CADÊ O PEIXE QUE ESTAVA AQUI?

CADÊ O PEIXE QUE ESTAVA AQUI?

Herton Escobar

27 Fevereiro 2012 | 17h35

Reportagem especial sobre um colapso da pesca no litoral de São Paulo, publicada ontem no Estadão. Se você gosta de comer um peixinho fresco quando vai à praia, leia:

Cadê o peixe que estava aqui?

Estoques estão no limite

Na falta de peixe, pescadores viram maricultores

Infelizmente, está cada vez mais difícil se alimentar de maneira ambientalmente e/ou socialmente responsável nesse mundo. Temos de ser realistas: não há como alimentar 7 bilhões de pessoas sem impactos significativos sobre o planeta. Seja na terra, seja na água, para produzir alimentos em grande escala é preciso ocupar espaços, consumir recursos (naturais e financeiros), gerar resíduos.

Muito se falou nos últimos anos sobre os impactos do agronegócio na Amazônia, por exemplo. Sobre como a expansão da fronteira agrícola e da pecuária estavam impulsionando o desmatamento da floresta e do cerrado. Os ecossistemas marinhos vivem um drama semelhante, até mais grave, que não é novidade, mas que se passa de maneira mais silenciosa, debaixo da superfície, escondido dos olhos da maioria das pessoas. Todo mundo já viu alguma foto de uma floresta desmatada. Mas quem já viu a foto de um recife de coral morto, coberto por algas? Ou de um leito marinho destruído por redes de arrasto? Ou de uma imensidão azul vazia onde deveria haver peixes?

Infelizmente, acho que a maioria das pessoas só vai se dar conta desse drama quando começar a faltar peixe no supermercado. Porque o alimento que vem do mar não é plantado ou produzido, como a soja ou a carne de boi. Ele é um produto extrativista. Ou seja: é um alimento produzido não por nós, mas pela natureza. Os barcos de pesca são como colheitadeiras numa fazenda oceânica: eles não produzem nada, só fazem a colheita. O problema é que estamos colhendo tantos peixes que não sobram “sementes” suficientes no mar para produzir novas safras nos anos seguintes. Uma hora, vai acabar. E essa hora, infelizmente, já está próxima para muitas espécies.

A boa notícia (do ponto de vista da conservação) é que, na pesca, quando a situação fica crítica, quem sucumbe primeiro não é o peixe, mas o pescador. Quando os estoques de uma determinada espécie se tornam muito baixos, à beira da extinção, a pesca daquela determinada espécie deixa de ser economicamente viável. Assim, os barcos se voltam para algum outro recurso, e a espécie ganha uma trégua (ao menos momentânea) para se recuperar e se safar da extinção. “A pesca acaba antes do peixe”, como diz o pesquisador Marcus Carneiro, do Instituto de Pesca de São Paulo.

É nesses casos que se pode entender perfeitamente o significado da palavra “sustentável”. Uma atividade sustentável é aquela que garante a renovação de seus recursos para gerações futuras. Ou seja: é uma atividade perpétua, que se mantém viável a longo prazo. A pesca sustentável é aquela que não acaba com seu próprio peixe e continua a ser produtiva (e lucrativa) ano após ano, década após década, século após século, sem prazo para terminar. Uma pescaria insustentável é aquela que acaba com seu próprio peixe e, inevitavelmente, acaba decretando sua própria falência. Qual delas você acha que faz mais sentido?

Abraços a todos.

 

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