BOCA-LIVRE DE ENGUIA

BOCA-LIVRE DE ENGUIA

Herton Escobar

07 Janeiro 2011 | 21h45

ILHA DE BONAIRE, SUL DO CARIBE, 7/1/2011

A primeira semana de 2011 foi bastante produtiva. Logo no meu primeiro mergulho do ano, na tarde do dia 1º, tive a sorte de observar e filmar uma enguia miriquitis (Myrichthys breviceps) caçando no leito arenoso de uma praia, seguida por cinco peixes de espécies diferentes.

Vejam o vídeo. Primeiro aparecem um “bar jack” (Caranx ruber, o peixe maior e mais escuro na imagem), um “spotted goatfish” (Pseudupeneus maculatus, branco, com as barbichas amarelas, que fica fuçando na areia) e um “yellowtail snapper” (Ocyurus chrysurus, amarelinho). Eles seguem a miriquitis até um pequeno coral, onde parecem comer alguma coisa da areia. De repente, aparece um linguado branco (Bothus lunatus, o peixe achatado que escorrega sobre a areia). Ele passa por cima de tudo, dá meia-volta, como quem não quer nada, e se enterra na areia. Parece desaparecer. Por último aparece um “spanish hogfish” (Bodianus rufus, azul e amarelo), atraído pela comoção.

(Não me lembro dos nomes comuns desses peixes em português. Se algum biólogo ou outro mergulhador brasileiro puder ajudar, agradeço.)

São todos peixes oportunistas, ou “seguidores”, na linguagem científica, que seguem a enguia na expectativa de conseguir uma refeição fácil às suas custas. A miriquitis tem um olfato muito bom e fica enfiando o focinho em tudo que é toca para ver se encontra algum pequeno crustáceo escondido no buraco ou mesmo debaixo da areia. Ao fazer isso, a presa pode escapar da bocada da enguia e correr para fora … só para dar de cara com um bando de peixes igualmente famintos esperando por ela.

Eu já tinha ouvido falar desse comportamento, mas nunca tinha visto ao vivo, nem imaginava que tantos peixes de espécies diferentes pudessem participar dele simultaneamente. O bar jack parece abocanhar alguma coisa logo no começo da filmagem, mas foi tão rápido que não consegui ver o que era (ou se tinha alguma coisa de fato ali). A própria enguia parece não ter comido nada … mas é muito curioso ver como os peixes ficam “ansiosos” a sua volta, esperando por uma boquinha livre.

A tática é conhecida em inglês como “nuclear hunting” (mais uma vez, peço a ajuda dos universitários brasileiros, já que estou viajando e minha biblioteca científica ficou para trás no Brasil), em que a espécie central é chamada “nuclear” e as seguidoras de “satélites”, ou simplesmente “seguidoras” mesmo. Há muitos outros exemplos, como os de peixes que seguem tubarões e arraias. Afinal, para que caçar você mesmo se outros podem caçar por você?

É como se você ficasse seguindo pessoas na saída do supermercado, torcendo para alguma comida cair do carrinho. Imagine só!

Nesse dia também tive o prazer de encontrar um polvo entocado sob uma pequena rocha, a apenas 1,5 metro de profundidade e não mais do que uns 3 metros da praia (foto abaixo). Ontem voltei ao mesmo local, à noite, e ele ainda estava lá.

Infelizmente, porém, nesse mesmo dia 1º, antes de afundar na água, tive o desprazer de ver um pai de família matando uma iguana a pedradas e pauladas na praia. Eu tinha acabado de ver a iguana quando desci do carro … linda! Media quase 1 metro da ponta do focinho à ponta do rabo. Observei-a por alguns momentos, coloquei o equipamento de mergulho e fui para a água. Quando virei para olhar a praia de novo, vi o tal pai apedrejando o bicho.

Jogou uma pedra grande sobre ela três vezes. Depois, para ter certeza que o “monstro” estava morto, encontrou um cano de ferro num mato próximo e deu várias pauladas nele. E depois, só para ter certeza mesmo, pegou uma faca e espetou a iguana algumas vezes.

Ele estava fazendo um picnic com a família e suas duas crianças estavam aterrorizadas com a iguana. Gritavam de medo e pulavam para trás a cada pedrada deflagrada pelo pai sobre o “monstro” verde. Realmente lamentável …

A ilha é cheia de iguanas e a população nativa costuma fazer ensopado delas. É um prato típico local. Mas o tal pai de família não deveria ser local, pois também estava morrendo de medo da iguana. E se fosse, não teria. (seria o mesmo que um caiçara ter medo de caranguejo … simplesmente não faz sentido) Ou seja, a coitada da iguana foi apedrejada totalmente à toa. Nem a dignidade de ir para a panela virar sopa ela teve. Lamentável.

Em vez de aproveitar a oportunidade para educar os filhos e mostrar que a iguana é um animal inofensivo, ele foi logo pegando uma pedra. Dá para imaginar como essas crianças vão se relacionar com a natureza no futuro.

Ainda bem que eu já estava na água.

Abraços a todos.

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FOTO: Herton Escobar/AE