Ambientalistas querem mico na medalha de ouro das Olimpíadas

Ambientalistas querem mico na medalha de ouro das Olimpíadas

Proposta foi apresentada pelo renomado primatólogo americano Russell Mittermeier, da ONG Conservação Internacional. Mico-leão-dourado só existe na Mata Atlântica do Rio e está ameaçado de extinção.

Herton Escobar

24 Setembro 2015 | 14h04

Proposta da medalha de ouro, desenhada por Stephen Nash. Crédito: Stephen Nash

Proposta da medalha de ouro, desenhada por Stephen Nash. Crédito: Stephen Nash/via Estadão

Que tal um mico-leão-dourado na medalha de ouro das Olimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro? A proposta foi apresentada hoje pelo renomado primatólogo e conservacionista americano Russell Mittermeier, no 8º Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC), em Curitiba, para uma plateia de mais de mil cientistas e ambientalistas — que aplaudiram prontamente a ideia.

“É um bicho dourado, ameaçado de extinção, que só existe no Brasil. O que mais você poderia quer?”, disse Mittermeier, vice-presidente executivo da ONG Conservação Internacional, que trabalhou muitos anos no País e fala fluentemente português.

É a segunda tentativa do pesquisador de usar as Olimpíadas como vitrine para a conservação da biodiversidade brasileira. No ano passado, ele já havia apoiado a proposta de emplacar o muriqui (maior macaco das Américas, também endêmico da Mata Atlântica, muito simpático e ameaçado de extinção) como mascote do torneio. Em vez disso, o comitê organizador dos jogos optou por um gato amarelo, sem espécie definida e com cara de desenho japonês, que supostamente representa toda a fauna brasileira (#sqn). “Fiquei um pouco frustrado com isso”, disse Mittermeier.


A ideia de estampar o mico-leão-dourado na medalha logo brilhou aos olhos dos conservacionistas presentes no evento. “É a cara do Rio de Janeiro e a cara do Brasil. E ainda por cima é da cor da medalha. Tem tudo a ver”, comemorou Luis Paulo Ferraz, secretário-executivo da Associação Mico-Leão-Dourado. “É uma história de sucesso e um símbolo da conservação da natureza no Brasil”, completou.

A espécie está na nota de R$ 20. Crédito: Reprodução

A espécie está na nota de R$ 20. Crédito: Reprodução

Cientificamente chamado Leontopithecus rosalia, o mico-leão-dourado só existe em alguns fragmentos de Mata Atlântica no Rio de Janeiro. Apesar de ainda estar ameaçada de extinção, o status da espécie vem melhorando ao longo dos anos, graças a um longo trabalho de conservação realizado por organizações governamentais e não governamentais. Em 2008, sua classificação internacional na Lista Vermelha da IUCN passou de “Criticamente em perigo” para “Em perigo”. O mesmo ocorreu na última revisão da lista nacional de espécies ameaçadas do ICMBio, publicada em dezembro de 2014.

O desenho da medalha foi feito ontem mesmo pelo ilustrador de vida selvagem Stephen Nash, da Stony Brook University (EUA) — a pedido de Mittermeier, seu amigo de longa data. Nash é especialista em desenhos de primatas, reconhecido internacionalmente, e já teve até uma espécie batizada em sua homenagem (Callicebus stephennashi). Ele enviou uma cópia da ilustração com exclusividade ao Estado.

Organizações não-governamentais estão organizando uma moção para ser votada amanhã, no final do congresso, apoiando oficialmente a proposta da medalha. E certamente não faltarão sugestões de outras espécies para a prata e o bronze.

Vale lembrar aqui o caso do Fuleco, o mascote da Copa do Mundo, inspirado no tatu-bola, que não trouxe nenhum benefício de conservação para a espécie: http://goo.gl/OheKOr

FOTO: O tatu-bola, Tolypeutes tricinctus. Crédito: J.A. Siqueira

FOTO: O tatu-bola, Tolypeutes tricinctus. Crédito: J.A. Siqueira

*O repórter viajou a Curitiba a convite da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza