Brasileiros produzem primeira cabra clonada e transgênica

Brasileiros produzem primeira cabra clonada e transgênica

Herton Escobar

14 Abril 2014 | 21h03

Animal, o primeiro do tipo na América Latina, é geneticamente modificado para produzir no leite uma proteína humana, usada no tratamento da doença de Gaucher

FOTO: Gluca, a cabrita clonada. Crédito: Jarbas Oliveira/Estadão

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Nasceu há pouco mais de duas semanas, em Fortaleza (CE), a primeira cabra clonada e transgênica do Brasil — e da América Latina. Chamada pelos cientistas de Gluca, ela possui uma modificação genética em seu DNA que deverá fazer com que ela produza no seu leite uma proteína humana chamada glucocerebrosidase, usada no tratamento da doença de Gaucher.

Trata-se de uma doença genética relativamente rara, porém extremamente custosa para o sistema público de saúde. Segundo informações levantadas pelos pesquisadores, o Ministério da Saúde gasta entre R$ 180 milhões e R$ 250 milhões por ano com a importação de medicamentos para o tratamento de pouco mais de 600 pacientes com Gaucher no Brasil.

As drogas importadas são baseadas em proteínas produzidas in vitro, cultivadas em células transgênicas de hamster ou de cenoura, por empresas nos Estados Unidos e em Israel. A proposta da pesquisa brasileira seria produzir a glucocerebrosidase no País, no leite de cabras transgênicas, a custos muito inferiores ao da produção em culturas celulares.

“Alimentar cabras é bem mais barato do que alimentar células; e o processo final de purificação da proteína é basicamente o mesmo”, diz a pesquisadora Luciana Bertolini, da Universidade de Fortaleza (Unifor), que é uma das coordenadoras do projeto.

A cabritinha Gluca nasceu no dia 27 de março e não apresenta, por enquanto, nenhum problema de saúde. “Ela já nasceu berrando, superativa, sem qualquer complicação”, empolga-se a Luciana, que é bióloga molecular e trabalha no projeto com o marido Marcelo, que é veterinário. Dentro de quatro meses, os cientistas poderão iniciar a indução hormonal de lactação e confirmar a presença da proteína humana no leite do animal. “Precisamos saber quanto da proteína está sendo expressa e testar sua atividade biológica”, explica Luciana.

Que a cabrita é transgênica, pelo menos, não há dúvida. Essa é grande vantagem de se usar a clonagem, versus fertilização in vitro: a certeza de que todos os embriões transferidos para as fêmeas gestantes são transgênicos. Isso porque a modificação genética já vem “embutida” e confirmada na célula que é usada para fazer a clonagem; enquanto que na fertilização in vitro é preciso injetar o gene nos embriões e transferi-los para o útero das cabras sem saber se o gene se inseriu com sucesso no DNA das células embrionárias (técnica conhecida como microinjeção, que já foi usada para produzir outras cabras transgênicas no Brasil nos últimos anos).

“Com a microinjeção, às vezes nascem 15 a 20 animais para você conseguir 1 transgênico. Na clonagem, qualquer um que nascer você já tem certeza que é transgênico”, explica Luciana. “Assim você evita muitas gestações desnecessárias.”

INFOGRÁFICO ESTADÃO

Contabilidade. Gluca é o único clone nascido até agora de um grande esforço de reprodução, que envolveu a transferência de mais de 500 embriões clonados para 45 cabras receptoras, resultando em 8 gestações (ou prenhezes). Ela tinha uma “irmã” de útero na mesma gestação, que morreu logo após o parto, vítima de anomalias congênitas que são comuns aos clones de mamíferos, como tamanho exagerado, órgãos aumentados e malformações cardíacas. Apenas uma das oito prenhezes ainda está em andamento.

O gene inserido no DNA dos animais é uma cópia do gene humano que comanda a síntese da glucocerebrosidase, acoplado a uma outra sequência genética (chamada de promotor) que faz com que o gene, apesar de estar presente em todas as células da cabra, seja ativado apenas nas células das glândulas mamárias – fazendo com que a proteína seja produzida apenas no leite e não no sangue, por exemplo.

