Xeque-mate no câncer: molécula bloqueia metástase em ratos

Substância sintética interrompe propagação do cancro em 80% dos animais tratados ao atuar sobre proteína envolvida no processo de locomoção.

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15 Abril 2010 | 16h57

Moléculas macroketones podem atuar sobre uma proteína envolvida no processo de locomoção das células cancerosas.

Moléculas macroketones podem atuar sobre uma proteína envolvida no processo de locomoção das células cancerosas.

O câncer assusta porque pode se espalhar pelo corpo. Embora os métodos atuais de quimioterapia, intervenções cirúrgicas e radioterapia se mostrem eficientes em muitos casos, curando e aumentando a sobrevida, a possibilidade de metástase – ou seja, de células cancerosas saírem do ponto de origem e formarem colônias, ou tumores, em outras partes do organismo – preocupa médicos e pacientes. Mas uma pesquisa realizada pelo Weill Cornell Medical College, da Universidade Cornell, nos EUA, mostrou que moléculas macroketones (substâncias sintéticas) podem atuar sobre uma proteína envolvida no processo de locomoção das células.

Experiências realizadas com ratos mostram que o tratamento com macroketone estacionou a propagação do cancro, em comparação com animais de controle que morreram de metástase. Quando a droga foi dada uma semana depois da introdução das células cancerosas, o bloqueio foi superior a 80%. Os resultados são animadores, direcionando o desenvolvimento de novas classes de remédios anticâncer e, talvez, o primeiro capaz de parar a metástase do câncer.

“Mais de 90% dos pacientes com câncer morrem porque o câncer se espalhou, então nós precisamos desesperadamente encontrar uma maneira de parar essa metástase”, diz Huang Xin-Yun, professor do departamento de fisiologia e biofísica da faculdade.


O que é a macroketone

Há dez anos, pesquisadores japoneses conseguiram isolar de uma cultura da bactéria Streptomyces sp uma substância natural conhecida como migrastatina, base de muitos antibióticos, observando que ela possui uma fraca capacidade de inibir a migração de células do câncer pelo corpo. A partir disso, muitos pesquisadores buscaram criar análogos, versões sintéticas e moleculares mais simples.

“Depois de uma série de modificações, fizemos várias versões que foram mil vezes mais potentes que a original”, ressalta Huang.

Já em 2005, a equipe de Huang mostrou que esses análogos teriam estacionado a metástase em animais. Entretanto, os pesquisadores ainda não compreendiam muito bem como esse agente atuava no organismo. No trabalho em questão, os cientistas conseguiram desvendar o mistério: a substância age sobre uma proteína, a actin cytoskeletal, que é fundamental à locomoção celular, pela formação de “minitentáculos”. A macroketone trava esse mecanismo, impedindo que fibras de células cancerosas sejam aderidas a outras células. Ou seja: não impediu o crescimento ou a existência de um tumor, mas bloqueou completamente a sua movimentação pelo corpo.

“Isso sugere que um agente como a macroketone possa ser usada tanto para prevenir como impedir a metástase do câncer”, diz Huang. “É claro, porque não tem efeito sobre o crescimento de um tumor primário, uma droga como essa deve ser combinada com outras terapias anticâncer que ajam no crescimento do tumor”.

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