Dinossauros do Brasil, ilustres desconhecidos

Dinossauros do Brasil, ilustres desconhecidos

Luiz e Celina

07 Maio 2017 | 21h32

Os sinais (*) e (#) ajudarão você a encontrar as espécies na árvore dos dinossauros brasileiros.

Dinossauros perambularam pela América do Sul durante quase toda a Era Mesozoica, um “pequeno” intervalo de 165 milhões de anos (Ma). No Brasil, milhares de fragmentos já foram encontrados desde os primeiros registros há cerca de 140 anos. Como em qualquer lugar do mundo, destes milhares, apenas uma pequena fração continha informações suficientes para que novas espécies fossem nomeadas. A primeira delas, Staurikosaurus pricei, foi oficialmente descrita em 1970. Depois disso, perto de outras 25 já foram batizadas. Existem ainda numerosos sítios paleontológicos contendo pegadas, ovos e até mesmo a marca de um xixi, considerada pela Forbes em 2015 um dos cinco icnofósseis mais estranhos do mundo.

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Árvore filogenética dos dinossauros brasileiros. Veja a genealogia de todos os dinossauros conhecidos no Brasil, seus nomes e ano em que foram descritos. Repare que os poderosos répteis voadores, os pterossauros, na base da árvore, não fazem parte do ramo dos dinossauros.

Entretanto, nossas rochas não são tão fossilíferas como gostaríamos. Na vizinha Argentina, que tem pouco mais da metade do nosso território, cinco vezes mais espécies de dinossauros já foram identificadas. Os dinossauros gostavam daquelas terras mais úmidas. Já por aqui, o clima foi muito seco durante quase toda a Era dos Dinossauros, o que travou a diversidade de plantas e animais por mais de 100 milhões de anos.


Além disso, as bacias sedimentares, que são os grandes cemitérios da pré-história, não funcionaram nessas terras durante o período Jurássico, intervalo que perdurou por 56 Ma, e do qual não conhecemos um dinossauro sequer. Não bastasse o pouco que ficou guardado em nossas rochas, o clima úmido atual não favorece a coleta dos fósseis. Se por um lado esse clima nos coloca hoje entre os campeões de diversidade de animais e plantas, por outro, é ele o maior inimigo das rochas, pois as transforma em solo e destrói os fósseis nelas contidos. Assim, encontrar fósseis no Brasil não é tarefa fácil. É por isso que, exceto em raras regiões, os fósseis e a vida pré-histórica não fazem parte do cotidiano do brasileiro.

Mas isso não significa que nossos dinossauros não foram tão legais, e que não tivemos uma pré-história bonita e interessante.

Vamos a alguns fatos (acompanhe as cores e os símbolos na grande árvore).

Sete espécies (manchas azuis) retiradas de rochas gaúchas do período Triássico (entre 230 e 210 Ma) estão entre as mais antigas do mundo. Elas explicam como foi o início da evolução da poderosa linhagem dos dinos. Não é à toa que seus esqueletos são cobiçados por paleontólogos de todo o mundo.

Milhões de pegadas de dinossauros* – e de muitos outros animais – ficaram preservadas nas areias do que foi o maior e mais seco deserto de dunas que o mundo já conheceu.

Dunas do deserto Botucatu 140 Ma atrás. Um pequeno mamífero marsupial e dois dinossauros emplumados* se aconchegam nas pegadas deixadas por um grande dinossauro que há pouco havia passado por ali. Ilustração: Júlio Lacerda.  

Foi de rochas aparentes no interior paulista com 140 Ma de idade que paleontólogos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) encontraram uma rocha com uma marca que no futuro os surpreenderia. Anos mais tarde descobriram que aquela era a marca de um xixi de dinossauro, a única conhecida no mundo até hoje.

Restos de um dinossauro** com veias e tecidos musculares petrificados foram descobertos em rochas da Chapada do Araripe, no Ceará, com 110 Ma de idade. Também vêm de lá esqueletos de dinossauros pescadores gigantes, e de um minúsculo dinossauro voador ** que tinha o tamanho de um beija flor, com dentes e penas perfeitamente preservados.

Dinossauros*** encontrados em rochas com 100 Ma de idade no Maranhão, se parecem com espécies africanas de mesma idade, tempo quando a América do Sul e a África já estavam completamente separadas. Como isso é possível? Eram primos distantes. Seus ancestrais, separados 20 Ma antes na grandiosa divisão continental, haviam compartilhado as contínuas terras do imenso Gondwana, quando o oceano Atlântico ainda não existia.

E mais. Espécies# brasileiras podem ter sido testemunhas da grande catástrofe ocorrida 66 Ma atrás, quando um imenso asteroide atingiu o atual Golfo do México, em um dos eventos mais famosos na história da vida. Evidências geológicas dos tsunamis e da chuva de rochas seguidas ao impacto foram encontradas em pedreiras de Pernambuco, e mostram que os terríveis efeitos da colisão chegaram até aqui poucas horas após a grande explosão.

Embora não muito numerosos, desde o seu aparecimento e até a grande catástrofe que quase os aniquilou completamente, os dinossauros brasileiros ajudam a reconstruir um longo e maravilhoso intervalo da nossa pré-história, fatos que todos deveríamos aprender.

Depois de escalar alguns ramos da grande árvore, você é capaz e falar de memória o nome de ao menos três dinossauros brasileiros?

Para saber mais  sobre nossos dinossauros:

Anelli, L.E. 2015. Dinossauros e outros monstros: uma viagem à pré-história do Brasil. Editora Peirópolis, 246 pg.

Anelli, L.E. 2010. O guia completo dos dinossauros do Brasil. Editora Peirópolis, 220 pg.

Massarani, L. 2012. Dinossauros do Brasil. Cortez Editora, 56 pg.

Para saber mais sobre o xixi de dinossauro:

Fernandes, M.A. et al. (2004). Of Urolites Related To Dinosaurs In The Lower Cretaceous Of The Botucatu Formation, Paraná Basin, São Paulo State, Brazil. Revista Brasileira de Paleontologia: 263-268.