Aids volta a crescer entre homens jovens homossexuais em São Paulo

Aids volta a crescer entre homens jovens homossexuais em São Paulo

Herton Escobar

01 Dezembro 2013 | 19h02

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo 

A incidência de aids no município de São Paulo voltou a crescer entre os homens, principalmente entre os homossexuais, apesar de uma redução significativa dos números da epidemia na população paulistana em geral ao longo dos últimos 15 anos, segundo o último balanço epidemiológico divulgado na sexta-feira pelo Programa Municipal de DST/Aids.

O avanço da doença no município recuou cerca de 60% entre 1998 e 2012, passando de 47,6 para 19,3 novos casos registrados anualmente para cada 100 mil habitantes. A participação dos homens nesse novo cenário, porém, está aumentando. A divisão de novos casos registrados por gênero, que era de dois homens para cada uma mulher (2/1) em 1998, aumentou para 3/1 em 2012, e a expectativa é que aumente para 4/1 já nos próximos anos.

A projeção é feita com base nas estatísticas de pessoas já infectadas pelo HIV e que deverão desenvolver a doença. “Se olharmos só para os números de infectados pelo vírus, a proporção este ano já é de 4/1”, disse ao Estado a coordenadora do programa municipal, Eliana Gutierrez. “O HIV hoje nos diz onde estará a aids amanhã” – levando-se em conta que há uma janela de tempo entre a infecção e o desenvolvimento da doença, explica ela.

A maior preocupação agora é com a população de homens que fazem sexo com homens (HSH): em 2012, segundo o estudo, eles passaram a representar quase metade (47%) dos novos casos de aids registrados na população masculina do município, comparado a 39%, em 2008. Os dados mostram também que a incidência está aumentando entre os jovens, nas faixas de 13 a 29 anos.

“Vemos uma reconcentração da epidemia entre homens, principalmente homens jovens e que fazem sexo com outros homens”, diz Eliana. “Agora é pegar essas informações e partir para a ação. O cenário da epidemia hoje é diferente do que era ontem e é diferente do que vai ser amanhã. Temos de fazer correções de rumo a todo momento.”

Em termos de distribuição geográfica, a maior concentração de casos de aids no município está na região central da cidade. Historicamente, desde 1980, cerca de 12,5% das notificações da doença foram feitas pela Supervisão Técnica da Sé. Dentre a população de homens que fazem sexo com homens (HSH), a região concentra 37% dos casos. Segundo o articulador do Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids (Mopaids), Américo Nunes Neto, isso reflete a “diversidade de opções de entretenimento para a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros)” que existe no centro da cidade.

Com relação ao aumento da incidência da doença entre jovens homossexuais, ele reconhece que “há um certo relaxamento no comportamento preventivo” dessa comunidade. “Isso mostra que temos de pensar novas estratégias e novas ações de prevenção”, argumenta. “Já avançamos muito, mas temos muito que avançar ainda.”

Segundo Eliana, esse crescimento pode estar relacionado ao fato de a “rede sexual” de homens jovens que fazem sexo com outros homens é mais “fechada” do que a da população heterossexual em geral. “Há uma quantidade grande de vírus circulando numa comunidade relativamente pequena e muito fechada, em que muita gente se relaciona”, diz. Consequentemente, o vírus se espalha dentro dessa rede de forma mais rápida.

Outro grupo vulnerável identificado pelo estudo é o de pretos. A taxa de incidência entre pessoas que se identificaram como pretas no Censo do IBGE de 2010 é mais do que o dobro do que entre pessoas que se identificaram como brancas: 39,7% e 18%, respectivamente. Ou seja: para cada 100 pessoas diagnosticadas com aids, cerca de 40 são pretas e 18, brancas.

“A aids está pegando muito mais pesado com os pretos”, diz Eliana. “Temos de enfrentar essa iniquidade, que é inaceitável.”

Em números absolutos, 2.202 pessoas foram diagnosticadas com aids no município de São Paulo em 2012, comparado a 4.874 pessoas em 1998. A mortalidade associada à doença também caiu drasticamente nesse período, passando de 31,2 para 6,8 mortes para cada 100 mil habitantes. Ainda assim, devido ao tamanho da cidade, isso significa que 779 pessoas morreram de aids em São Paulo no ano passado. “São quase duas mortes por dia”, aponta Eliana.