Pesquisa sugere existência de dois tipos de esclerose múltipla

Doença autoimune pode se manifestar de duas maneiras diferentes; apenas uma forma responde bem ao tratamento padrão com interferon.

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29 Março 2010 | 16h29

Sistema imunológico de pessoas com esclerose múltipla atacam as chamadas

Sistema imunológico de pessoas com esclerose múltipla atacam as chamadas "baínhas de mielina".

A esclerose múltipla pode atuar de duas maneiras muito distintas, de acordo com uma pesquisa realizada na Universidade de Stanford, EUA. Experimentos com modelos animais e análises de amostras de sangue de pacientes com a doença indicam que, dependendo da forma como uma pessoa manifesta o problema, as drogas padrão utilizadas atualmente contra a doença autoimune podem ser bem sucedidas ou não.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores usaram ratos com sintomas semelhantes à esclerose múltipla induzidos por uma técnica chamada encefalite autoimune experimental (EAE). Dessa forma, desencadearam uma resposta do sistema imunológico para atacar a mielina.

Muitas células nervosas nos cérebros e tecidos periféricos de mamíferos devem transmitir impulsos eletroquímicos ao longo do corpo, rapidamente. As partes responsáveis por essa transmissão são revestidas de mielina, uma substância natural cujas propriedades isolantes podem sustentar a força dos impulsos e aumentar sua velocidade. A esclerose múltipla é desencadeada quando, por razões ainda incompreendidas, as células T – soldados do sistema imunológico que protegem o corpo – passam a atacar a mielina do próprio organismo, causando sintomas que incluem a paralisia e a cegueira.


Droga contra ataque autoimune

Há algum tempo alguns pesquisadores colocam a eficácia do interferon-beta, uma das drogas mais usadas contra a esclerose múltipla, em questão. Metade dos pacientes sob esse tratamento tem recidivas reduzidas, mas os efeitos colaterais – semelhantes aos da gripe – tendem a fazer com que os pacientes abandonem a terapia.

Experiências anteriores mostraram que interferon-beta poderia reverter paralisias em ratos. Mas, ao mesmo tempo, pesquisadores observaram que a encefalite autoimune experimental poderia ser induzida de duas formas, caracterizadas por diferentes secreções de células T.

Como as células nervosas, células do sistema imunológico também se comunicam entre si por longas distâncias no corpo, mas elas realizam isso através de várias substâncias químicas chamadas citocinas, secretadas no sangue. No fim do recebimento de um sinal de citocina, as células imunológicas podem responder diferentemente, dependendo de um tipo particular de citocina para a qual estiveram expostas. Duas citocinas chamadas interferon-gama e IL-17, por exemplo, tendem a induzir este tipo de inflamação causado pelo sistema imunológico que pode levar à esclerose múltipla.

A equipe então induziu duas formas superficialmente semelhantes de EAE em camundongos, orientando o ataque das células T na mielina, para secretar predominantemente tanto o interferor-gama como o IL-17, respectivamente. Os pesquisadores descobriram que o interferon-beta melhorou a condição dos animais cuja EAE foi induzida pela secreção de gama-interferon das células T, mas os sintomas foram agravados em animais cujo EAE foi induzido pela secreção de IL-17.

Analisaram então amostras de sangue de 26 pacientes, antes e depois de dois anos do tratamento. Sem saber quais amostras eram de pacientes que tinham tido boas e más respostas ao tratamento com interferon-beta, eles começaram a medir os níveis de IL-17 presentes.

Eventualmente, histórias de pacientes foram reveladas aos pesquisadores e eles mediram os níveis de IL-17 e comparadas com os progressos após o tratamento. Medições de uma variedade específica de IL-17, chamada IL-17F, estavam agrupadas ou em altas doses ou em baixíssimas doses no sangue destes pacientes.

 Aqueles com baixos agrupamentos responderam bem ao tratamento de beta-interferon, não apresentando surtos ou necessidade de esteroides para bloquear a ação do sistema imunológico. Mas, pacientes com elevados níves de IL-17F responderam mal aos mesmos critérios – parece inclusive que a droga piorou a condição desses pacientes.

Embora outras pesquisas sejam necessárias para confirmar os resultados, o trabalho tem o potencial de transformar a forma de tratamento de pessoas com esclerose múltipla. Além disso, um exame de sangue simples poderia indicar quais pacientes estão mais suscetíveis a responder ao tratamento padrão.

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