CARNAVAL GENÉTICO NA BAHIA

CARNAVAL GENÉTICO NA BAHIA

Herton Escobar

12 Agosto 2012 | 20h48

Abaixo, minha mais recente reportagem especial, publicada hoje no Estadão, que une, mais uma vez, dois dos meus temas favoritos: ciência e biodiversidade. Mais especificamente, a genômica e a ecologia, formando a chamada “ecologia molecular” (o estudo do comportamento e das relações evolutivas entre espécies por meio da genética). Espero que gostem. Normalmente eu evito fazer brincadeirinhas nas minhas matérias. Gosto de escrever de uma forma agradável, porém séria. Mas neste caso não pude evitar de abrir o texto com uma pegada mais “carnavalesca”. (rs)

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ESTUDOS GENÉTICOS DETECTAM ALTA INCIDÊNCIA DE HÍBRIDOS ENTRE TARTARUGAS DA BAHIA


HERTON ESCOBAR – O Estado de S.Paulo

Algo “promíscuo” está acontecendo entre as tartarugas-marinhas da Bahia. Ao melhor estilo carnavalesco, elas andam desatentas com uma das regras mais básicas de bom comportamento da biologia evolutiva: a de que só se deve procriar com membros da própria espécie.

É o que indica uma série de estudos genéticos, segundo os quais mais de 40% das tartarugas que desovam nas praias do Estado são híbridas – filhas de pais de pai e mãe de espécies diferentes. Pesquisadores ainda não sabem dizer quais são as causas nem as consequências disso para o futuro das populações locais de tartarugas. Mas sabem que, além de uma curiosidade, é algo que precisa ser levado em conta nas estratégias de conservação dessas espécies – todas elas ameaçadas de extinção.

Um primeiro estudo, publicado em 2006 na revista Conservation Genetics, revelou que 43% das tartarugas consideradas morfologicamente como Eretmochelys imbricata (tartaruga-de-pente) eram, na verdade, animais híbridos, com parte de seu DNA herdado de Caretta caretta (tartaruga-cabeçuda) ou Lepidochelys olivacea (tartaruga-oliva). Uma taxa muito acima de qualquer outra registrada no mundo.

Agora, um novo estudo, publicado na revista Molecular Ecology, amplia o número de tartarugas amostradas e detalha com muito mais profundidade a história desse carnaval genético.

Os pesquisadores investigaram o genoma de 387 tartarugas, com base em amostras de tecido coletadas de várias áreas de desova e alimentação ao longo da costa brasileira.

Os resultados revelam que a hibridização é um fenômeno localizado – restrito principalmente ao norte da Bahia e, em menor escala, ao sul de Sergipe – e relativamente recente. A maioria dos híbridos é de animais de primeira geração e, alguns, de segunda. O que significa que pelo menos uma parte da população de híbridos é “viável” do ponto de vista reprodutivo.

“Mostramos que há, no mínimo, duas gerações de híbridos. Não há como negar isso”, diz o geneticista Fabrício Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Considerando que o tempo que uma tartaruga-marinha leva para atingir a maturidade sexual é de no mínimo 20 anos, os cientistas estimam que a hibridização começou há 40 anos ou mais. E não para por aí.

“Agora, certamente, há tartarugas híbridas de terceira geração nadando por aí”, diz a pesquisadora Sibelle Vilaça, que participou da pesquisa durante seu mestrado na UFMG.

Em um ninho, os pesquisadores chegaram a encontrar filhotes com DNA de três espécies – incluindo Chelonia mydas (tartaruga-verde), uma espécie que não desova no continente, apenas em ilhas, e talvez por isso apareça apenas pontualmente nas amostras. Ou seja: filhotes de um animal que já era híbrido e cruzou com uma terceira espécie, formando “híbridos triplos”.

“Talvez as fêmeas híbridas sejam mais promíscuas que o normal”, especula Santos. “Sem ter uma espécie definida, talvez elas percam a especificidade e acasalem com qualquer espécie.”

“O híbrido tem menor fecundidade e viabilidade reprodutiva, mas não é necessariamente infértil”, explica Luciano Soares, pesquisador associado ao Projeto Tamar. Um exemplo é o do burro, resultado do cruzamento entre um jumento e uma égua. A maioria é inviável, mas uma minoria consegue se reproduzir.

No caso das tartarugas, é como se 43% de uma população que se pensava ser de cavalos fosse, na verdade, composta de burros que se parecem com cavalos.

