MEMÓRIAS DA BATCAVERNA

MEMÓRIAS DA BATCAVERNA

Herton Escobar

03 Agosto 2011 | 09h44

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Imagine que você é um bicho vivendo dentro de um caverna, completamente e permanentemente escura, onde planta nenhuma é capaz de crescer. Do que você vai se alimentar? Talvez você possa comer outros bichos, que comem outros bichos e assim por diante … mas em algum momento, alguém lá na base da cadeia alimentar tem de se alimentar de plantas ou algo parecido. Se não despenca tudo.

Pois então. Alguns dias atrás visitei a Dark Cave (Caverna Escura), que é uma das Cavernas de Batu (Cavernas de Rocha) de Kuala Lumpur, na capital da Malásia. (Os nomes não são muito criativos, eu sei, mas melhor não perder tempo com isso.) Segundo as informações do guia local, a caverna, que nem é muito grande, tem mais de 200 espécies de animais vivendo dentro dela. A maioria, invertebrados, incluindo uma aranha chamada Liphistius batuensis, que, segundo diz a placa na entrada da caverna, é “a aranha mais rara do mundo”. Se é mesmo, não sei, mas disse-me o guia que ela só existe nas partes mais profundas da caverna e está seriamente ameaçada de extinção. Tanto que até fecharam aquelas partes da caverna ao público recentemente. (ou seja, não vi a tal aranha, mas tudo bem … valeu o ingresso mesmo assim)

Voltando à minha pergunta original: O que é que esses bichos todos comem lá dentro? Qual é a base nutricional de sustentação da “cadeia trófica”, como se diz na biologia?

A resposta só pode ser dita de uma maneira, simples e direta: cocô de morcego.

É isso mesmo. Como em qualquer outro ecossistema da Terra, a cadeia alimentar da caverna é composta de presas e predadores. Os predadores incluem as aranhas, uma bem assustadora centopeia-de-pernas-longas (foto abaixo) e, acredite se quiser, uma cobra que escala paredes e ataca morcegos. O cardápio de presas inclui montes de baratas, grilos e formigas que, por sua vez, se alimentam de cocô de morcego – ou guano, como é chamado “tecnicamente”. Sem esse guano, as presas não teriam o que comer, os predadores não teriam o que comer, e todo mundo morreria de fome. Menos os morcegos. E as cobras alpinistas.

Pode-se dizer que o cocô de morcego está para a caverna como a luz do Sol está para a floresta.

Há centenas de milhares de morcegos na caverna, divididos em duas espécies principais: uma que se alimenta de frutos e outra, que se alimenta de insetos. Eles saem todas as noites para caçar e, ao voltar para casa e fazer suas necessidades, eles literalmente fertilizam o chão da caverna com a matéria orgânica que sustenta todo o resto da biodiversidade local. Tipo: se você não pode ir até a floresta, o morcego traz a floresta até você. Em um buraco próximo à entrada da caverna há uma “piscina” de guano com mais de 2 metros de profundidade. Infestada de baratas e outros bichos rastejantes, como naquela cena de Indiana Jones e o Templo da Perdição.

Na sua apresentação, sem eu precisar perguntar nada, o guia também confirmou um fato sobre o qual já escrevi aqui no blog (veja post Morcegos me mordam!). Segundo ele, cada morcego insetívoro é capaz de comer até 3 mil insetos por noite, muitos dos quais são mosquitos vetores de doenças tropicais que, de outra forma, estariam picando pessoas em Kuala Lumpur. Ou seja: sem os morcegos haveria muito mais mosquitos e muito mais doenças na cidade. Imagine só!

Quem sabe se tívessemos mais cavernas e mais morcegos na região da mata atlântica (e não tivéssemos devastado-a quase que completamente) não teríamos tantos problemas com epidemias de dengue nas nossas metrópoles do Sudeste.

Abraços a todos.