Atenção cientistas: Ninguém liga pro seu sapo!

Atenção cientistas: Ninguém liga pro seu sapo!

Provocação é do cineasta Fernando Meirelles, no Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. Ele falou sobre a dificuldade dos cientistas de se comunicarem com o público sobre temas como biodiversidade e mudanças climáticas. Para Meirelles, os pesquisadores precisam deixar os números de lado e aprender a contar histórias: “O que pega as pessoas é o recado emocional. Se o sapinho não tiver nada a ver comigo, não me interessa.”

Herton Escobar

24 Setembro 2015 | 19h22

Fernando Meirelles no Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. Foto: Adalberto Rodrigues

Fernando Meirelles no Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. Foto: Adalberto Rodrigues

Cientistas precisam aprender a se comunicar com o público por meio de histórias, não de estatísticas, disse o cineasta (e ambientalista) Fernando Meirelles. Por exemplo: Não adianta falar que um sapo está ameaçado de extinção se a pessoa que está ouvindo não sabe nada sobre a história daquele bicho. “O cara não está nem aí pro seu sapo”, falou Meirelles, na lata, para um auditório lotado com mais de 1 mil pessoas — todas cientistas e ambientalistas — no 8º Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação (CBUC), em Curitiba. “O que pega as pessoas é o recado emocional. Se o sapinho não tiver nada a ver comigo, não me interessa.”


Não que ele próprio não se interesse. Pelo contrário: “Estou me tornando cada vez menos cineasta e mais ambientalista”, afirmou. A razão? “Desespero!”; de ver a destruição da biodiversidade e da natureza seguir em frente, sem que as pessoas se dêem conta do que está acontecendo.

A extinção de espécies (inclusive daquele sapinho do qual você nunca ouviu falar) tem um impacto direto no funcionamento dos ecossistemas dos quais dependemos para sobreviver, como as florestas, rios e oceanos (apesar de tudo isso parecer muito distante e muito desconectado da gente). Mas não é falando só de trabalhos científicos que os cientistas vão convencer as pessoas a se importar, pontuou Meirelles.

Cientista é um bicho muito louco. Vocês ficam falando só entre vocês.”

“Não adianta só números, estatísticas, planilhas … se não vocês estão falando só pra sua tribo”, disse. “O único jeito (de engajar as pessoas) é contar histórias”, completou — que é o que ele faz em seus filmes, como Cidade de Deus, Ensaio sobre a Cegueira e O Jardineiro Fiel. Histórias com personagens e narrativas com os quais o público consiga se identificar, mesmo que elas, superficialmente, pertençam a uma realidade completamente diferente. “Cientista é um bicho muito louco”, disse. “Vocês ficam falando só entre vocês.”

Um tema onde essa dificuldade de comunicação se faz presente de forma muito clara é o das mudanças climáticas. O problema já é estudado há décadas, e não faltam evidências científicas para mostrar que ele é real, urgente, extremamente sério e vai impactar a todos. Mas a comunicação da ciência com o público e com os governantes continua sendo muito difícil … muito cheia de números, gráficos e estatísticas. Segundo Meirelles, é preciso apelar para o lado emocional das pessoas, e não apenas o racional. Ele citou o exemplo do Greenpeace, que no passado impactou muito mais a opinião pública com ativistas se acorrentando a árvores do que com estudos científicos.

Veja o lado positivo das coisas … (mesmo quando parece não haver nenhum)

Além de simplificar as coisas, disse o cineasta, é preciso dar esperança às pessoas — especialmente em situações dramáticas como a extinção de espécies ou o aquecimento global, que muitas vezes nos dão a impressão de ser uma causa perdida. Em outras palavras: mesmo que só reste um dedinho de água no copo, foque mais na parte cheia do que na vazia. “Se for só pessimismo vira filme europeu; ninguém vai assistir”, brincou. “Se não tiver notícia boa pra dar, prometa uma boa notícia. Você tem que dar um saída, dar uma esperança, mostrar como é possível ajudar; se não a pessoa desanima, se sente impotente.”