A última gota antes da sede

A última gota antes da sede

Herton Escobar

13 Maio 2014 | 20h42

Se matarmos o volume morto em 2014 e não chover em 2015, vamos ressuscitar água de onde?

FOTO: Funcionário mata a sede no canteiro de obras para bombeamento do volume morto da represa Jaguari. Crédito: Nilton Fukuda/Estadão

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

O governo do Estado insiste em dizer para ficarmos tranquilos, que o volume morto vai ressuscitar o abastecimento, que a possibilidade de racionamento está descartada em São Paulo, e que basta economizar um pouco mais agora e teremos água suficiente para abastecer nossos filtros e torneiras até novembro, garantido. Outros dizem que não; que a água vai acabar antes disso, possivelmente já em julho ou agosto, mesmo com o uso do volume morto.

Seja qual for a conta certa, o fato é o seguinte: Podemos até escapar do racionamento neste ano, sugando até a última gota d’água das represas, mas comecem a rezar para São Pedro, porque se não chover (e chover muito) no próximo verão, vamos ter de importar carros-pipa do Nordeste para não morrer de sede em 2015. O que vai salvar nossa pele neste inverno é o volume morto. E depois que o volume morto acabar, já era. Se tivermos o azar de sofrer outra estiagem em 2015, não vai ter racionamento que resolva, porque não vai ter mais água para racionar.

Já vivemos uma situação semelhante em 2003/2004, e naquela ocasião fomos “salvos por uma canetada”, conforme relatou o biólogo Fernando Reinach em sua última coluna no Estadão, do dia 10 de maio: “Ressuscitando morto com caneta” (http://migre.me/jaLQk)

Recomendo a leitura do artigo para quem quiser entender um pouco melhor os números envolvidos na situação. E copio abaixo os parágrafos finais, primorosos:

Fernando Reinach: (…) “Esses são os fatos. E também é fato que, passados somente 10 anos, nos encontramos na mesma situação de 2004, sem água, e iniciando um novo assalto ao volume morto do Cantareira. Só que, agora, o volume morto é metade do anterior.

O comportamento da Agência Nacional de Água (um órgão federal) e do DAEE e da Sabesp (estaduais) é muito parecido com o de um jovem casal que decide manter uma poupança de R$ 1 mil para as emergências. Mas, quando nasce o primeiro filho, e as contas apertam, apesar do aumento das responsabilidades, decidem que já não precisam de R$ 1 mil de reserva, mas somente R$ 500. Todos sabemos que isso é um erro. Quanto maior o risco, maior deve ser a poupança.

Em 2004, e novamente em 2014, com o aumento no número de habitantes de São Paulo e as mudanças climáticas, o risco de desabastecimento fica maior. Mas, em vez de aumentar as reservas de água disponíveis para as 9 milhões de pessoas que só podem ser abastecidas pelo Cantareira, decidimos sacar da poupança, diminuindo a reserva estratégica do Sistema Cantareira. Não é a toa que muitos se preocupam com a capacidade de recuperação da represa. Quando um jovem casal acaba com a poupança, e entra no cheque especial, sabemos que fica difícil sair.

Quanto à caneta que ressuscita mortos, se existisse, seu lugar deveria ser nos hospitais.

Sem mais. Nem água, nem palavras.

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