Pesquisadores são ameaçados por ativistas contrários a pesquisas com animais

Pesquisadores são ameaçados por ativistas contrários a pesquisas com animais

Herton Escobar

08 Novembro 2013 | 15h00

FOTO: Portões trancados do Instituto Royal, que decidiu fechar as portas após os estragos causados pela invasão. Crédito: Epitacio Pessoa/Estadão

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Três semanas após a depredação e roubo de beagles do Instituto Royal, em São Roque (SP), um clima de apreensão paira sobre cientistas e instituições de pesquisa – incluindo universidades federais – que trabalham com animais. Várias delas têm recebido ameaças de indivíduos ou grupos radicais contrários a essa prática, segundo o biofísico Marcelo Morales, ex-coordenador do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea). “Estamos diante de um estado de terrorismo e afronta à soberania nacional”, disse ele ontem ao Estado. “A ordem pública está sendo colocada em cheque.”

Um dos ameaçados é o pesquisador Ricardo Gattass, do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde Morales também trabalha. Uma mensagem postada ontem no Facebook por um usuário identificado como “black bloc” dizia que Gattass recebera aprovação da comissão de bioética da instituição para “abrir cérebros de macacos para implantar eletrodos com a finalidade de estudar as emoções”, e que era preciso “fazer algum movimento em relação a isso”.


A mensagem, escrita originalmente por alguém que diz ser da UFRJ, vinha acompanhada da foto de um macaco com instrumentos acoplados ao crânio – uma imagem sem identificação de origem, que já circula na internet há vários anos e não tem nenhuma relação com o projeto da UFRJ. O post recebeu centenas de comentários de pessoas revoltadas. O texto fornecia o endereço e e-mail do pesquisador, e pedia que as pessoas enviassem a ele mensagens de repúdio a essa “atrocidade”.

“Tenho recebido muitas mensagens agressivas de pessoas mal informadas, que alegam ter tido acesso a protocolos da comissão de ética de uso de animais do Centro de Ciências da Saúde, segundo os quais eu estaria estudando emoção em macacos usando métodos invasivos”, disse Gattass ao Estado. Especialista em neurofisiologia, de 65 anos, ele é professor emérito da UFRJ e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), com um histórico de pesquisa voltado principalmente para o estudo de mecanismos neuronais ligados à percepção e ao processamento visual.

“Nós neurocientistas temos a obrigação de esclarecer a todos que experimentos com primatas não humanos e humanos são necessários para resolver os problemas das demências, da doença de Alzheimer, das esquizofrenias e das doenças bipolares. Nós estamos empenhados em compreender o funcionamento do cérebro na saúde e na doença para podermos aliviar os impactos dessas doenças na sociedade. Aqueles que têm um doente mental na família sabem dos impactos emocionais, econômicos e sociais na sociedade”, argumenta o pesquisador.

A UFRJ informou ontem à noite que a segurança no Centro de Ciências da Saúde (onde fica o Instituto de Biofísica) foi reforçada e que a Polícia Federal já foi informada das ameaças. A universidade confirmou que há pesquisas com macacos no instituto, mas disse que as informações postadas no Facebook não são verdadeiras e que todos os projetos de pesquisa são devidamente aprovados e supervisionados pelo Concea, assim como pelos comitês de ética internos da instituição. “Todos os nossos protocolos foram aprovados formalmente e são feitos de modo a garantir o não sofrimento por dor ou estresse por parte do animal”, afirma Gattass.

O Instituto Butantã, em São Paulo, também informou ter reforçado recentemente seu esquema de segurança, por conta de “boatos” que estariam circulando sobre as pesquisas com macacos na instituição. Um dos projetos em andamento é o teste de uma vacina contra o vírus da aids, em macacos resos.

Segundo Morales, a orientação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) é que as instituições de pesquisa federais que receberem ameaças entrem com medidas cautelares na Justiça, como forma de resguardar a integridade física dos pesquisadores, do patrimônio público e dos próprios animais. “As instituições estão em alerta, e a Polícia Federal está sabendo de tudo”, disse. “Aqui não vai ser como no Instituto Royal; aqui a PF vai entrar com todas as medidas necessárias”, completou Morales, que diz já ter recebido ameaças de agressão física por e-mail.

Ele cobra um “posicionamento firme” do governo federal sobre o assunto. “O ministro Marco Antonio Raupp (do MCTI) fez um pronunciamento no Congresso, mas ele é só uma voz. Está na hora de as instâncias superiores de pronunciarem, de forma articulada”, disse. “Ou será que mais institutos terão de ser invadidos, ou até algum pesquisador morto – como já ocorreu em outras situações –, para que o poder público tome ciência do que está acontecendo?”

O MCTI foi procurado ontem pela reportagem, mas o atual coordenador do Concea, José Mauro Granjeiro (recém-empossado na segunda-feira, no lugar no Morales), que poderia comentar o caso, estava em viagem na Áustria.

O Instituto Royal anunciou esta semana que encerraria suas atividades em São Roque por conta do “ambiente de insegurança” e das “elevadas e irreparáveis perdas sofridas”. O laboratório foi invadido no dia 18 de outubro por ativistas contrários ao uso de animais em pesquisa. Eles roubaram 178 beagles que eram usados em estudos relacionados ao tratamento do câncer, diabete, hipertensão e outras doenças.