Usuário tem ‘choque de prazer’ quando fuma crack, explica psiquiatra

Usuário tem ‘choque de prazer’ quando fuma crack, explica psiquiatra

Da redação

10 Janeiro 2012 | 16h40

Após ação policial na região da cracolândia, usuários de crack espalham-se para outas áreas do centro de SP. Crédito: Nilton Kufuda/AE

Após ação policial na cracolândia, usuários de crack se espalham em outras áreas do centro de SP. Crédito: Nilton Kufuda/AE

Tatiana Gerasimenko

A estratégia de ‘dor e sofrimento’ utilizada em São Paulo durante a operação na cracolândia (1 – ocupação policial para barrar a chegada da droga; 2 – não tolerância do consumo público do crack, 3 – auxílio aos usuários que desejam ajuda) pode render bons frutos. Ao menos é o que espera a psiquiatra Marta Ana Jezierski, diretora do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e outras drogas (Cratod) e coautora do livro ‘Drogas: prevenção de tratamento’ (Ed. Ícone, 1998): “A tentativa é fazer com que as pessoas procurem ajuda, porque na maioria das vezes elas acabam não tendo vontade”.

Não sem razão: o efeito do crack dura pouco e vicia depressa. A droga interfere na dopamina, neurotransmissor que age justamente no ‘circuito de recompensa’ do cérebro. “A pessoa tem um choque de prazer”, diz. “É por essa razão que quando alguém experimenta o crack, passa a ter outras drogas como secundárias”. Mas, mesmo que a sensação seja tão prazerosa, a recuperação é possível. Marta afirma que entre 40 e 70% das pessoas que se submetem a tratamentos conseguem se recuperar (entende-se que uma pessoa está recuperada após dois anos sem a droga).

“Enquanto outras drogas ‘consomem’ o usuário aos poucos, o crack vicia rapidamente: em quatro ou cinco anos a pessoa percebe que precisa de ajuda”, diz Marta. “O alcoólatra, por exemplo, demora muitos anos para procurar ajuda. Percebe que precisa de auxílio quando já está cheio de problemas físicos, como comprometimento cerebral”. Além disso, políticas de saúde focadas no crack podem ser até mais viáveis do que iniciativas de combate a drogas lícitas, como o álcool ou tabaco, porque o número de usuários ainda é menor. “Para se ter ideia, o álcool prejudica 12% dos brasileiros, e o crack apenas 1%”, afirma Marta.

Tratando o dependente em crack

O tratamento varia de pessoa para pessoa. Em alguns casos, o acompanhamento deve ser intensivo. Primeiramente, o paciente precisa aprender estratégias para evitar e perceber quais são os gatilhos que desencadeiam a fissura. Isso geralmente dura duas semanas, até que comece a pensar com clareza e se perceba como pessoa. Com a droga, ele é compulsivo e não pensa em si. “Depois, quando já estiver em outro nível, pode-se iniciar a psicoterapia”, diz Marta. Medicamentos anticonvulsivantes, que diminuem a irritabilidade do cérebro e fazem com que a pessoa se sinta melhor, também podem ser usados.

A internação, no entanto, não deve durar muito e, se possível, ser evitada. Em muitos casos os trabalhos para ajudar o usuário de crack são feitos em convênio com albergues, e o paciente não precisa de alta para ir para casa, sentindo que tem mais controle da situação. O apoio da família também é essencial. As dificuldades enfrentadas durante o período podem valer a pena: uma vez ‘livre’ do crack, a pessoa passa a se sentir poderosa e onipotente, porque aprende a ter experiências prazerosas de forma saudável.

O CRATOD

O Cratod é um serviço da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo que oferece tratamento imediato para pessoas que desejam se livrar do álcool, cigarro e outras drogas, com programas específicos para mulheres e adolescentes dependentes. O centro de atendimento funciona das 7h30 às 17h e está localizado na região do Parque da Luz (Rua Prates, 165 – São Paulo). Tel: (11) 33294455.