Reprogramação do cérebro ocorre com mais facilidade no início da vida

Pesquisadores descobriram que uma pequena parte do córtex visual foi reorganizada apenas em cérebros de indivíduos que nasceram cegos.

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21 Outubro 2010 | 15h36

Algumas regiões do córtex visual, destacadas na figura, podem ser reprogramadas para processar som no cérebro de pessoas que nasceram cegas. Crédito: MIT.

Algumas regiões do córtex visual, destacadas na figura, podem ser reprogramadas para processar som no cérebro de pessoas que nasceram cegas. Crédito: MIT.

Há mais ou menos uma década, cientistas que estudavam o cérebro de pessoas cegas fizeram uma descoberta surpreendente: uma região do órgão normalmente dedicada ao processamento de imagens havia sido religada para interpretar as informações recolhidas pelo tato. Experimentos posteriores revelaram um fenômeno similar em outras partes, mas não se sabia exatamente se o processo poderia ocorrer a qualquer momento da vida. Agora, um estudo conduzido pelo Instituto Tecnológico de Massachusetts, nos EUA, mostra que a reprogramação do cérebro ocorre com mais facilidade no início da vida.

Os pesquisadores descobriram que uma pequena parte do córtex visual, que processa o movimento, foi reorganizada apenas em cérebros de indivíduos que nasceram cegos – e não aqueles que ficaram cegos depois. A descoberta pode ajudar cientistas a compreender como melhorar a capacidade do cérebro para se “religar” mais tarde, tornando possível, talvez, restaurar a visão de pessoas com cegueiras congênitas.

Religando o cérebro

Na década de 1950 e 1960 alguns pesquisadores postularam que certas funções cerebrais se desenvolvem normalmente apenas quando um indivíduo é exposto a informações relevantes – ver alguma coisa, por exemplo – dentro de um período específico no início da vida. Depois, o cérebro perderia a capacidade de mudar em resposta a uma nova informação semelhante. Estudos com animais apoiaram a teoria: gatos com os olhos vendados nos primeiros meses de vida são incapazes de ver mesmo depois que a venda é tirada.

Mas os pesquisadores do estudo atual queriam saber se uma parte do cérebro conhecida como complexo temporal médio pode ser religada a qualquer momento ou apenas no início da vida. Esta é uma área cerebral especializada para a visão de movimento em pessoas com visão normal; a perda de suas funções pode levar uma pessoa a não enxergar o movimento de uma cena, por exemplo, vendo apenas água congelada para o que seria um fluxo de água escorrendo de uma jarra. Em pessoas cegas, a região comprometida é substituída pelo processamento de som.

Precoce ou tardio

No novo estudo, a equipe estudou três grupos de indivíduos: visuais, cegos congênitos e aqueles que ficaram cegos mais tarde (a partir dos nove anos de idade). Usando ressonância magnética funcional, testou se o complexo temporal médio respondia aos sons em movimento (uma pessoa se aproximando, por exemplo). A região reagiu ao som do movimento em pessoas cegas de nascença, mas não em pessoas deficientes visuais ou que ficaram cegas em uma idade avançada.

Os resultados sugerem que em indivíduos cegos mais tarde a entrada de informações nos primeiros anos de vida permitiu que a região cerebral desenvolvesse sua função visual, não podendo ser reprogramada para processar o som depois. Cegos congênitos, que nunca receberam qualquer informações visual, tiveram entrada auditiva primeiro.

“Precisamos pensar no início da vida como uma janela de oportunidade para moldar a forma como o cérebro funciona”, explica Marina Bedny, principal autora do artigo publicado na Current Biology. “Isso não quer dizer que a experiência posterior não possa alterar as coisas, mas é mais fácil de se organizar desde cedo”.

Outro aspecto importante do trabalho é a constatação de que em cegos congênitos há uma comunicação maior entre o complexo médio temporal e o córtex pré-frontal do cérebro. Essa conexão reforçada poderia ajudar a explicar como o cérebro remodela a região temporal médio para processar a informação auditiva. Todas estas informações poderiam contribuir para uma forma de treinar o cérebro do paciente para que ele processe a entrada de uma informação nova da mesma maneira que faria durante o início da vida.