Prédio do Butantan completa 100 anos, com muita história, danos estruturais e laboratórios sufocados no porão

Prédio do Butantan completa 100 anos, com muita história, danos estruturais e laboratórios sufocados no porão

Herton Escobar

04 Abril 2014 | 08h34

Plano da instituição é restaurar o edifício e transferir as atividades de pesquisa para outro prédio, cuja construção está abandonada há cinco anos. Num prazo mais longo, meta é criar um parque tecnológico no Paço das Artes para abrigar todos os laboratórios do instituto

FOTO: Funcionários do Butantan deram um abraço simbólico no prédio hoje de manhã, em protesto contra o que dizem ser o “sucateamento” da infraestrutura científica do instituto. Crédito: Felipe Rau/Estadão

 Herton Escobar e Edison Veiga / O Estado de S. Paulo

O histórico prédio principal do Instituto Butantan completa hoje 100 anos sem ter muito o que comemorar. Os problemas são muitos: infiltrações de água, telhado deteriorado, fachada precisando de restauro e, de acordo com a própria administração da instituição, danos estruturais. A biblioteca, abrigada dentro dele, está interditada há mais de um ano, com livros guardados em contêineres do lado de fora. E os laboratórios que funcionam em seu porão estão sufocados, precisando urgentemente de uma nova casa.

“Temos um projeto de restauro completo desse prédio, desenvolvido por arquitetos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo”, adiantou ao Estado o diretor substituto da instituição, Marcelo de Franco. “Há alguns anos, obtivemos autorização do Condephaat (órgão estadual de proteção ao patrimônio) e realizamos alguns reparos. Mas agora é hora de um restauro completo.”

O instituto não informou o valor necessário para a execução da obra. “Vamos procurar empresas parceiras”, disse Franco, frisando que o projeto já foi submetido à Lei Rouanet, de incentivo fiscal do governo federal. O plano, segundo ele, é começar as obras no segundo semestre e conclui-las no prazo de sete meses.

Quem está mais ansioso com o início do projeto são os pesquisadores que trabalham no edifício. Metade do andar térreo e todo o subsolo do prédio são ocupados por laboratórios da Farmacologia e da Bioquímica, que funcionam em condições precárias de conforto e segurança. “Me sinto dentro de uma ratoeira aqui”, diz o pesquisador Lanfranco Troncone, que trabalha no prédio há 27 anos e levou a reportagem para conhecer os laboratórios do porão.

O ambiente é claustrofóbico, com corredores apertados e pouca circulação de ar. O piso foi rebaixado algumas décadas atrás para permitir a circulação de pessoas, mas, ainda assim, o pé direito é baixo. Há muitas fiações e tubulações expostas, e uma das saídas de emergência é uma portinha em um canto de parede, com um grande degrau na frente (por causa do piso rebaixado). Várias cadeiras estão com o estofamento rasgado e remendadas com fita adesiva ou filme plástico de cozinha, dando um ar de abandono ao local.

“Temos ótimos equipamentos, só que estão instalados em um ambiente deplorável”, afirma Troncone. “Imagine que você é um aluno de pós-graduação e eu te trago aqui e digo que é onde você vai trabalhar pelos próximos quatro anos de sua vida. Dá até vergonha.”

No andar de cima, alunos precisam usar mesas enfileiradas no corredor para trabalhar.

“O fato é que esse prédio não foi projetado para abrigar laboratórios. Os laboratórios é que foram ocupando o espaço e se adequando a ele com o tempo”, diz a pesquisadora Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, diretora da Bioquímica (que tem laboratórios espalhados por cinco prédios do instituto, devido à falta de espaço). “Só que chega um momento em que não dá mais para adaptar. Está na hora de termos um grande prédio no Butantan pensado e destinado exclusivamente para pesquisa.”

Segundo Ana Marisa, o aperto não impede os pesquisadores de produzir ciência de qualidade. “Mas é claro que um ambiente adequado de trabalho faria uma grande diferença”, diz.

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FOTO: Um dos laboratórios no porão do prédio. Crédito: Evelson de Freitas/Estadão

Franco, o diretor substituto, reconhece que as instalações científicas não são ideais e diz que a diretoria está empenhada em encontrar uma solução de transferência que possa ser colocada em prática rapidamente. A restauração da parte interna do prédio não pode ser feita com os laboratórios funcionando lá dentro, o que significa que uma coisa depende obrigatoriamente da outra.

O mais provável, segundo Franco, é que os laboratórios sejam transferidos para um outro prédio, próximo dali, que nunca foi ocupado e está abandonado há pelo menos cinco anos. A construção, conhecida como “prédio da Finep” – em referência à agência de fomento federal que financiou o projeto –, foi iniciada em 2008, na gestão anterior do instituto, e custou mais de R$ 600 mil. A parte externa foi concluída, mas a obra não foi levada adiante e o prédio continua vazio e desocupado até agora. “Esse prédio parado é um absurdo”, afirma Franco. “Fizeram só o esqueleto.”

