BRASILEIROS NA NATURE

BRASILEIROS NA NATURE

Herton Escobar

08 Outubro 2011 | 19h44

O Brasil, mais uma vez, não ganhou um prêmio Nobel. E acho que não vai ganhar por muito tempo ainda, infelizmente.

Mas o país brilhou debaixo de um outro holofote esta semana: na última edição da revista Nature, publicada na quinta-feira, havia três trabalhos com autores brasileiros. Pode ser apenas uma lanterninha, em comparação com o brilho de um prêmio Nobel, claro. Mas foi algo que me chamou a atenção.

A revista Nature é uma das publicações científicas mais importantes do mundo. Ter um trabalho publicado em suas páginas é motivo de orgulho para qualquer pesquisador, de qualquer país, pois o processo de análise e seleção dos trabalhos é extremamente rigoroso. Não é todo dia que há trabalhos de brasileiros publicados lá. Muito menos três.

Posso dizer isso com uma certa autoridade leiga, pois acompanho semanalmente as publicações da Nature, Science e outras revistas importantes da ciência há mais de dez anos. É algo que faz parte do meu trabalho como jornalista. Nesse tempo já escrevi sobre muitas e muitas pesquisas brasileiras publicadas nessas revistas. Mas costuma ser uma aqui, outra ali. Três de uma vez só é coisa rara.

Então, cabe a pergunta sobre come interpretar isso: Coincidência editorial, aberração estatística, ponto fora da curva, ou mais um sinal real de que a qualidade da ciência brasileira está de fato melhorando?

Vamos a um resumo das três pesquisas.

Uma delas é assinada pelo neurocientista Miguel Nicolelis, talvez o maior “superstar” da ciência brasileira na atualidade. Aquele que fez macaquinhos mexerem braços robóticos com o cérebro. E que agora, nesse novo trabalho, foi um passo além, mostrando que não só é possível traduzir comandos cerebrais em códigos de computador para controlar máquinas com o pensamento, mas também fazer o caminho inverso e enviar informações sensoriais (neste caso, táteis) de volta ao cérebro. Ou seja: os macaquinhos não só controlam o braço robótico, mas sentem o que o braço robótico está tocando. Sensacional, não? Digno de uma publicação na Nature …

Nicolelis assina o trabalho como pesquisador da Universidade de Duke, nos EUA, e do Instituto de Neurociências de Natal, que ele mesmo fundou no Brasil alguns anos atrás. Em parceria com outros seis autores dos EUA e da Suíça.

Outro trabalho é assinado por Pierre Sans-Jofre, em nome do Institut de Physique du Globe de Paris, na França, e do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo, onde atualmente é aluno de pós-graduação. Em parceria com Ricardo Trindade, também do IAG, e o professor Afonso Nogueira, do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará. E mais quatro autores da França e do Brasil.

O estudo questiona, com base na análise de sedimentos brasileiros, a teoria de que a Terra foi totalmente coberta por gelo uns 650 milhões de anos atrás, num evento extremo climático conhecido como “Snowball Earth”.  Também super interessante.

Já o terceiro estudo é liderado por cientistas da Universidade de Viena e do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), co-autorado pelo brasileiro Thiago Alegre. Alegre é formado pela Unicamp e está de volta a Campinas agora, mas participou do projeto quando fazia pós-doutorado na Caltech. A pesquisa em questão é um trabalho complexo de física, que a Nature resume assim:

An elusive component of the random movement of particles known as Brownian motion is reported in Nature this week. Measurements of the Brownian fluctuations of a trapped colloidal particle immersed in a liquid reveal a ‘coloured’ noise spectrum, arising from the interaction between the particle and its surrounding medium. The ability to observe such details in thermal noise could be exploited for the development of new types of sensors and particle-based assays in lab-on-a-chip applications.

Não vou me atrever a explicar. Nem mesmo traduzir. Mas tenho certeza de que é um trabalho importante e muito bem feito. Afinal, está na Nature!

(OBS: Antes que alguém me chame de inocente, já vou avisando que conheço muito bem e concordo com as críticas de que a Nature, Science e suas amigas também têm seus interesses comerciais, interesses midiáticos, preconceitos, panelinhas, e mais frequentemente do que gostaríamos publicam trabalhos não tão bons, assim como deixam de publicar trabalhos muito bons, por razões nem sempre cientificamente corretas. Mas isso não muda o fato de que são as revistas de maior impacto da ciência. E que a grande maioria dos trabalhos é, de fato, de alta qualidade.)

Pois bem, resumindo: Nenhum dos trabalhos é exclusivamente brasileiro nem foi feito exclusivamente no Brasil, mas isso não é necessariamente algo negativo, que diminui o mérito dos nossos cientistas. Isso é o comum da ciência moderna: vários pesquisadores, de vários países, várias instituições e várias disciplinas unindo as forças de seus cérebros e de seus equipamentos para produzir o melhor resultado possível. E é bom que os cientistas brasileiros estejam cada vez mais inseridos nessa network.

Enfim, vou terminar sem chegar a conclusão nenhuma. Ponto fora da curva ou evidência de prestígio em alta? Não sei. Claro que não dá para dizer nada conclusivo com base em uma única edição da Nature. Mas é um bom sinal.

Abraços a todos.