A USP é muito boa, mas poderia ser muito melhor

A USP é muito boa, mas poderia ser muito melhor

Herton Escobar

24 Janeiro 2014 | 18h11

FOTO: Praça do Relógio, um dos símbolos da USP na Cidade Universitária. Crédito: Nilton Fukuda/Estadão

Herton Escobar

O jornal O Estado de S. Paulo publicou hoje um caderno especial de reportagens sobre o aniversário de 80 anos da Universidade de São Paulo (USP), a maior e melhor (não em todas as áreas, mas em muitas delas) instituição de ensino e pesquisa da América Latina.

Um dos destaques do pacote é uma entrevista com o novo reitor da USP, o médico Marco Antônio Zago, que toma posse do cargo amanhã (25). Chamo atenção abaixo para duas perguntas e respostas dele que me chamaram a atenção:

Estado: A USP é a melhor universidade do Brasil em pesquisa, mas há avaliações de que ela deve fazer mais e se aproximar das melhores do mundo. É realista ambicionar estar entre as 10 melhores?
Zago: Depende da escala que usamos para apontar os melhores. Pensando nos atuais sistemas de rankings, a USP provavelmente nunca será umas das dez melhores.  Porque as instituições no topo são de tamanho médio para pequeno, com grandes orçamentos, focadas na pesquisa. As 12 mais importantes do mundo têm, em média, 17 mil alunos. Nós temos 90 mil. É importante olhar para os rankings, mas não podemos ser escravos deles.

Estado: Como melhorar o impacto dessas pesquisas no mundo?
Zago: Aqui estamos falando de medida de impacto de trabalho da área de ciências, deixando de lado humanidades, artes, áreas em que a USP também tem expressão muito grande e não se mede nesses parâmetros. Na ciência, o elemento mais importante é contratar bem os novos docentes. Se um docente pesquisador for bom, vai ficar 30 anos. Mas, se for ruim, também vai ficar 30 anos.

O novo reitor menciona duas “bolas de ferro” pesadíssimas que, a meu ver, comprometem significativamente o dinamismo e a competitividade da USP — assim como de outras grandes universidades públicas do Brasil.

A primeira delas é que a USP é uma instituição gigantesca, com 48 mil alunos de graduação a mais do que a média das top 10 universidades do mundo (50 mil a mais do que Harvard, por exemplo, como mostra o infográfico abaixo, produzido pela equipe de infografia do Estadão). Por um lado esse gigantismo é bom, especialmente num país com o perfil socioeconômico do Brasil, onde o acesso ao ensino superior de qualidade ainda é restrito, pois significa que muitos jovens estão recebendo uma educação universitária de alto nível, sem pagar nada por isso. Quanto mais gente tiver acesso a ensino público e gratuito de qualidade, melhor, claro. Mas será correto concentrar tanta responsabilidade assim na USP?

O lado ruim desse gigantismo é que torna-se extremamente difícil — quase impossível — manter um alto nível de excelência e competitividade em todos os departamentos da instituição (tanto no âmbito acadêmico quanto administrativo). A USP é tão grande que, na média, ainda consegue ser a melhor do Brasil. Mas poderia ser muito melhor, talvez, se fosse um pouco menor. Com quase 6 mil docentes e mais de 90 mil alunos (incluindo graduação e pós-graduação), não tem como ser tão boa assim em tudo. São quase 100 mil pessoas; sem contar os funcionários! No meio dessa grandeza toda vai ter muito aluno bom, mas também muito aluno ruim, inevitavelmente, por mais exigente que seja o processo seletivo. O mesmo vale para os professores.

É uma máquina gigantesca, e uma máquina pública, o que significa que falta óleo e manutenção em muitas de suas partes. No Brasil, como todo mundo sabe, as máquinas públicas são lentas e ineficientes, carregadas de burocracia — e as universidades públicas não são exceção a essa regra. Mas poderiam ser, se tivessem um tratamento diferenciado dentro do sistema. “As universidades não podem ser tratadas como uma repartição pública qualquer”, dizem os especialistas. As instituições precisam de autonomia, não apenas financeira, mas também administrativa. Precisam de autonomia para comprar equipamentos e para demitir ou contratar funcionários de acordo com a necessidade, de maneira ágil e pautada pela competência, como fazem as instituições privadas.

Uma das coisas que mais me impressiona nas universidades estrangeiras, dos EUA e da Europa, é o dinamismo e o profissionalismo do corpo docente e da administração dessas instituições. Elas competem entre si pelos melhores alunos e pelos melhores professores e pesquisadores, como clubes de futebol que competem pela contratação dos melhores craques. Não existe essa “fidelidade institucional” do funcionalismo público do Brasil, em que um aluno se forma numa universidade, presta concurso para professor na mesma universidade e lá passa o resto da sua vida, aconteça o que acontecer. Nos EUA, um bom aluno pode se formar na Universidade de Michigan, fazer doutorado em Harvard, pós-doc na NYU, receber propostas de emprego de várias universidades e acabar cruzando o país para trabalhar em Berkeley, na Califórnia. Cinco anos depois, se for um pesquisador de destaque, pode muito bem receber uma proposta da Caltech e se mudar para lá, com um salário melhor e um laboratório melhor. Normal. Imagine isso no Brasil … Como afirma Zago: “Na ciência, o elemento mais importante é contratar bem os novos docentes. Se um docente pesquisador for bom, vai ficar 30 anos. Mas, se for ruim, também vai ficar 30 anos.”

Como é que uma universidade pode almejar ser uma das melhores do mundo se não tem autonomia nem para demitir um professor ruim e precisa abrir concorrência para comprar até um punhado de lápis? Não tem como. Sem falar nas infestações de piolho de pombo e construção de prédios em terrenos contaminados — histórias inacreditáveis da USP Leste.

Talvez o ideal fosse criar uma instituição de caráter misto. O acesso ao ensino pode continuar público e gratuito, mas a gestão da universidade precisa ser profissionalizada (não privatizada), para funcionar mais como uma empresa e menos como uma repartição pública. A USP é muito boa, mas poderia ser muito melhor.

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FOTO: Biblioteca Brasiliana USP. Crédito: Nilton Fukuda/Estadão

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