Ararinha-azul é vista na natureza, após 15 anos desaparecida

Ararinha-azul é vista na natureza, após 15 anos desaparecida

Principal suspeita é que a ave tenha sido solta por alguém que a mantinha em cativeiro, talvez para fugir das autoridades, que fizeram uma operação de fiscalização recente no região. Moradora fez vídeo da ave voando em Curaçá, no sertão da Bahia, onde a espécie costumava ocorrer até o ano 2000, quando seu último indivíduo desapareceu da natureza. Hoje ela é considerada extinta na natureza.

Herton Escobar

24 Junho 2016 | 11h46

Notícia urgente e quase inacreditável: Uma ararinha-azul foi avistada na natureza pela primeira vez em mais de 15 anos! A espécie, endêmica da caatinga, não era vista desde 2000, quando o último indivíduo conhecido desapareceu (possivelmente capturado ou morto por traficantes de aves).

Quem avistou a ave foram moradores locais de Curaçá, na Bahia, que participam dos esforços de conservação na região e alertaram imediatamente as autoridades. Uma moradora conseguiu até fazer um vídeo da ararinha voando. É um vídeo rápido, mas que não deixa dúvidas sobre a identidade da espécie, segundo o especialista Pedro Develey, diretor da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil). A ararinha tem um grito bastante característico, que pode ser ouvido claramente no vídeo. Pelo menos seis pessoas teriam visto a ave em diferentes momentos.

Develey acredita que a ararinha seja uma ave de cativeiro, não registrada, que foi solta pelo dono — talvez para evitar ser flagrado com ela, o que configuraria crime ambiental. O Ibama fez uma ação grande contra o tráfico de animais recentemente na região; e seria irrealista imaginar que havia uma ararinha voando por ali durante todos esses anos, sem ser percebida.

“É uma hipótese”, disse Develey ao Estado, empolgadíssimo com a descoberta. “O fato é que ela está lá, voando na caatinga. É incrível.” Ao receber a notícia ele correu para o local e procurou pela ave, mas não a encontrou (Leia o relato completo abaixo). Ele ressalta a importância da parceria com as comunidades locais para os esforços de conservação da biodiversidade. “Você precisava ver a alegria das pessoas quando eu cheguei lá, dizendo que a ararinha tinha voltado”, relata Develey. “É um exemplo maravilhoso de conservação participativa.”


O paradeiro da ave agora é desconhecido. A última vez que ela foi vista foi no domingo, dia 18. O ICMBio e a SAVE Brasil estão organizando um grupo para vasculhar a região, localizar a ave e garantir a segurança dela.

Em outubro de 2015 a reportagem do Estado acompanhou uma equipe de pesquisadores brasileiros até o centro de conservação e reprodução de espécies ameaçadas Al Wabra, no Catar, que possui a maior coleção de ararinhas-azuis em cativeiro do mundo, e está trabalhando em parceria com o governo brasileiro para reintroduzir a espécie na natureza. Veja aqui a reportagem especial, com vídeo e fotos: Ararinha-azul se prepara para voar de novo na natureza

E leia abaixo a íntegra do relato que vai ser divulgado pela SAVE Brasil e Ministério do Meio Ambiente, adiantado com exclusividade pelo blog:

Ararinhas-azuis no centro de reprodução Al Wabra, no Catar, em 2015. Foto: Herton Escobar/Estadão

Ararinhas-azuis no centro de reprodução Al Wabra, no Catar, em 2015.

Ararinha-azul reaparece na Caatinga de Curaçá (Bahia)

No último sábado (18 de junho) um indivíduo de ararinha-azul foi registrado por moradores locais voando livre na Caatinga de Curaçá, único local de ocorrência comprovada da espécie, mas que estava desaparecida desde o ano 2000. O primeiro a avistar a ave foi o agricultor Nauto Sergio Oliveira que assim que confirmou se tratar de uma ararinha-azul comunicou seus vizinhos. No dia seguinte Lourdes Oliveira e sua filha Damilys Oliveira levantaram ainda de madrugada e foram procurar a ararinha nas matas ciliares do Riacho Barra Grande. As 6:20 da manhã conseguiram não apenas ver a ave, mas também registrá-la através de um vídeo gravado com o celular de Damilys.

Com o vídeo na mão, Lourdes entrou em contato com os biólogos da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil (SAVE Brasil) umas das organizações que integram o projeto Ararinha na Natureza. De acordo com Pedro Develey, diretor da SAVE Brasil, assim que ele recebeu a noticia não acreditou, mas ao ver o vídeo e ouvir a vocalização, não havia mais dúvidas, de fato se tratava de uma ararinha-azul. Imediatamente Develey comunicou os outros integrantes do projeto e organizaram uma viagem de emergência para Curaçá com objetivo de localizar a ave.

A origem desse individuo é incerta, mas é muito provável que seja uma ave proveniente de cativeiro. Desde domingo não há mais notícias da ararinha, mas tanto os biólogos do projeto, quanto os moradores locais estão mobilizados procurando a ave.  A área é muito grande e com alguns trechos de difícil acesso, o que torna a localização da ararinha complicada.

Segundo Ugo Vercillo , Diretor de Biodiversidade do Ministério Meio Ambiente, organização também integrante do projeto Ararinha na Natureza, o fato de aparecer uma ararinha na região de Curaçá reforça ainda mais a necessidade de proteção da área. Desde 2014 o projeto Ararinha na Natureza vem trabalhando para criar uma Unidade de Conservação (UC) com 44 mil hectares no município com o objetivo de proteger a Caatinga e as matas ciliares.

Sempre existiu uma grande expectativa da comunidade local em relação ao retorno da ararinha-azul. A observação dessa ararinha reacende a esperança na população de ver um dos seus maiores orgulhos de volta a Caatinga.

Na próxima semana, uma expedição liderada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) se juntará aos esforços dos moradores locais na tentativa de localizar a ave e obter o maior número de informações possíveis. A expedição também é uma das ações do projeto Ararinha na Natureza e patrocinado pela empresa Vale, através do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio).

Em paralelo aos esforços em campo, a reprodução da espécie em cativeiro para posterior reintrodução na natureza é crucial para o sucesso do projeto, e conta com a participação dos criadouros AWWP (Qatar), ACTP (Alemanha) e Fazenda Cachoeira (Brasil) que mantém cerca de 130 ararinhas-azuis e nos próximos anos disponibilizarão os primeiros indivíduos a serem reintroduzidos em Curaçá.

Enquanto a ararinha não é observada novamente, ficam muitas dúvidas sobre a origem dessa ave.  Como ela teria aparecido na região?  Há quanto tempo já está solta? Como está se adaptando a vida livre? Talvez demore um pouco para conseguirmos as respostas, mas o fato é que muitos anos após a extinção do último individuo, uma ararinha-azul voltou a voar livre na caatinga de Curaçá.

Ararinhas-azuis no centro de reprodução Al Wabra, no Catar, em 2015. Foto: Herton Escobar/Estadão

Ararinhas-azuis no centro de reprodução Al Wabra, no Catar, em 2015. Foto: Herton Escobar/Estadão

Mais conteúdo sobre:

arara-azulararinhaararinha-azul
0 Comentários