Recuperado perfil genético do sangue do rei Luis VXI da França

Sangue jorrado, sangue recuperado: cientistas fazem análise genética de rei que perdeu a cabeça a partir de resíduos de um lenço.

taniager

18 Outubro 2010 | 10h48

Crédito: CSIC.

Crédito: CSIC.

Em 21 de Janeiro de 1793, o rei de França Luís XVI foi executado em guilhotina por conspirar contra a liberdade da nação, depois de uma tentativa de fuga. De acordo com crônicas preservadas da época, muitos cidadãos subiram ao cadafalso para molhar seus lenços no sangue do monarca e guardá-los como lembrança do evento histórico. Uma equipe, coordenada pelo pesquisador Carles Lalueza-Fox do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC) da Espanha, analisou o sangue de um destes lenços e observou que seus padrões genéticos podem corresponder com aquele do rei francês.

Embora não tenha sido preservado nenhum resíduo nos lenços, os cientistas puderam analisar a substância marrom que durante anos permaneceu dentro de um pote de cerâmica. O pote decorado com técnica piro-gráfica está em posse de uma família de Bolonha há mais de um século. O objeto, avaliado em dois milhões de euros, retrata os vários protagonistas da Revolução Francesa como George Danton, Maximilien de Robespierre, Camilla Desmoulins, Louis-Sébastien Mercier, Jean Paul Marat, a rainha Maria Antonieta e o próprio rei Louis XVI.

Crédito: CSIC.

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“O que há de mais interessante é possivelmente o texto escrito junto aos retratos, que explica a história de uma das testemunhas da execução. Graças ao texto, sabemos que Maximilien Bourdaloue mergulhou seu lenço no sangue, colocou-o no pote e encomendou a um artista parisiense, Jean Roux, a sua decoração finalizada em 18 de setembro de 1793”, detalhou Lalueza-Fox, que trabalha no Instituto de Biologia Evolutiva, no CSIC e na Universidade de Pompeu Fabra, Espanha. A intenção de Bourdaloue seria vender o pote por 500 francos para “O Águia”, suposto codinome de Napoleão.

Os cientistas recuperaram o DNA mitocondrial e o cromossomo Y do indivíduo. Foi possível comprovar que se tratava de um varão europeu e seus dados genéticos procediam de linhagens difíceis de serem encontradas nos bancos de dados atuais. “O DNA mitocondrial corresponde a uma rara linhagem N1b, presente em apenas dois indivíduos europeus num total de 21 mil estudados”. “O cromossomo Y corresponde a uma linhagem G2a, e não foi encontrado nos 21800 europeus analisados”, diz Lalueza-Fox.

Crédito: CSIC.

Crédito: CSIC.

Segundo vários retratos da época, entre os quais se destacam aqueles pintados por Antoine – François Callet em 1786 e Joseph Siffred Duplessis em 1777, o Rei Luís XVI tinha olhos azuis. Os investigadores confirmaram que o indivíduo do pote tinha a mutação genética que determina esta cor de olhos, localizada no gene HERC2.

A única maneira de provar que, de fato, se trata de Luis XVI é comparando o cromossomo Y com o perfil genético do coração mumificado atribuído ao seu filho Louis XVII, preservado na Basílica de Saint Denis em Paris. “Tentamos certificar a autenticidade da amostra buscando possíveis parentes vivos do rei, mas nenhum foi localizado”, adiciona Lalueza-Fox.