O plano, segundo ele, é refazer o projeto original (considerado inadequado para laboratórios, apesar de ter sido pensado para isso), terminar a obra e transferir os laboratórios de Farmacologia e Bioquímica que estão no prédio da biblioteca para lá. Segundo Franco, há espaço suficiente para o dois, e ainda sobraria uma “reserva técnica” de espaço livre para acomodar outras instalações de pesquisa do instituto, em caso de necessidade.

“Estamos finalizando o projeto executivo”, disse. A obra deve custar entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões.

FOTO: O “prédio da Finep”, inacabado, que deverá ser recuperado para abrigar os laboratórios que estão no prédio da biblioteca. Crédito: Evelson de Freitas/Estadão

Essa, segundo Franco, é a solução mais imediata. Num prazo um pouco mais longo, de cinco anos, o plano do instituto é construir um novo parque de pesquisa no espaço conhecido como Paço das Artes, que passaria a se chamar Instituto de Inovação em Biotecnologia do Butantan (IIBB) e reuniria todos os laboratórios de pesquisa da instituição — que hoje estão espalhados por vários prédios antigos. “Essa é a nossa menina dos olhos; é a grande aposta do nosso planejamento estratégico para os próximos cinco anos”, revela.

O projeto do IINN, que ele está apresentando em um conferência hoje, tem 35 mil metros quadrados de área construída, com instalações previstas para acomodar todas as etapas de desenvolvimento científico e tecnológico, desde a pesquisa básica até a inovação e escalonamento de produtos. “Vamos migrar toda a nossa expertise de pesquisa e desenvolvimento para lá”, diz.

Rebatizado. O prédio centenário da biblioteca, uma vez desocupado e restaurado, será ocupado pela diretoria do instituto e destinado apenas a funções administrativas. Hoje, o prédio deverá ser rebatizado oficialmente como Edifício Vital Brazil, em homenagem ao famoso médico sanitarista que o fundou, em 1914. Uma exposição contando a história da edificação e do instituto será aberta amanhã ao público e ficará em cartaz até 4 de maio, quando começarão as obras de restauração do prédio — segundo uma nota divulgada pela Secretaria de Estado de Saúde, pasta do governo estadual à qual o Instituto Butantan é vinculado.

Hoje de manhã (dia 4), um grupo de funcionários deu um abraço simbólico no prédio, em protesto contra o que dizem ser o “sucateamento” da infraestrutura patrimonial e científica do Butantan. “A parte de pesquisa do instituto está abandonada; mesmo a atual gestão não fez nada até agora”, diz o pesquisador Rogério Bertani, membro da Associação de Servidores do Instituto Butantan. “Pode ser que eles tenham um grande plano para o futuro, mas até agora não vimos mudança nenhuma.”

Planejamento geral da área proposta para o IIBB, no Paço das Artes. Crédito: Apresentação de Marcelo de Franco/Instituto Butantan

Um instituto histórico

História. O Instituto Butantan foi criado como estratégia do governo para combater um surto de peste bubônica que se alastrava no Porto de Santos em 1899. A Fazenda Butantan foi adquirida pelo Estado, que ali instalou um laboratório de produção de soro antipestoso. Na época, o laboratório era vinculado ao Instituto Bacteriológico – depois rebatizado de Adolpho Lutz. Em 1901, esse laboratório foi reconhecido como instituição autônoma e rebatizado de Instituto Serumtherápico, dirigido pelo médico Vital Brazil Mineiro da Campanha (1865-1950).

“A primeira sede era uma antiga cocheira adaptada”, conta o biólogo e zoólogo Henrique Moisés Canter, membro do Conselho de Cultura do Instituto Butantan. Canter relata que nos anos 1980, quando estavam fazendo uma reforma, encontraram resquícios dessa cocheira. “Descobriram o piso e uma das paredes. Então, a partir de fotos, esse prédio foi reconstruído e hoje abriga nosso museu.”

“Só em 1910 Vital Brazil conseguiu sensibilizar as autoridades sanitárias par a construção de um edifício próprio e mais adequado”, conta. Em 1914 era inaugurado o prédio, o primeiro construído especialmente para o Butantan. A obra foi assinada pelo arquiteto Mauro Álvaro e, de acordo com Canter, custou mais de três vezes o orçamento anual da instituição na época.

“Esse prédio tem uma importância histórica muito grande, porque sediou alguns laboratórios que foram estratégicos para o Butantan. E vamos agora batizá-lo de Vital Brazil, em homenagem ao fundador.”

FOTO: Exposição que será aberta ao público, na sala da biblioteca do prédio. Crédito: Tiago Queiroz/Estadão

Post atualizado às 16h20.

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