Agropecuária na Amazônia: É possível produzir sem desmatar, diz pesquisador da Embrapa

Agropecuária na Amazônia: É possível produzir sem desmatar, diz pesquisador da Embrapa

Basta aproveitar melhor as áreas que já foram abertas, com boas práticas agrícolas e boa tecnologia, garante o especialista Eduardo Assad. Ele será um dos palestrantes do próximo USP Talks, sobre modelos de desenvolvimento para a Amazônia, dia 25 de outubro

Herton Escobar

20 Outubro 2017 | 19h24

Pecuária, agricultura e floresta em Mato Grosso. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Madeira, gado, soja. Esse tem sido o cardápio de exploração econômica da Amazônia até agora, com perdas significativas de cobertura florestal ao longo das décadas. A retórica de que é preciso derrubar a Amazônia para produzir riqueza, porém, não encontra mais sustentação nos fatos. “Não há nenhuma necessidade de se aumentar o desmatamento para aumentar a produção agropecuária. Esse argumento é ultrapassado”, diz o pesquisador Eduardo Assad, da Embrapa Informática Agropecuária.

Os 76 milhões de hectares já desmatados, segundo ele, são mais do que suficientes para aumentar a produção de carne e grãos — basta fazer um melhor uso dessas terras. “Se considerarmos as boas práticas agrícolas e as condições mais adaptadas de manejo e conservação dos solos da região amazônica, a possibilidade de termos uma agricultura mais sustentável na região é muito grande”, diz o pesquisador, um dos maiores especialistas no assunto no país (leia entrevista abaixo).

Assad será um dos palestrantes do próximo USP Talks, dia 25 de outubro, sobre modelos de desenvolvimento para a Amazônia. O evento é aberto, gratuito, e terá transmissão ao vivo pela internet. O outro palestrante será o pesquisador Carlos Nobre. Veja os detalhes e confirme sua presença aqui: USP Talks #16: Amazônia.


Para assistir aos eventos anteriores do USP Talks, veja o nosso canal no YouTube.

O agronegócio costuma ser apontado como o grande vilão da destruição da Amazônia. Isso é justo? Qual é o papel da agricultura e da pecuária entre os vários atores que atuam no desmatamento da Amazônia?
Nos anos 1980, uma rápida visita a Belém do Pará poderia mostrar o tamanho do estrago. Milhares de toras de madeira de lei expostas ao tempo, aguardando para serem exportadas para a Europa e os Estados Unidos. Nesse caso, o vilão do desmatamento era o contrabando de madeira, impulsionado  por geopolíticas de ocupação do solo, preço de terra e mercado. A agricultura, e principalmente a pecuária, vieram a reboque — primeiro a madeira, depois a pecuária, e finalmente o grão. Vários assentamentos e incentivos à produção  agropecuária foram criados oficialmente pelos governos. Até a implantação de políticas de comando e controle para a redução do desmatamento em 2007, a agricultura e a pecuária foram, sim, alguns dos  principais vetores responsáveis pelo aumento do desmatamento na Amazônia.

Como tornar a agropecuária mais sustentável na Amazônia?
Cerca de 76 milhões de hectares já foram desmatados na Amazônia, considerados com corte raso — uma área equivalente a três vezes o Estado de São Paulo. A proposta de sustentabilidade é intensificar a produção agropecuária nessas áreas já desmatadas. Como? Com sistemas agroflorestais, sistemas integrados lavoura-pecuária e lavoura-pecuária-floresta, que utilizam uma mesma área para várias culturas. O impacto desses sistemas na emissão de gases de efeito estufa é muito menor, e você evita a expansão da fronteira agrícola. Se considerarmos as boas práticas agrícolas e as condições mais adaptadas de manejo e conservação dos solos da região amazônica, a possibilidade de termos uma agricultura mais sustentável na região é muito grande.

O retorno econômico que o agronegócio traz para o Brasil justifica abrir novas áreas de floresta para essa atividade? Existe espaço para a agropecuária crescer de forma sustentável na Amazônia, ou o senhor defende uma política de “desmatamento zero”, aproveitando apenas áreas já abertas no passado?
Esses cálculos já foram feitos de maneira exaustiva. Não, não há nenhuma necessidade de se aumentar o desmatamento para aumentar a produção agropecuária. Esse argumento é ultrapassado, fundamentado em especulação imobiliária rural, uma vez que existem tecnologias disponíveis para aumentar a produtividade das culturas e da pecuária sem necessidade de aumento de área. Um exemplo é o aumento da produtividade da pecuária, com mais cabeças por hectare, e a redução do desmatamento no período 2005-2017. Fica evidente que a pecuária de descolou do desmatamento — ou seja, aumentou a produção de carne, enquanto que o desmatamento caiu. Defendo o melhor aproveitamento das áreas já abertas, por uma agropecuária com intensificação produtiva e sustentável.