ASTEROIDE EM PELE DE COMETA

ASTEROIDE EM PELE DE COMETA

Herton Escobar

15 Outubro 2010 | 11h42

FOTO: ESA 2010 MPS for OSIRIS-Team

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Uma vez uma colega minha no Estadão me perguntou se cometa e asteroide eram a mesma coisa. Eu, que não sou astrônomo nem de mentirinha, mas tenho uma certa familiaridade jornalística com o tema, ri carinhosamente da pergunta e respondi que “não!, são coisas bem diferentes”.

Isso já faz alguns anos, mas acabou virando uma piada interna e até hoje brinco com a minha amiga sobre a pergunta dela.

Mas eis chegou o dia da redenção, e da piada virar contra o piadista …

Dois estudos publicados na última edição da revista Nature contam a história de como um objeto espacial originalmente classificado como um cometa era, na verdade, um asteroide! Imagine só!

A foto acima, feita pela câmera Osiris do satélite Rosetta, da Agência Espacial Europeia, ilustra bem o motivo da confusão. Detectado originalmente por um observatório em terra, em janeiro de 2010, o objeto P/2010 A2 tinha toda a pinta de um cometa, com uma longa cauda rastreando sua trajetória. E assim ele foi classificado.

Mas alguma coisa não parecia certa, e duas equipes de astronomia resolveram, então, dar uma olhada mais de perto. Uma delas com o Telescópio Espacial Hubble e outra, com a sonda Rosetta, que está justamente a caminho de um encontro com um cometa chamado 67P/Churyumov-Gerasimenko, marcado para 2014.

Uma das coisas que levantou a suspeita dos astrônomos foi que a trajetória de órbita do P/2010 A2 não era típica de um cometa. E também não dava para ver um núcleo … como se fosse um rabo de cometa sem cabeça. Olhando mais de perto, então, eles perceberam que o objeto não era mesmo um cometa, mas um asteroide, que passou recentemente por uma colisão com outro asteroide. A cauda que parecia ser de um cometa é, na verdade, um rastro de fragmentos produzidos por essa colisão, arrastados pela atração gravitacional do asteroide.

As observações indicam que o asteroide tem 120 metros de diâmetro e sua cauda, uns míseros 200 mil quilômetros de comprimento. Com base no padrão de dispersão dos fragmentos, os cientistas calculam que a colisão tenha ocorrido em fevereiro de 2009. E o outro asteroide teria entre 6 e 9 metros de diâmetro – relativamente pequeno, por isso a força da colisão não foi suficiente para pulverizar totalmente a rocha.

Enfim … asteroides continuam sendo asteroides e cometas continuam sendo cometas. Mas se os astrônomos profissionais podem se enganar, então minha amiga também pode.

Abraços a todos.

NOTA: Cometas são objetos feitos principalmente de gelo e poeira de rocha (“gelo sujo”) que viajam no espaço em órbitas superelípticas, que os levam para muito longe e muito perto do Sol. A cauda se forma quando eles se aproximam do Sol (“se aproximam” em termos astronômicos, quero dizer), composta por gases e poeira que se desprendem do núcleo sólido, forçados pela interação com o vento solar. Essa cauda pode ter milhões de quilômetros de comprimento.

Asteroides são objetos feitos principalmente de rocha e metais, que podem variar desde alguns metros até algumas centenas de quilômetros de diâmetro. Eles orbitam o Sol em órbitas semelhantes às dos planetas, e a maior parte deles está num cinturão de asteroides localizado entre Marte e Júpiter.

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O "cometa sem cabeça", visto pelo Telescópio Espacial Hubble. FOTO: NASA, ESA, and D. Jewitt (UCLA)