Sistema imunológico de fetos funciona de uma forma muito diferente

Sistema derivado de um conjunto completamente diferente de células-tronco do sistema adulto é identificado por pesquisadores.

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17 Dezembro 2010 | 12h02

Pesquisadores da Universidade da Califórnia, San Francisco, demonstraram pela primeira vez que o sistema imune dos fetos funcionam de uma forma muito diferente do de adultos, estando mais propício a tolerar as substâncias estranhas do que lutar contra elas. A descoberta pode levar a uma compreensão melhor de como recém-nascidos reagem a infecções e vacinas. Além disso, poderia explicar como muitos bebês de mães HIV-positivas não estão infectados com a doença antes do nascimento.

Até agora, pensava-se que o sistema imunológico do feto e das crianças era apenas uma forma imatura do sistema imunológico adulto, que respondia de forma diferente por causa da falta de exposição e ameaças do ambiente. A nova pesquisa, no entanto, revelou um sistema completamente diferente, derivado de um conjunto também completamente diferente de células-tronco do sistema adulto.

“No feto, observou-se que existe uma sistema imunológico cuja função é ensinar o feto a ser tolerante a tudo que vê, incluindo sua mãe e seus próprios órgãos”, explica Joseph M. McCune, co-autor sênior do artigo publicado na Science. “Após o nascimento, um novo sistema imune resulta de células-troncos diferentes, que, ao invés disso, trabalham em combater tudo o que é estranho”.

Os pesquisadores já sabiam que o sistema imunológico fetal é muito tolerante com células estranhas, e uma das explicações estaria no fato disto prevenir o bebê a reagir contra as células da mãe durante a gravidez ou contra seus próprios órgãos durante o desenvolvimento. O sistema imunológico adulto, por sua vez, é programado a atacar qualquer coisa que é considerada estranha, o que permite ao corpo lutar contra infecções, mas o que também dificulta, por exemplo, o transplante de órgãos.

Estudos anteriores atribuíam a tolerância, em parte, ao percentual extremamente elevado de células T reguladores – células que provocam uma resposta tolerante – no sistema imunológico fetal. Fetos e recém-nascidos têm cerca de três vezes mais destas células do que adultos. Partindo deste dado, a equipe avaliou se as células imunes fetais eram mais propensas a se tornarem células T reguladoras. Os pesquisadores expuseram então células “virgens”, que não tinham sofrido agressões externas, a células estranhas. Em um sistema imunológico adulto normal, isso provocaria um ataque como resposta.

Os resultados mostram que 70% das células fetais foram ativadas por esta exposição, em comparação a apenas 10% de células adultas, refutando a ideia de que células fetais não reconhecem “estranhos”. Mas, das células que responderam, o dobro de células fetais foi transformado em células T reguladoras – mostrando que são mais sensíveis a estímulos e mais propensas a responder com tolerância.

A equipe então organizou as células pela expressão de gene, esperando observar semelhança entre os dois grupos de células. Contudo, eram muito diferentes, com milhares de genes divergentes. “Percebemos que há, na verdade, duas células-tronco produtoras de sangue: uma, no feto, dá origem a células T, que são tolerantes, e outra, nos adultos, que produz células T que atacam”, explica Jeff E. Mold, primeiro autor do artigo.

Os pesquisadores ainda não sabem por que isso ocorre, ou por que o sistema imunológico parece mudar para a “versão adulta” em algum momento no terceiro trimestre de vida. Novas pesquisas tentarão determinar com precisão quando isso ocorre e a razão. É possível que estas informações transformem a maneira como recém-nascidos são vacinados ou tratados contra infecções de HIV.

ma immune fetuses are more prone to tolerate the foreign substances to fight against them.
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