A LÓGICA ECONÔMICA DA CONSERVAÇÃO

A LÓGICA ECONÔMICA DA CONSERVAÇÃO

Herton Escobar

15 Outubro 2011 | 04h03

Imagine só: Quem seria a melhor pessoa para tomar conta de uma espécie em extinção? Alguém que conheça em detalhes os hábitos da espécie, que saiba rastrear seus passos e encontrar seus ninhos? Um caçador, claro!

A conservação da biodiversidade é cheia dessas histórias de predadores convertidos em protetores. E eu conheci mais uma delas recentemente, durante meus últimos dias no Sri Lanka. Lá no sul da ilha, numa praia brava chamada Rekawa, 18 moradores locais que antes viviam de matar tartarugas marinhas e vender seus ovos agora vivem de protegê-las. São pagos por um projeto financiado pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, chamado Turtle Conservation Project (mais simples e direto impossível), para patrulhar a área de desova das tartarugas e garantir que seus ovos não sejam atacados – nem por seres humanos nem por outros predadores em potencial, como cachorros e lagartos.

As tartarugas marinhas colocam dezenas de ovos de cada vez, mas só 1 em cada 1.000 tartaruguinhas que nascem sobrevivem até a idade reprodutiva – tempo suficiente para voltar àquela mesma praia e colocar seus próprios ovos, garantindo a continuidade da espécie. Então, cada ovo conta, e muito! Os ex-caçadores e agora-protetores recebem $12.000 rupias do Sri Lanka (cerca de US$110) para patrulhar uma faixa de 2 km de praia, usada como área de desova por centenas de tartarugas todos os anos (total de aproximadamente 700 ninhos por ano, de cinco espécies: tartaruga-verde, tartaruga-oliva, tartaruga-de-couro, tartaruga-de-pente  e cabeçuda, todas ameaçadas de extinção).

O segredo da conversão é simples: eles ganham mais dinheiro agora protegendo as tartarugas do que ganhavam antes, caçando-as. Um dinheirinho garantido, pingando na conta todo fim de mês. Muito melhor do que ficar vendendo carne e ovo de tartaruga na ilegalidade, com riscos permanentes e ganhos esporádicos.

Não que eles sejam pessoas más, que só pensam em dinheiro. São pessoas simples, pobres, que encontravam na caça uma maneira simples de pagar as contas e botar comida na mesa para suas famílias. Nada pessoal contra as tartarugas.

Exemplos como esse só reforçam minha opinião de que os principais problemas ambientais do planeta não são, na verdade, problemas ambientais. Eles se manifestam como problemas ambientais, mas suas causas e suas consequências são, na maioria dos casos, socioeconômicas. Se quisermos resolver a causa do problema, e não apenas seus sintomas, precisamos de soluções como essa do Sri Lanka, que atacam suas raízes sociais e econômicas.

Uma outra opção teria sido contratar guardas para patrulhar as praias e expulsar os predadores humanos para longe. Isso resolveria o problema das tartarugas, mas não o problema das pessoas – que continuariam pobres e, na falta de emprego, teriam de arrumar alguma outra atividade pouco digna para sobreviver.

A mesma lógica se aplica à Amazônia e tantos outros lugares e espécies ameaçadas. As pessoas derrubam a floresta porque é a única maneira que conhecem de fazer dinheiro com ela – seja por necessidade, ignorância ou ganância.O governo conseguiu reduzir o desmatamento nos últimos anos principalmente com ações de comando e controle. Muito bem. Mas, se não implementar uma política eficiente de valorização da floresta em pé em grande escala, criando alternativas e oportunidades econômicas para o desenvolvimento da região, porém, não há polícia ou exército que vá segurar isso por muito tempo.

É triste ter de reduzir tudo a uma soma de dinheiro para mais ou para menos, mas, infelizmente a realidade é essa. A única maneira de proteger o meio ambiente a longo prazo, de forma sustentável, é garantir que a natureza valha mais viva do que morta. Só consciência não basta. Tem de ter dinheiro no bolso. É a natureza humana.

Abraços a todos.

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Complemento: Por coincidência, descobri que na mesma semana em que eu visitei a praia de Rekawa foi publicado na revista PLoS One um estudo sobre as 11 populações de tartarugas mais ameaçadas do mundo, e 3 delas desovam no Sri Lanka, o que aumenta ainda mais a importância do projeto e a responsabilidade desses 18 protetores. O estudo, realizado por um grupo de especialistas da IUCN e patrocinado pela ONG Conservação Internacional, pode ser lido aqui: Global Conservation Priority for Marine Turtles.