Banquete de "grandalhões" afeta vida de pequenos do fundo do mar

Enquanto os nutrientes dão impulso extra aos animais de grande porte, o frenesi que causam pode atrapalhar animais de pequeno porte.

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06 Abril 2010 | 11h48

Animais minúsculos que habitam o fundo do mar, onde a luz solar não chega, sobrevivem dos nutrientes presos ao sedimento do solo. Craig McClain.

Animais minúsculos que habitam o fundo do mar, onde a luz solar não chega, sobrevivem dos nutrientes presos ao sedimento do solo. Craig McClain.

Animais de águas profundas sobrevivem de restos de alimentos que “escorregam” para o fundo do mar e se unem aos sedimentos do solo. Enquanto os nutrientes dão impulso extra aos animais de grande porte, o frenesi que causam pode também atrapalhar animais de pequeno porte. É o que mostra um estudo realizado por pesquisadores do National Evolutionary Synthesis Center e Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBRI), publicada na edição de abril da Ecology.

Nas profundezas do mar, a milhares de metros abaixo da superfície da água no oceano, um mundo frio azul marinho e preto sobrevive da lama. Sem a presença da luz solar, a comida pode ser artigo de luxo. E os animais que ali habitam, sobrevivem de matéria orgânica em decomposição, trazida de cima. “Apenas entre 3 e 5% do resto de plantas e animais microscópicos que alimentam a vida em profundidades rasas realmente chegam ao fundo do mar”, explica Craig McClain.

Ao lado de James Barry, do MBRI, McClain mergulhou até águas profundas da costa da Califórnia com a ajuda de um veículo operado por controle remoto (ROV), com câmera e ferramentas para recolher amostras. A região é marcada por uma ladeira bastante íngreme, um sinuoso desfiladeiro submarino conhecido como Cânion Monterey – semelhante em tamanho ao Grand Canion – que reúne sedimentos ricos em nutrientes que se desprendem das paredes. “Há mais comida dentro do que fora do cânion”, explica Barry. “O que desce e se acumula nas falésias não é apenas lama, é comida”, acrescenta McClain. Enterrado no sedimento, escondido de tudo, o mundo de muitos animais marinhos minúsculos – caracóis, vermes, crustáceos, moluscos e outras criaturas menores que uma pinça – sobrevive disso.

Cerca de 200 espécies foram observadas nos sedimentos. Os pesquisadores ficaram surpresos ao descobrir que, apesar dos alimentos extras e nutrientes concentrados, os minúsculos habitantes dos sedimentos (entre 0,25 a 25 milímetros) se tornaram menos diversificados e ainda menores, já que observaram com atenção as paredes do cânion.Uma análise mais detalhada revelou que a resposta não estaria no sedimento, mas um pouco mais acima: animais móveis, como o caranguejo, a estrela-do-mar, ouriços, pepinos do mar e outros predadores do solo marinho, rastejavam sobre este sedimento.

Normalmente espalhados a longas distâncias e em pouca quantidade, esses animais “maiores” percebem quando a comida chega e convergem para a base das falésias. “O penhasco se torna um verdadeiro banquete para os animais maiores”, ressalta McClain. Embora seja um grande acontecimento para os “grandões”, é uma péssima notícia para os menores, que têm seu habitat destruído e pouco espaço para se alimentarem.

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