Causas. Constatada a hibridização, os pesquisadores querem agora saber o que a motivou. A principal hipótese é que os cruzamentos tenham sido induzidos pelo colapso das populações de tartarugas, pressionadas pela caça de animais adultos e pela coleta de ovos nas praias – práticas ainda comuns no litoral da Bahia até poucas décadas atrás.

“Com populações menores numa área grande, fica mais difícil um macho e uma fêmea da mesma espécie se encontrarem”, diz Santos. Em outras palavras: na falta de um parceiro da mesma espécie, acasala-se com quem aparecer na frente mesmo.

Um ponto importante foi constatar que o Projeto Tamar não foi, sem querer, um dos responsáveis por induzir a hibridização. Quando o projeto foi criado na Bahia, em 1980, uma das estratégias para evitar a predação dos ninhos pelos habitantes locais era retirar os ovos das praias e levá-los para um centro de reprodução, para depois liberar os filhotes na natureza. Havia a suspeita de que isso poderia ter interferido no comportamento reprodutivo das tartarugas.

Como o projeto tem 32 anos e a hibridização começou há mais de 40, porém, essa possibilidade foi desconsiderada. Hoje, 70% dos ninhos monitorados pelo Tamar são mantidos intocados.

“Eu diria que esse é o maior resultado prático do Tamar”, diz a coordenadora técnica nacional do projeto, Neca Marcovaldi. “Não fazemos fiscalização. O fato de os ninhos não serem mais mexidos é resultado da educação ambiental e da inclusão social. As tartarugas agora valem mais vivas que mortas, porque geram empregos e são motivo de orgulho para os habitantes locais. É um patrimônio deles.”

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FOTO: Comparação entre uma tartaruga-de-pente “pura” e uma híbrida de pente de cabeçuda.

ALTERAÇÕES VÃO ALÉM DA APARÊNCIA

As tartarugas híbridas da Bahia não são diferentes de suas parentes de “raça pura” apenas na aparência. Dados de monitoramento por satélite, publicados por cientistas do Projeto Tamar, sugerem que elas têm comportamento ecológico também fora dos padrões.

Depois de desovar na praia, fêmeas híbridas com morfologia típica de tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) foram se alimentar em áreas típicas de tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), levantando dúvidas sobre a capacidade desses animais de se adaptar a nichos ecológicos de uma ou outra espécie.

“A morfologia de cada espécie é adaptada à sua dieta específica”, diz o cientista Luciano Soares, um dos autores do estudo, publicado em maio na revista Endangered Species Research.

Tartarugas-de-pente são chamadas em inglês de “hawksbill”, porque têm um bico pontudo, parecido com o de um falcão, que usam para cavoucar fendas em busca de esponjas, anêmonas e outros alimentos moles encontrados em recifes de coral. Já as tartarugas-cabeçudas, como sugere o nome, têm cabeça e mandíbula mais robustas, que usam para quebrar a carapaça de lagostas, caranguejos e outros crustáceos que caçam em fundos de areia ou lama.

Ou seja: as duas espécies se alimentam de coisas diferentes, em ambientes diferentes. O que acontece, então, quando são misturadas num mesmo animal?

Os cientistas colocaram aparelhos de monitoramento via satélite em 15 fêmeas classificadas morfologicamente como tartarugas-de-pente. Análises de DNA, porém, mostraram que 6 delas eram híbridas – meio pente, meio cabeçuda. Destas, cinco rumaram ao norte para se alimentar em áreas típicas de tartaruga-cabeçuda, ao largo do Rio Grande do Norte, Ceará e até Pará, onde há muita pesca de lagosta; enquanto que as pente “puras” permaneceram em áreas típicas da espécie, de Pernambuco para baixo, onde os recifes de coral são bem mais abundantes.

Aparentemente, a genética de pente prevaleceu na morfologia; mas no comportamento alimentar, quem ditou a rota foi a genética de cabeçuda.

Avaliação. A grande dúvida é qual será o impacto dessa hibridização no futuro das espécies. “Pode ser uma ameaça, teoricamente, mas para dar respostas mais consistentes precisamos de mais pesquisas”, avalia Neca Marcovaldi, diretora técnica nacional do Tamar.

Novos estudos vão tentar determinar o que as híbridas estão comendo e qual é, exatamente, sua viabilidade reprodutiva. Por exemplo, se há diferenças entre tartarugas híbridas e puras no número de ninhos, de ovos, de filhotes nascidos, ou no tamanho dos filhotes. “O hibridismo não é necessariamente um problema”, complementa Soares.