos revelou mudança no limite de classificação racial de imigrantes latinos nos EUA

taniager

02 Junho 2010 | 04h18

Reanne Frank, coautora da pesquisa. Crédito: cortesia da Universidade do Estado de Ohio.

Reanne Frank, coautora da pesquisa. Crédito: cortesia da Universidade do Estado de Ohio.

Estudo realizado por sociólogos revelou mudança no limite de classificação racial de imigrantes latinos nos EUA. Os resultados da pesquisa aparecem na edição de junho deste ano na American Sociological Review.

Com base em comparação de dados de censos, as sociólogas Reanne Frank da Universidade Estadual de Ohio e Ilana Redstone Akresh da Universidade de Illinois, e o bioestatístico Bo Lu também da Universidade do Estado de Ohio, EUA, realizaram um estudo que demonstra como os imigrantes latinos são percebidos e se percebem na sociedade norte-americana. Embora alguns imigrantes latinos possam ser aceitos como “brancos” pela maioria da sociedade norte-americana, muitos enfrentam discriminação com base na cor da pele. Latinos de pele mais escura ganham relativamente menos que os demais.

Os resultados sugerem que o rápido afluxo de imigrantes latinos ampliará o limite de classificação racial nos Estados Unidos, mas não terminará com a discriminação pela cor da pele.

“Alguns latinos serão bem-sucedidos se forem aceitos como “brancos” – normalmente aqueles com pele mais clara. Mas, acreditamos que para aqueles com pele mais escura e aqueles que estão mais integrados na sociedade haverá uma expansão da fronteira racial latina”, argumenta Frank.

A pesquisa

Os dados para o estudo vieram de uma pesquisa de 2003 sobre imigrantes “New Immigrant Survey”. Nesta pesquisa foram entrevistados 1.539 imigrantes aceitos legalmente para fixar residência nos EUA entre maio e novembro de 2003 com idade de 18 anos ou mais. Este estudo incluiu dados de até 1,539  indivíduos autoidentificados como latinos. Foi importante para a pesquisa incluir informações, coletadas dos entrevistadores, que classificavam a cor da pele dos entrevistados em uma escala de 1 a 10 (de claro a escuro).

A questão de como imigrantes latinos veem a si próprios em um país organizado racialmente – e como eles serão aceitos pela sociedade em geral– tem implicações crescentes. O U.S. Census Bureau prevê que quase um terço dos indivíduos residentes nos EUA serão de origem latina/espanhola até 2050. A questão é especialmente oportuna agora, porque os norte-americanos estão sendo entrevistados para o censo de 2010.

O censo de 2000 incluia seis categorias raciais e o censo de 2010 tem 15, mas “latino” e “hispânico” não fazem mais parte das opções. Por esta razão  estes indivíduos são instruídos a escolher a raça que se ajusta melhor a eles. Segundo Frank, eles ficam confusos porque não podem mais marcar suas raças como hispânicos ou latinos e as opções não refletem o que eles pensam de si.

No censo de 2000, cerca de 50% daqueles quem marcaram hispânico ou latino como sua etnia escolheu “qualquer outra raça” como sua categoria racial. Isto foi interpretado por muitos pesquisadores como um esforço do entrevistado em afirmar uma identidade racial latina alternativa. No entanto, na nova pesquisa de imigrantes utilizada no presente estudo, não foi dada aos participantes a opção de escolher “alguma outra raça.”

Resultado da pesquisa

Como resultado da nova pesquisa de imigrantes, mais de três quartos dos entrevistados (79 por cento) identificaram-se como brancos, independentemente de sua cor de pele. 

“Isso mostra que os imigrantes latinos reconhecem as vantagens de uma identidade racial branca. A maioria está tentando empurrar os limites da brancura para incluí-los, mesmo com sua cor de pele mais escura,”disse Frank.

Cerca de 14% da amostra recusou sua identificação com qualquer das raças listadas, mesmo não sendo uma opção oficial da pesquisa.

O estudo concluiu que os latinos mais integrados na sociedade norte-americana – tinham mais fluência em inglês, gastavam mais seu tempo no país e tinham filhos – eram os que tinham, dentre os outros, mais probabilidade de não escolher uma categoria racial.

Os pesquisadores classificaram a escala de cores de pele em quatro grupos de tamanho compativel e focaram a comparação entre grupos de pele relativamente mais claras e mais escuras dos entrevistados. Comparando o rendimento anual acumulado dos pares de grupos diferentes, as conclusões revelaram que imigrantes latinos com pele relativamente mais escura ganharam, em média, US $ 2500 a menos por ano que sua contraparte de pele mais clara.

Conclusão

“Nós acreditamos que os imigrantes mais integrados têm enfrentado discriminação no país e percebem que ‘branco’ não é uma identidade que está aberta a eles. Eles podem estar tentando desenvolver uma nova categoria racial latina como alternativa,”disse Frank.

Juntamente com imigrantes mais integrados, latinos de pele mais escura também terão  problemas em ser aceitos como “brancos” e irão enfrentar a discriminação como resultado.

Frank argumenta que os latinos exibem uma série de características físicas – eles não se encaixam perfeitamente no que tem sido historicamente uma ordem racial branco-preto nos Estados Unidos. Alguns com pele mais clara serão capazes de passar por branco, mas outras pessoas com pele mais escura não vão e continuarão a enfrentar a discriminação. Quanto à proporção de imigrantes latinos que será aceita como branco e quantos serão forçados a uma nova categoria racial, ainda não foi possível determinar.

Os imigrantes são importantes porque eles definem o estágio que determina como os limites de classificação racial nos EUA serão redesenhados. Os sociólogos acreditam que os filhos dos imigrantes latinos nacidos nos EUA, em última análise, poderão definir estes limines no futuro.