1. Usuário
Assine o Estadão
assine


As informações e opiniões expressas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A cura do ebola; e a diferença entre medicina e curandeirismo

hertonescobar

24 agosto 2014 | 16:06

Médico responsável pelo tratamento de dois americanos infectados com vírus nos EUA foi extremamente íntegro ao reconhecer que não sabia explicar o motivo da cura

Foto: O vírus ebola, no microscópio. Crédito: CDC Public Health Image Library

A equipe médica do Emory University Hospital, em Atlanta, deu um show de responsabilidade e integridade científica nesta semana, ao anunciar a liberação de dois pacientes americanos que haviam contraído o vírus ebola na África.

Perguntado sobre a eficácia da droga experimental que os pacientes haviam recebido ainda na África, o chefe da equipe, Bruce Ribner, disse: “Francamente, não sabemos se ela ajudou, se não fez diferença, ou mesmo se, teoricamente, retardou sua recuperação”.

Palmas para o Dr. Ribner! Imagine quão fácil teria sido dizer “Tudo indica que a droga teve um efeito positivo e que estamos a caminho de uma cura para o ebola”, ou algo desse tipo. Afinal, os pacientes contraíram o vírus, tomaram o remédio, e sobreviveram. Relação de causa e efeito, certo? Não. Na ciência, essa relação, infelizmente, poucas vezes é tão óbvia quanto gostaríamos; e o Dr. Ribner foi extremamente ético e correto ao admitir isso. Não deu crédito indevido para a droga nem conclamou para si mesmo o mérito de ter salvo os pacientes. O fato é que eles melhoraram, ponto. Porquê exatamente? Ninguém sabe ainda.

Pode-se imaginar que o fato de eles terem sido tratados num hospital de ponta, com alta tecnologia e sob os cuidados de médicos altamente qualificados, tenha influenciado positivamente na recuperação. Provavelmente. Mas talvez nem isso. Afinal, muitas das pessoas infectadas com o ebola na África também “se curam sozinhas”, mesmo quando tratadas em hospitais precários ou simplesmente ficando de repouso em casa, esperando a morte chegar.

Com o vírus da gripe acontece a mesma coisa: cada pessoa reage de uma forma diferente; algumas ficam extremamente doentes e debilitadas (podendo até morrer), outras sofrem apenas com sintomas leves, espirrando por alguns dias. E quando tomamos um remédio contra a gripe, o que ele faz é aliviar os sintomas, apenas. Ele não ataca o vírus diretamente; não “cura” a doença – quem faz isso é o nosso próprio organismo, e alguns são mais eficientes do que outros nessa tarefa, por diversos motivos. Para quem não sabe disso, porém, parece muito lógico deduzir que foi o remédio que curou a gripe. Causa e efeito, certo? Errado.

Infelizmente, muitos médicos e curandeiros oportunistas de aproveitam dessa falsa lógica e do efeito placebo associado a ela para vender tratamentos milagrosos ou isentos de comprovação científica. Está cheio de médico por aí dizendo que cura desde paralisia até autismo com injeções de células-tronco, por exemplo. A pessoa vai lá, paga uma fortuna para receber a injeção, e volta para casa se sentindo melhor. Ou faz um tratamento “espírita”, ou toma umas bolinhas de água com açúcar contra alguma virose, fica melhor depois de alguns dias, e acha que foi isso que a curou.

Imagine só o seguinte: Se em vez de serem tratados no Emory University Hospital, esses dois pacientes tivessem sido enviados para um curandeiro tribal no meio da floresta, para serem tratados com rezas e banho de fumaça sagrada, e tivessem sobrevivido da mesma forma; qual seria o critério para dizer que a fumaça sagrada é melhor ou pior do que a droga experimental do ocidente? Se um africano infectado pelo ebola vai a um curandeiro na floresta e sobrevive, enquanto que a maioria das pessoas ao seu redor morre com sangue escorrendo pelos olhos, ele tem toda razão em concluir que a fumaça do curandeiro funciona, não é mesmo? Mas a verdade é que ele foi um dos sortudos imunológicos cujo organismo conseguiu eliminar o vírus por conta própria.

É por isso que precisamos da ciência na medicina: para separar os falsos curandeiros dos verdadeiros médicos.

Comparação

A droga experimental que foi administrada aos dois pacientes (Nancy Writebol e Kent Brantly) foi a ZMapp. O site do Center for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos traz informações muito claras e responsáveis sobre ele também: “É muito cedo para saber se o ZMapp é eficiente, já que a droga está num estágio experimental e ainda não teve sua segurança ou eficácia testada em seres humanos. Alguns pacientes infectados com o vírus ebola de fato melhoram espontaneamente ou com terapia de suporte. No entanto, a melhor maneira de saber se o tratamento com o produto é eficaz é conduzir um teste clínico controlado e randomizado, para comparar os resultados em pacientes que receberam o tratamento versus aqueles que não o receberam (chamado grupo controle, ou placebo). Nenhum estudo desse tipo foi conduzido até agora”.

Em outras palavras: Não adianta comparar o Zmapp com a fumaça sagrada, nem avaliar os resultados de um ou dois casos isoladamente. A única maneira cientificamente válida de saber se um tratamento funciona é comparar os resultados de pessoas que tomaram a droga com os resultados de pessoas que achavam que estavam tomando a droga, mas na verdade estavam tomando um placebo. E isso não foi feito ainda. O fato de alguém ter melhorado depois de tomar uma injeção não significa que a injeção funcionou.

Para mais informações sobre o efeito placebo, clique aqui: http://migre.me/lb6kV

Isso significa que devemos simplesmente assistir passivamente à epidemia do ebola e esperar para ver quem morre e quem sobrevive? Claro que não. Se for possível levar melhor assistência médica aos infectados na África, certamente o sofrimento será reduzido e suas chances de sobrevivência aumentarão. De qualquer forma, a honestidade do Dr. Ribner ao relatar o que aconteceu no caso desses dois americanos foi realmente exemplar.

As informações e opiniões expressas neste blog são de responsabilidade única do autor.