AMEBAS FAZENDEIRAS

AMEBAS FAZENDEIRAS

Herton Escobar

24 Janeiro 2011 | 11h42

FOTO: Scott Solomon

.

Pense bem da próxima vez que chamar alguém de “ameba”, como se isso fosse um xingamento …

Segundo uma pesquisa publicada na última edição da revista Nature, as amebas também são fazendeiras. (Ou pelo menos uma espécie, a Dictyostelium discoideum, que foi o tema do estudo.) Isso mesmo. Amebas praticam agricultura. Imagine só!

As amebas Dictyostelium discoideum vivem no solo e se alimentam de bactérias. Quando a disponibilidade de comida no ambiente é farta, elas existem como criaturas unicelulares (feitas de uma única célula), independentes e microscópicas, que ficam se arrastando por aí em busca de alimento, devorando bactérias. Cada ameba por conta própria. Quando a comida acaba, porém, elas fazem algo muito curioso: centenas de milhares de amebas individuais se juntam para formar uma “grande” ameba coletiva, com o formato de uma lesma. Ou seja: milhares de criaturas unicelulares individuais se agregam para formar uma única criatura multicelular.

Para o estudo da evolução da vida na Terra, é um comportamento fantástico, pois dá um exemplo de como formas de vida primitivas, unicelulares, podem ter dado origem a formas de vida mais complexas, multicelulares … como nós.

Mas essa não é a notícia ainda.

De volta às amebas … Uma vez formada a lesma migratória, as amebas fazem mais uma transformação. Parte delas (cerca de 20%) morrem para formar uma espécie de pedúnculo. E sobre esse pedúnculo, forma-se um corpo frutífero redondo, cheio de esporos (amebas), chamado “sorus”, em inglês. Cada lesma, então, vira uma “arvorezinha” dessas que você vê na foto acima. Quando o sorus estoura, os esporos se dispersam para outras áreas onde, com alguma sorte, haverá mais bactérias para comer.

Incrível! Mas isso também não é a novidade, ainda.

O que os cientistas da Universidade Rice revelam neste novo estudo é que cerca de 1/3 desses corpos frutíferos contêm bactérias dentro deles. São bactérias que, em vez de serem devoradas pela lesma, foram salvas como “sementes” para fertilizar novas áreas, caso os esporos dêem o azar de aterrissar em algum lugar onde também não há comida. As bactérias são dispersadas junto com os esporos e, uma vez soltas no ambiente, voltam a se multiplicar. E a refeição está servida novamente … ou pelo menos um lanchinho, para não morrer de fome.

Tudo isso pode parecer apenas uma curiosidade inútil. Mas do ponto de vista evolutivo (tanto biológico quanto social, ou comportamental), observar um comportamento complexo como esse num organismo tão primitivo quanto uma ameba é algo extremamente interessante. Fora o ser humano, são pouquíssimos os animais que praticam agricultura. Os mais conhecidos e emblemáticos são formigas e cupins que cultivam ativamente fungos dentro de seus ninhos.

As amebas não cultivam ativamente as bactérias, mas só o fato de saberem utilizá-las como sementes em caso de escassez alimentar já é algo bastante “inteligente”. Ainda assim, essa estratégia tem um custo … Guardar bactérias para o futuro significa passar um pouco de fome no presente, o que é um risco. Especialmente se os esporos aterrissarem num lugar onde há fartura de comida, pois nesse caso o esforço de guardar as sementes terá sido inútil. Além disso, os experimentos mostraram que lesmas com bactérias (“fazendeiras”) migravam distâncias menores do que as sem bactérias (“não-fazendeiras”), o que, na natureza, poderia reduzir as chances de alcançar um lugar com novas fontes de alimento.

No caso das lesmas “não-fazendeiras”, as amebas consumiram todo o alimento disponível em sua área antes de formar esporos, sem deixar nem uma migalha. Isso também tem um custo, pois essas amebas se alimentam bem no presente, mas podem morrer no futuro, caso seus esporos caiam em algum lugar sem comida.

Por que, então, a evolução não selecionou naturalmente uma dessas estratégias como a melhor e eliminou a outra? Pelas “regras básicas” do processo evolutivo, é isso que deveria ter acontecido. Mas é justamente o fato de não ter acontecido que torna o estudo tão interessante do ponto de vista teórico. Parece ser um caso em que manter duas estratégias é mais vantajoso do que selecionar apenas uma.

E imagine só … toda essa complexidade acontecendo bem diante dos nossos olhos, só que pequena demais para se vista.

Abraços a todos.