Transplante da flora intestinal pode tratar doenças como as de Crohn

Estudo mostra que é possível introduzir novas espécies na flora intestinal simplesmente ingerindo-as.

taniager

24 Agosto 2010 | 18h50

A microbiología intestinal (na imagem microscópica) pode ser transplantada e as mudanças geradas no receptor se mantêm até três meses depois do transplante. Crédito: cortesia de HUNSC.

A microbiología intestinal (na imagem microscópica) pode ser transplantada e as mudanças geradas no receptor se mantêm até três meses depois do transplante. Crédito: cortesia de HUNSC.

Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Vall d’Hebron (VHIR), Espanha,  lideram um estudo  sem precedentes que demonstra ser possível modificar a composição da flora intestinal ao transplantá-la. As mudanças geradas se mantêm até três meses depois do transplante.

Publicada na revista Genome Research hoje, a pesquisa descreve que é possível introduzir novas espécies na flora intestinal simplesmente ingerindo-as e assegura que não é necessário utilizar antibióticos para eliminar previamente parte da flora com se supunha.

Apesar de o estudo ter sido realizado em ratos, ele tem implicações futuras de grande importância para a saúde humana.  A funcionalidade dos genes das bactérias que se encontram em nosso intestino é a chave em determinadas patologias, nas quais as bactérias influem decisivamente por sua ação sobre a nutrição (obesidade) e sobre o sistema imunológico (enfermidade inflamatória intestinal).  

A interação e simbiose entre humanos e sua comunidade bacteriana (flora intestinal) é muito ampla e tem especial importância em vários aspectos de sua fisiologia, como a resposta imunológica, o metabolismo de gorduras, ou a produção de novos vasos sanguíneos.

A partir desta íntima associação entre os humanos e sua flora intestinal, “se considera que cada ser humano é um ‘superorganismo’ resultante da síntese de seus genes humanos e de genes do microbioma. Devido ao elevado número de microorganismos – até dois quilos de bactérias –, esta população pode ser considerada um órgão a mais com funções próprias, explica Francisco Guarner, líder da equipe de pesquisa em fisiologia e fisiopatologia digestiva do VHIR.

O microbioma é um conjunto de microorganismos (bactérias, leveduras e outros) que vivem “em” e “com” o ser humano, de forma que seus genes e atividades biológicas contribuem para a saúde e a doença. Em números absolutos, o intestino humano contém 10 milhões de bactérias. Isto quer dizer que há mais bactérias em nosso intestino, que células em nosso organismo. O microbioma humano é único para cada um de nós e inclui mais de mil espécies diferentes de microorganismos.

Se formos analisar a magnitude do microbioma, não é difícil imaginar que existam claras evidências de sua implicação em determinadas enfermidades, como por exemplo, na doença inflamatória intestinal. “Conhecer como restabelecer a flora intestinal danificada ou alterada nestas doenças parece ser a chave para o tratamento, diz Guarner.  

Um estudo chave para o projeto de novos tratamentos

Poder restabelecer a flora perdida ou incorporar a flora necessária para manter o fino equilíbrio entre a mucosa intestinal e o exterior poderia ser a chave para projetar novos tratamentos contra a doença inflamatória intestinal. As tentativas realizadas até agora mediante o uso de antibióticos, prebióticos ou probióticos não conseguiram efeitos persistentes a médio e longo prazo. Mas com os resultados deste estudo, novos horizontes foram abertos.

“O transplante da flora intestinal e a bactério-terapia poderia ser de grande ajuda em futuros tratamentos”, comenta Chaysavanh Manichanh, também pesquisadora do VHIR.

O estudo, para o qual  colaboraram pesquisadores da Universidade Pompeu Fabra de Barcelona, Espanha, e da Universidade do Colorado, EUA, demonstrou, pela primeira vez, que a composição da flora intestinal pode ser modificada. Também prova que é possível a introdução de novas espécies na flora intestinal procedentes de um doador.

A pesquisa fornece mais um dado: ao contrário do suposto, a introdução de novas espécies não necessita que bactérias existentes sejam eliminadas previamente  mediante antibióticos. “Isto supõe uma vantagem se levarmos em consideração o transplante como um tratamento para intervir ao nível da flora intestinal, pois a administração de antibióticos produz grandes efeitos no longo prazo sobre o resto da flora, que não se revertem com facilidade”, prossegue Manichanh. Por sua vez, o estudo determinou que a administração de antibióticos no pré-transplante não facilita uma melhor adaptação da flora introduzida.

O mais surpreendente da investigação, segundo Manichanh, “não é somente que a flora procedente de um doador possa ser transplantada em um receptor com êxito, mas também que as mudanças geradas na flora intestinal do receptor graças ao transplante se mantêm durante três meses”.