ABELHAS ASSASSINADAS

ABELHAS ASSASSINADAS

Herton Escobar

09 Janeiro 2012 | 20h15

FOTO: Christopher Quock (mosca parasita sobre abelha)

 

Imagine só se de repente, num inverno qualquer, um terço dos habitantes de uma cidade simplesmente desparecessem. Saíssem para comprar pão e nunca mais voltassem. É isso, mais ou menos, o que vem acontecendo com as abelhas melíferas dos EUA nos últimos cinco anos. As abelhas deixam suas colmeias para coletar néctar ou qualquer outra coisa e nunca mais voltam. Morrem. Desaparecem. Mas ninguém sabe exatamente porquê.

O problema começou em 2006, nos EUA, onde abelhas criadas são usadas em larga escala na agricultura para polinização de várias culturas. Criadores começaram a reportar perdas de 30% ou mais de suas colônias (milhões e milhões de abelhas), e o problema permanece desde então, cheio de mistérios. Muitas pesquisas foram feitas e muitas hipóteses foram levantadas, mas até hoje ninguém chegou a uma explicação conclusiva sobre o que está matando as abelhas. O fenômeno foi batizado de Colony Collapse Disorder (CCD) e a suspeita é que vários fatores estejam contribuindo para a mortandade disseminada dos insetos, incluindo fungos, bactérias, vírus e pesticidas.

E como se isso não fosse suficiente, mais um vilão entrou para a lista de suspeitos na semana passada: uma mosca parasita que coloca seus ovos dentro do abdômen das abelhas. Segundo um estudo publicado na revista PLoS One, ao serem infectadas as abelhas ficam num estado tipo “zumbi” — voam para longe das colmeias, desorientadas, e acabam morrendo. (Um roteiro que se encaixa muito bem no quadro de sintomas da CCD, já que, apesar da mortandade, não se encontra abelhas mortas próximas às colmeias.) Sete dias depois, as larvas da mosca “brotam” de dentro do corpo da abelha morta.

A mosca parasita, da espécie Apocephalus borealis, já era conhecida dos cientistas, mas não se sabia que ela infectava também as abelhas melíferas (Appis mellifera). A descoberta foi feita por acaso, por um professor de biologia da Universidade Estadual de São Francisco, na Califórnia, um dos Estados americanos mais prejudicados pela CCD (só a produção de amêndoas de lá, por exemplo, emprega cerca de 1,5 milhão de colônias de abelhas para polinização natural, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos).

Os pesquisadores não propõem que a mosca seja a principal causa da CCD, muito menos a única … mas pode ser, quem sabe, mais uma peça do quebra-cabeça.

Ler isso me fez lembrar da história dos abutres asiáticos, sobre os quais escrevi no mês passado, na minha última reportagem da série “Repórter Viajante“. Os abutres começaram a “desaparecer” por volta de 1994, e os cientistas só descobriram o que estava matando as aves em 2004, dez anos depois: envenenamento por diclofenaco, uma droga veterinária usada para tratar vacas (para saber mais detalhes, leia a reportagem aqui).

Assim como no caso das abelhas,  não havia “corpos” dos bichos mortos … Os abutres pareciam simplesmente “desaparecer” , pois morriam no topo das árvores ou outros lugares de difícil acesso, e seus corpos eram rapidamente consumidos por outros animais. E, assim como no caso das abelhas, especulou-se muito sobre infecções por vírus ou bactérias … até que um exame toxicológico mais detalhado identificou o diclofenaco como culpado. Nesse meio tempo, milhões e milhões de abutres morreram intoxicados, deixando três espécies à beira da extinção.

Tomara que as abelhas tenham mais sorte.

Abraços a todos.