Antropólogos estudam a "transmissão social" da obesidade

Ideias compartilhadas entre pessoas sobre o peso “aceitável” têm pouca influência para a "transmissão" da obesidade.

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09 Maio 2011 | 12h28

Nos últimos anos alguns estudos indicaram que a obesidade pode ser socialmente contagiosa. De acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual do Arizona, nos EUA, a “transmissão” da doença entre amigos e familiares se faz menos pelas ideias compartilhadas sobre o peso “aceitável” ou o tamanho do corpo e mais pelo comportamento e hábitos alimentares.

“As intervenções dirigidas a mudanças de ideias sobre os índices adequados de massa corporal ou tamanho do corpo podem ser menos úteis do que aquelas que trabalham mais diretamente os comportamentos, por exemplo a mudança de hábitos alimentares, transformação de oportunidades para entraves de ingestão alimentar”, afirmou Daniel J. Hruschka, autor do trabalho publicado no American Journal of Public Health.

A equipe de pesquisadores, formada por antropólogos e especialistas em matemática aplicada às ciências sociais, quis saber como a postura de grupos em relação a suas atitudes corporais conta para o contágio social da obesidade. Para tanto, entrevistaram 101 mulheres da região de Phoeniz e 812 pessoas da família e do círculo social.

Ao comparar o índice de massa corporal (IMC) dos entrevistados, os pesquisadores confirmaram os resultados anteriores, de que o risco de obesidade aumenta se a rede social é formada por obesos. A equipe então analisou três possíveis “caminhos” pelos quais as ideias de corpo aceitáveis eram compartilhados.

“Você pode aprender o que é um tamanho corporal aceitável de seus amigos e, em seguida, mudar sua dieta e exercícios para tentar alcançar isso”, explica Hruschka. “Ou você pode não concordar com os amigos e familiares pensam, mas ainda sentir a pressão de alguns deles para conseguir o tamanho de corpo ideal”. Finalmente, afirma o antropólogo, é possível formar uma ideia de tamanho de corpo apropriado simplesmente pela observação do corpo de seus amigos.

De acordo com os pesquisadores, não há provas para o primeiro e segundo caminho como meio de transmissão da obesidade. Apenas suporte limitado para a terceira colocação – o que sugere que outros fatores, como alimentação e exercícios conjuntos, podem ser mais importantes para fazer com que grupos de amigos e familiares ganhem ou percam peso juntos.

O trabalho avaliou os ideais de tamanho do corpo, preferências “antiobesidade”e estigmas “antigordura”: os participantes tiveram, por exemplo, que escolher se preferiam ser obeso a ser outras 12 condições socialmente estigmatizadas, como o alcoolismo ou ser portador de herpes. Em muitos casos, as mulheres preferem ter depressão grave e cegueira total do que serem obesas.

“Este estudo é importante porque mostra que, enquanto o agrupamento de pessoas com corpos maiores ou menores é real, não é a partilha de valores entre amigos que é responsável por isso”, conclui a co-autora do trabalho Alexandra Brewis, diretora do Center for Global Health da ASU. “Isso nos dá pistas importantes de que a melhor forma de combater a obesidade como um problema de saúde pública é se concentrar no que as pessoas fazem juntas, ao invés de focar no que elas pensam”.