Cães apontam caminho para possível cura de doença genética na USP

Cães apontam caminho para possível cura de doença genética na USP

Cachorros com uma mutação especial são imunes à distrofia muscular de Duchenne, que afeta 1 em cada 5 mil meninos

Herton Escobar

12 Novembro 2015 | 16h49

Ringo deveria ter vivido apenas 2 anos. Viveu 11. Foto: Núcleo de Divulgação Científica da USP

Ringo deveria ter vivido apenas 2 anos. Viveu 11. Foto: HUG-Cell

Dois cachorros da raça golden retriever criados na Universidade de São Paulo (USP) estão dando novo significado ao termo “cão-guia”. Portadores de uma mutação muito especial, eles guiaram pesquisadores a uma descoberta importante sobre a doença de Duchenne, um tipo de distrofia muscular degenerativa que afeta apenas meninos, e para a qual não existe cura.

Ambos os cães, chamados Ringo e Suflair, nasceram com um defeito em seu DNA que faz com que eles não produzam distrofina, uma proteína essencial ao bom funcionamento das fibras musculares, que na ausência dela acabam se deteriorando progressivamente — o mesmo problema das pessoas que sofrem com a distrofia de Duchenne. Até aí, nada de novo. A doença já era conhecida e a expectativa era de que eles viveriam no máximo dois anos, como acontece com a maioria dos cachorros afetados pela GRMD (sigla em inglês para Distrofia Muscular de Golden Retriever).

Só que isso não aconteceu. Para surpresa dos cientistas, os cães levavam uma vida quase que normal, apesar da falta de distrofina. Ringo morreu idoso, aos 11 anos, e Suflair (seu filho) está com 9 anos e meio, dentro da expectativa de vida normal para a raça. “Ficávamos esperando surgirem os sinais clínicos da doença, mas passava um ano, dois anos, e nada”, lembra a geneticista Mayana Zatz, diretora do Centro de Pesquisa sobre Genoma Humano e Células-tronco da USP. (Veja vídeo dos cães ao final deste post.)

Começou, então, um processo de investigação científica para descobrir o que estava “protegendo” os dois cachorros da doença. A resposta, após oito anos de pesquisa, é que além da mutação no gene DMD, responsável pela síntese de distrofina, Ringo e Suflair tinham uma segunda alteração genética, num gene chamado Jagged1, que favorece a proliferação e regeneração de fibras musculares.

A pesquisadora Natassia Vieira com o cão Ringo, na USP. Foto: HUG-Cell

A pesquisadora Natassia Vieira com o cão Ringo, na USP. Foto: HUG-Cell

Ao contrário da primeira mutação, que causa uma interrupção da síntese de distrofina, a segunda causa uma “superprodução” benéfica da proteína Jagged1, que acaba compensando os efeitos degenerativos da doença. “Essa é a nossa hipótese”, diz a pesquisadora Natássia Vieria, autora principal do estudo, que recentemente concluiu pós-doutorado em Harvard, nos Estados Unidos, onde a parte final da pesquisa foi realizada. Os cães não deixam de ser doentes, mas possuem um mecanismo genético de “auto-cura” que lhes permite conviver bem com a distrofia: o que a mutação da distrofina destrói, a mutação do Jagged1 conserta.

Possibilidades

Sabendo disso, a esperança dos pesquisadores é encontrar uma maneira de reproduzir esse efeito em seres humanos, o que poderia ser uma alternativa de tratamento para a distrofia de Duchenne. “Temos muito trabalho pela frente”, afirma Mayana — ressaltando que ainda serão necessários muitos anos de pesquisa para entender quais são os efeitos da mutação, se o gene funciona da mesma forma em seres humanos, e se há maneiras seguras e eficientes de se intervir clinicamente nesse processo. “É um resultado promissor, que abre novas perspectivas terapêuticas.”

A distrofia de Duchenne afeta 1 em cada 3 mil a 5 mil meninos, e a expectativa de vida dos pacientes é de 20 a 30 anos. A doença ocorre quase que exclusivamente em homens, porque o gene DMD está localizado no cromossomo X (lembrando que homens são XY e mulheres, XX; o que significa que meninas podem ter uma cópia defeituosa do gene e outra boa, anulando o efeito da primeira — ou seja, elas têm duas chances de escapar da doença, enquanto que eles têm apenas uma). A falta de distrofina faz com que a musculatura se degenere gradativamente, debilitando severamente os pacientes. Várias estratégias de cura já foram e estão sendo testadas, porém sem sucesso.

Os resultados da pesquisa estão publicados na edição desta semana da revista Cell. Também participaram do trabalho a equipe do pesquisador Sergio Verjovski-Almeida, do Instituto de Química da USP (que recentemente se transferiu para o Instituto Butantan), e pesquisadores do Instituto Broad de pesquisa genômica, em Massachusetts, além de outras instituições nos Estados Unidos e na Suécia.