A construção do gene e do promotor foi realizada pela empresa Quatro G Pesquisa e Desenvolvimento, instalada no parque tecnológico (Tecnopuc) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), que também será responsável posteriormente por purificar a proteína do leite.

Se tudo der certo e o leite de Gluca for rico em glucocerebrosidase (há a possibilidade de o gene ter se inserido corretamente no genoma, mas a produção da proteína ser baixa), os cientistas poderão usar suas células para fazer novos clones, geneticamente idênticos a ela, e assim começar a formar um rebanho para produção da proteína em larga escala, para uso terapêutico.

“Estamos dando o primeiro passo na direção de uma futura terapia de reposição enzimática para Gaucher”, diz a diretora de desenvolvimento da Quatro G e co-coordenadora do projeto, Jocelei Chies. “O Brasil não tem nenhuma proteína recombinante (produzida por meio de transgenia) para uso humano que seja feita aqui.”

Nos EUA, uma droga chamada ATryn (antitrombina humana) já é produzida exatamente dessa forma, no leite de cabras transgênicas.

Mutação. A glucocerebrosidase é uma enzima que atua no metabolismo de lipídeos (gorduras). Portadores da doença de Gaucher possuem mutações que interferem na síntese dessa enzima, resultando num acúmulo de gordura dentro das células, que pode causar uma série de problemas, principalmente no fígado e no baço. O tratamento, portanto, consiste em repor essa enzima no organismo por meio da administração intravenosa de glucocerebrosidase ou outra proteína com função parecida.

Os dois medicamentos disponíveis no mercado internacional são produzidos pela Genzyme, nos EUA (utilizando células transgênicas de hamster), e pela Protalix Biotherapeutics , em Israel (utilizando células transgênicas de cenoura). Em junho de 2013, a Protalix assinou um acordo com o governo brasileiro para transferir sua tecnologia de produção para a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) num prazo de sete anos – durante os quais o Ministério da Saúde, em contrapartida, deverá comprar, no mínimo, US$ 280 milhões do medicamento da empresa, até que ela possa ser produzida no País (http://migre.me/iKqNY).

A fábrica nacional da droga, ironicamente, deverá ser construída justamente na região metropolitana de Fortaleza, próximo da unidade da Unifor onde ficam as cabras transgênicas do projeto.

Luciana ressalta que a proteína da Protalix, chamada taliglucerase alfa (nome comercial Uplyso), só pode ser usada para um dos três tipos de Gaucher, além de outras restrições, pelo fato de ser produzida em células vegetais. Já a glucocerebrosidase produzida no leite de cabras transgênicas seria essencialmente idêntica à humana e aplicável a todos os tipos da doença.

A pesquisadora destaca ainda que o objetivo não é apenas produzir uma cabra transgênica, publicar um trabalho científico e parar por aí. “Queremos gerar um produto que seja eficiente e acessível àqueles que precisam dele; esse é o nosso sonho”, diz. O projeto vem sendo desenvolvido há três anos e foi financiado principalmente pela Finep (R$ 2,5 milhões), com apoio também da Fundação Edson Queiroz, Unifor e Agropecuária Esperança.

FOTO: Luciana Bertolini com o marido, Marcelo (com Gluca no colo), e alunos da Unifor que participam do projeto (com a cabra adulta da qual Gluca foi clonada). Crédito: Jarbas Oliveira/Estadão

O mesmo grupo da Unifor tem um projeto semelhante para produzir cabras transgênicas com os genes de lisozima e da lactoferrina, duas proteínas importantes para o combate à diarreia infantil no semiárido nordestino. A cabrita transgênica (mas não clonada) Lisa, nascida no ano passado, deu à luz uma cabritinha no fim de março, e suas células já estão sendo usadas para produzir embriões clonados com os genes das duas proteínas embutidos.

Para mais informações, leia: Cabras transgênicas contra a diarreia infantil no Nordeste

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