Quem lhe conhece melhor? Estudo demonstra que NÃO é você

"É uma tendência natural pensar que conhecemos a nós mesmos melhor do que os outros nos conhecem"

taniager

05 Maio 2011 | 17h23

Crédito: divulgação: Association for Psychological Science.

Crédito: divulgação: Association for Psychological Science.

Conhece a ti mesmo. Este foi o conselho de Sócrates, enquadrado na sabedoria convencional. “É uma tendência natural pensar que conhecemos a nós mesmos melhor do que outros nos conhecem”,  diz a professora Simine Vazire da Universidade de Washington em St. Louis, EUA.

Mas, em um novo artigo, Vazire e sua colega Erika N. Carlson avaliam seu estudo e sugerem um adendo ao pronunciamento do filósofo: peça a um amigo. “Há aspectos de nossa personalidade que outros conhecem sobre nós e que nós mesmos não sabemos e vice-versa,” diz Vazire. “Para obter uma visão completa de uma personalidade, você precisa de ambas as perspectivas”. O artigo foi publicado na revista Current Directions in Psychological Science da Association for Psychological Science recentemente.

Não é que não sabemos nada sobre nós mesmos. Mas nossa compreensão é obstruída por pontos cegos criados por nossos desejos, medos e motivações inconscientes — o maior dos quais é a necessidade de manter uma alta (ou se nós somos neuróticos, baixa) autoimagem, mostra a pesquisa. Mesmo nos vendo em um vídeo, isto não altera substancialmente nossas percepções — enquanto outros que observam o mesmo vídeo conseguem apontar facilmente traços que ignoramos.

Surpreendentemente, pessoas mais íntimas a nós e aqueles que gastam mais tempo conosco nos conhecem melhor. Mas até mesmo estranhos têm inúmeras sugestões sobre quem somos: roupas, preferências musicais ou publicações no Facebook. Ao mesmo tempo, as pessoas mais próximas e queridas por nós têm razões para distorcer seus pontos de vista. Afinal, um cônjuge grosseiro ou um filho intimidador diz algo para o outro cônjuge ou pais. “Costumávamos coletar as avaliações dos pais – e nós, na maior parte das vezes, paramos porque são inúteis,” observa Vazire. O que esses dados poderiam mostrar: todos os filhos são brilhantes, bonitos e charmosos.

Curiosamente, as pessoas não enxergam as mesmas coisas sobre si mesmas como os outros.  Traços relacionados à ansiedade, como situações assustadoras, são óbvios para nós, mas nem sempre para os outros. Por outro lado, criatividade, inteligência ou rudeza são muitas vezes melhor percebidas por outros. Isto não é só porque estes traços se manifestam publicamente, mas também porque carregam um juízo de valor — algo que tende a afetar o autojulgamento. Contudo, o mundo não é sempre o crítico mais severo. Outros tendem a dar-nos as maiores notas para nossos pontos fortes do que aquelas que creditamos a nós mesmos.

Por que toda essa informação não adiciona melhor compreensão mútua e pessoal? As pessoas são complexas, as dicas sociais são muitas, as percepções dos outros são obscurecidas por nossas próprias necessidades e preconceitos. O estudo mostra que, além disso, as informações não são fáceis de serem acessadas.  “É incrível como é difícil obter retorno direto,” observa Vazire, acrescentando que não está advogando franqueza brutal a qualquer custo. Há boas razões para reticências.

O desafio, então, é usar esse conhecimento para o bem. “Como podemos dar às pessoas um retorno e como este retorno pode ser usado para melhorar o autoconhecimento?”, pergunta Vazire. “E como usamos o autoconhecimento para ajudar as pessoas a serem mais felizes e se relacionarem melhor?” A primeira resposta a estas perguntas pode ser a mais óbvia, mas não a mais fácil na prática: ouvir os outros. Os outros podem saber mais do que você — até mesmo sobre você.