A VIDA COMO VOCÊ NÃO A VÊ

A VIDA COMO VOCÊ NÃO A VÊ

Herton Escobar

29 Fevereiro 2012 | 15h55

 

Imagine só o seguinte: Alguém pede para que você entre numa sala de cinema e diga se há vida lá dentro. Você entra na sala e ela está vazia. O que você responde?

Não há vida?

Claro que há!

Não há seres humanos. Mas há muita vida microscópica (em quantidades que podem variar de acordo com as condições de limpeza de cada cinema … mas que certamente não chegam a zero). As paredes, as cadeiras, o carpete, o ar, a pipoca que caiu debaixo do banco … tudo está coberto de bactérias, fungos e outras formas de vida microscópica. Não só no cinema, mas na sua casa, no seu banheiro, na sua cozinha, no seu restaurante favorito, no seu carro, na redação do jornal O Estado de S. Paulo na qual estou escrevendo este post, na sua pele … tudo coberto de microrganismos.

Nós, em geral, não prestamos muita atenção neles, a não ser que nos causem algum problema. Mas eles estão lá, invisíveis, bem diante dos nossos olhos e debaixo do nosso nariz. Sempre! Pode confiar.

Pensei nisso recentemente quando viajei pelo Deserto do Atacama, no norte do Chile. Um dos lugares mais incríveis deste planeta. E o mais seco de todos, com certeza. De uma beleza assustadora. Uma desolação sem fim, onde você dirige por horas e horas sem ver NADA além de areia e rocha em todas as direções. Nem um pingo de verde a vista. Nada que se mova, além do vento. Nenhuma planta, nenhum pássaro, nenhum lagartinho que seja. Um lugar, aparentemente, morto. Sem vida.

Isto é … sem vida macroscópica.

Mesmo sem ter como ver ou saber, eu tinha certeza de que havia vida ali em algum lugar. Vida microscópica. Tal qual na sala de cinema vazia.

Pois então … pesquisadores espanhóis e chilenos coletaram recentemente amostras de solo salgado da região do Salar Grande, no Atacama, e descobriram um camada de microrganismos (bactérias e arqueias) vivendo 2 metros abaixo da superfície. Felizes da vida, apesar das condições “desumanas” de seu hábitat de preferência. Muito, muito mais agressivas do que a de uma pipoca no chão de uma sala de cinema. Porém, muito mais agradáveis do que na superfície do deserto, onde quase nada consegue sobreviver à combinação destruidora de calor, secura e radiação solar.

A pesquisa, publicada em dezembro na revista Astrobiology, foi feita para testar um equipamento chamado LDChip, ou Chip de Detecção de Vida (em inglês), que os pesquisadores esperam um dia usar para pesquisar vida em Marte — que tem paisagens incrivelmente parecidas com as do Atacama. (Ou é o Atacama que tem paisagens incrivelmente parecidas com a de Marte?? … depende do nível de antropocentrismo do observador) Quem garante que por baixo daquela camada superficial “morta” do Planeta Vermelho também não haja um monte de micróbios valentes vivendo alegremente e esperando para serem descobertos? Imagine só!

Abraços a todos.

FOTO: Paisagem de Marte fotografada pelo robô Spirit, da Nasa. Repare na semelhança com a paisagem da foto no alto do post, que eu fiz algumas semanas atrás no Deserto do Atacama. Incrível!