Receptor ajuda sistema de proteção a expulsar "soldados" do Alzheimer

Barreira hematoencefálica pode funcionar melhor, impedindo adequadamente que as substâncias tóxicas do sangue entrem no cérebro.

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12 Abril 2010 | 20h06

Rede de capilares fornece nutrientes a células do cérebro. Barreira hematoencefálica impede passagem de toxinas. Crédito: Wikipedia.

Rede de capilares fornece nutrientes a células do cérebro. Barreira hematoencefálica impede passagem de toxinas. Crédito: Wikipedia.

O mal de Alzheimer é a forma mais comum de demência, atingindo cerca de 15 milhões no mundo. Por geralmente se manifestar em pessoas acima dos 65 anos, está se tornando um problema de saúde pública, já que a população mundial está envelhecendo e os hábitos de vida podem favorecer o aparecimento da doença. Entretanto, o resultado de uma pesquisa com animais realizada por pesquisadores do National Institute of Environmental Health Sciences (NIEHS) e da Universidade de Minnesota, nos EUA, pode dar esperança a pacientes e familiares que sofrem com o problema: a manipulação de um receptor específico poderia fazer a barreira hematoencefálica funcionar melhor, “expulsando” substâncias tóxicas do cérebro.

Uma das características do Alzheimer é a formação de placas de proteínas beta-amiloides no cérebro – conhecidas como “placas senis”. Essas placas matam neurônios, causando a perda irreversível de memória e afetando as capacidades cognitivas de uma pessoa. Em fases avançadas, causa problemas em outros órgãos do corpo, resultando em morte. Contudo, o que a pesquisa mostra é que é possível retardar esse processo prevenindo a entrada de substâncias tóxicas.

“O que nós mostramos nas experiências com ratos é que podemos reduzir o acúmulo de proteínas beta-amiloides no cérebro tendo como alvo um determinado receptor do cérebro conhecido como receptor pregnano X, ou PXR”, explica David Miller, chefe do laboratório de toxicologia e farmacologia no NIEHS, que financiou o estudo, e autor do artigo que irá ser publicado no Molecular Pharmacology.


Ratos com Alzheimer

A equipe demonstrou que em ratos apresentando placas no cérebro que foram tratados com substâncias do tipo esteróides (que ativam o PXR), a quantidade de proteínas beta-amiloide era reduzida. A ativação do PXR aumentou a expressão da barreira hematoencefálica conhecida como glicoproteína-P (gpP). Essa proteína transporta as proteínas beta-amiloides para fora do cérebro.

“Nossos resultados mostram muitas coisas novas. Agora sabemos que a glicoproteína-P exerce um papel crucial na expulsão da beta-amiloide no cérebro. Em segundo lugar, sabemos que os níveis de glicoproteína-P são reduzidos na barreira hematoencefálica e que os ratos com Alzheimer tratadas com substâncias que ativam o PXR têm níveis de beta-amiloide diminuídos”, ressalta Bjorn Bauer, autor sênior do trabalho e professor assistente na Universidade de Minnesota.

Glicoproteína-P como indicador

Anita Hartz, uma das responsáveis pelo trabalho, acredita que é provável que a redução da expressão da glicoproteína-P na barreira hematoencefálica possa ser um indicador precoce da doença de Alzheimer. E isso, futuramente, poderá ser usado para diagnosticar o problema antes que sintomas sejam manifestados. Até agora, o diagnóstico precoce é um dos maiores desafios dos médicos, e tratamentos podem ajudar a retardar os danos no cérebro.

“São necessárias mais pesquisas antes que a descoberta em modelo animal possa ser testada em seres humanos, mas o trabalho sugere algumas novas metas para o tratamento, que oferecem esperança aos pacientes e familiares que lidam com essa doença devastadora”, diz Linda Birnbaum, diretora do NIEHS.

Os pesquisadores planejam agora realizar um estudo em que ratos com Alzheimer são alimentados com um composto ativador de PXR na dieta durante um período de 12 a 18 meses. As capacidades cognitivas serão monitoradas regularmente, junto com os níveis de glicoproteína-P, para determinar se o regime pode atrasar o declínio cognitivo.

O que é barreira hematoencefálica

A barreira hematoencefálica (BHE) é uma estrutura membrânica, composta de células endoteliais muito bem agrupadas nos capilares cerebrais, que protege o cérebro de substâncias tóxicas do sangue. O mecanismo garante o funcionamento normal e saudável do órgão, já que impede a entrada de substâncias maiores ou de alta carga elétrica no Sistema Nervoso Central.

Problemas com a barreira hematoencefálica são observados em pacientes com meningite, esclerose múltipla, Alzheimer, hipertensão, isquemia e lesões cerebrais causadas por agentes infecciosos, trauma ou radiação.

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