AS APARÊNCIAS ENGANAM

AS APARÊNCIAS ENGANAM

Herton Escobar

21 Fevereiro 2011 | 23h40

Sempre que estou viajando pelo exterior e me apresento como brasileiro é comum as pessoas se espantarem. “Você não tem cara de brasileiro!”, dizem. O que, na verdade, é uma maneira educada de dizer “Você é branco demais para ser brasileiro.”

Já estou acostumado. Eu simplesmente dou risada e explico que os brasileiros não têm um modelo de aparência padrão. Estão disponíveis em todas as cores, tipos e tamanhos. E essa é uma das maravilhas do nosso povo “vira-lata”, nascido de uma mistura aleatória de europeus, africanos e ameríndios. Da Gisele Bundchen ao Tião Macalé, somos todos igualmente brasileiros.

Muitos dos europeus e americanos menos viajados, porém, ainda têm a falsa impressão de que todo brasileiro é moreno, mora na praia, tem samba no pé e é craque no futebol. Mas não são só eles … Nós brasileiros, também, temos dificuldade em interpretar nossa própria bagagem genética racial, como mostra um estudo publicado na semana passada pela equipe do pesquisador Sergio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Por fora, parecemos muito heterogêneos, muito diferentes. E somos, mesmo! Mas são diferenças superficiais … Por dentro, no nosso DNA, somos muito mais homogêneos do que parece.

Segundo os números oficiais do IBGE, 48% dos brasileiros se identificam comos Brancos, 44% como Pardos, 7% como Negros, 0,6% como Amarelos e 0,3%, como Indígenas. Isso, baseado apenas numa interpretação visual, naquilo que os olhos veem. Na cor da pele, cor dos olhos, tipo de cabelo, nariz e boca, principalmente.

O que a equipe do pesquisador Pena fez, essencialmente, foi estudar o DNA dos brasileiros e verificar se, geneticamente, esses números do IBGE estão corretos. Para entender os resultados é preciso entender, primeiro, que essas características citadas acima (cor de pele, tipo de cabelo, etc) são determinadas por um número muito pequeno de genes, proporcionalmente ao total de genes que compõem o nosso genoma. Portanto, é perfeitamente possível que uma pessoa com ancestrais de raças misturadas tenha ao mesmo tempo alguns genes de raça negra, que tornam sua pele escura, e um monte de outros genes de raça branca, que influenciam várias outras características do seu organismo, mas que não são imediatamente visíveis “a olho nu”. Ou vice versa. O que enxergamos do lado de fora é apenas uma pequena amostra da carga genética total de uma pessoa.

Dito isso, vamos aos números.

O estudo foi feito com base em amostras de DNA de 934 brasileiros das regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul, que se autodeclaravam Brancos, Pardos ou Negros. Apesar dos meus colegas estrangeiros me acharem branco demais para ser brasileiro, os resultados mostram que a ancestralidade europeia é preponderante em todas essas regiões: 70% no Norte, 61% no Nordeste, 74% no Sudeste e 78%, no Sul.

Faz sentido para o Sul e Sudeste, onde a maioria das pessoas é mais branquinha mesmo … mas quem diria que 61% da carga genética dos nordestinos é de origem europeia? E 70% na Amazônia, onde quase todo mundo é mais baixinho e moreninho? Imagine só!

“Isso sugere que as populações das diferentes regiões do Brasil têm uma ancestralidade mais comum do que se imaginava”, escrevem os cientistas, no trabalho que foi publicado na revista PLoS One.

Entre os Pardos, especificamente, os resultados são mais surpreendentes. Em Belém do Pará, cerca de 69% da carga genética das pessoas que se consideram Pardas é de origem europeia e só 11% de origem africana e 21%, de origem ameríndia. Já na região Sul, 44% da carga genética dos Pardos é de origem europeia e 44%, também, de origem africana, com 11% de origem ameríndia.

A origem dessa mistureba genética é um tanto óbvia. A herança genética europeia vem dos colonizadores de vários países que migraram para o Brasil nos últimos cinco séculos, incluindo portugueses, espanhois, italianos, alemães, holandeses e muitos outros. A herança africana, é claro, vem dos 4 milhões de escravos que foram trazidos por esses mesmos europeus para trabalhar nas fazendas e engenhos de outrora. E a bagagem ameríndia, dos habitantes originais do continente que foram massacrados, escravizados ou catequizados pelo “homem branco”, principalmente nos primeiros séculos de colonização.

Como resumem os pesquisadores, “a população brasileira foi formada primordialmente por uma mescla de homens portugueses com mulheres ameríndias e escravas africanas”.

Mas, então, como é que podemos ser aparentemente (ou fenotipicamente) tão diferentes e internamente (geneticamente) tão semelhantes? Se em todas as regiões a genética europeia é a que prevalece, então as populações do Norte e do Sul deveriam ser mais parecidas do que são. Não?

A princípio, sim. Mas é preciso levar em conta também os fatores ambientais. O Brasil é um país de proporções continentais, com uma variedade enorme de condições climáticas e geográficas que influenciam de forma significativa a maneira como o genoma das pessoas se expressa. Duas populações com genomas muito parecidos podem ter aparências muito diferentes dependendo das condições ambientais às quais cada uma é exposta ao longo do tempo.

O fator mais determinante neste aspecto é a exposição à radiação solar. A pele escura nada mais é do que um blindagem pigmentosa natural contra os efeitos nocivos da radiação ultravioleta. Populações que evoluíram em regiões com alta incidência de radiação ultravioleta (como os africanos) têm pele mais escura. Populações que evoluíram em regiões com menor incidência de radiação ultravioleta (como os europeus) têm pele mais clara. O Brasil tem as duas coisas.

A conclusão disso tudo, segundo os pesquisadores, é que “a relação entre cor e ancestralidade geográfica é tênue, e que os termos “branco, caucasiano e europeu”, por um lado, e “preto, negro ou africano”, por outro, não podem ser usados como sinônimos, como se faz frequentemente na linguagem do dia a dia, na retórica política, na medicina e na literatura científica.”

Imagine, por exemplo, uma criança nascida de pai branco europeu e mãe negra africana. Se ela nascer com pele escura, será considerada negra. Se nascer com pele clara, será considerada branca. Mas sua carga genética é a mesma de um jeito ou de outro: 50% europeia, 50% africana.

Tudo isso é muito curioso, mas não é apenas uma curiosidade. O estudo tem implicações importantes do ponto de vista clínico e também social.  “Os resultados mostram que a heterogeneidade da nossa população não pode ser adequadamente representada por categorias arbitrárias de “raça/cor”. Num contexto farmacogenômico, isso implica que cada pessoa deve ser tratada como um indivíduo, e não como um “exemplar de uma cor”, apontam os cientistas.

Abraços a todos.

PS: Antes que alguém pergunte, sou descendente de suíços por parte de mãe e espanhóis, por parte de pai. Um legítimo brasileiro (sem samba no pé).