Há 3,5 anos sem satélite, Brasil se prepara para o lançamento do CBERS-3 na China

Há 3,5 anos sem satélite, Brasil se prepara para o lançamento do CBERS-3 na China

Herton Escobar

02 Dezembro 2013 | 08h00

FOTO: Imagem do CBERS-3, com o painel solar aberto, cedida pela Agência Espacial Brasileira (AEB). Satélite tem 2,5 m de altura e pesa 2 toneladas.

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Dia 9 de dezembro, 11h26 no horário de Pequim, 1h26 no horário de Brasília. Enquanto a maioria dos brasileiros estiver dormindo, um seleto grupo de engenheiros, cientistas, empresários e autoridades governamentais estará alerto e atento a uma contagem regressiva no Centro de Lançamento de Taiyuan, na China, sonhando acordado com o futuro do programa espacial brasileiro.

Se tudo correr bem e a meteorologia colaborar, um foguete de 45 metros, modelo Chang Zheng 4B, deverá subir aos céus no horário indicado, levando à bordo de sua cúpula o novo Satélite Sino-brasileiro de Recursos Terrestres, conhecido como CBERS-3. Metade dele construído no Brasil, metade na China.


As expectativas são as maiores possíveis, especialmente do lado brasileiro. Um fracasso na missão poderá significar um golpe quase que fatal para o já fragilizado programa espacial brasileiro, que luta para se manter vivo e relevante em meio a uma série de limitações financeiras, tecnológicas e estruturais que limitam seu alcance na Terra e no espaço.

O programa CBERS (pronunciado “sibers”) é uma das poucas coisas que já deu certo para o Brasil na área espacial. Apesar do número 3 no sobrenome, este será o quarto satélite da série, depois dos CBERS-1, 2 e 2B – o último dos quais parou de funcionar em maio de 2010, o que significa que o País está há três anos e meio “cego” no espaço, dependendo exclusivamente das imagens de satélites estrangeiros para observar seu próprio território.

O plano original, acertado com a China ainda em 2002, era lançar o CBERS-3 em 2009 ou, no máximo, até 2010, mas uma série de problemas levou o programa a sucessivos adiamentos. O último deles, de ordem tecnológica, envolveu a detecção de falhas nos conversores elétricos usados na metade brasileira do projeto, quando o satélite já estava na China e quase pronto para ser lançado, no final de 2012.

As peças defeituosas foram retiradas (mais informações sobre isso abaixo) e agora, após mais um ano de testes e revisões, o CBERS-3 parece estar finalmente pronto para entrar em órbita. Posicionado a 778 quilômetros de altitude, ele terá quatro câmeras para observar a superfície do planeta do vácuo do espaço: duas construídas pelo Brasil e duas, pela China, com diferentes resoluções e características espectrais.

“São câmeras extremamente sofisticadas, que representam um salto tecnológico significativo em relação aos satélites anteriores”, disse ao Estado o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Leonel Perondi. “É o projeto espacial mais sofisticado que já produzimos.”

Uma das câmeras brasileiras, chamada MuxCam, pesa 110 quilos. Ela vai observar uma faixa de terra de 120 quilômetros de largura, permitindo imagear toda a superfície do planeta a cada 26 dias, com 20 metros de resolução. A outra, chamada WFI, terá uma resolução de imagem menor (de 64 m), mas enxergará uma faixa de campo muito maior (de 866 km), o que permitirá observar qualquer ponto da Terra a cada cinco dias. Entre as câmeras chinesas, a de melhor resolução espacial (5 metros) é a PanMux, com um tempo de revisita de 52 dias.

“É como se tivéssemos um supermercado de imagens”, diz o coordenador do Segmento de Aplicações do Programa CBERS no Inpe, José Carlos Epiphanio. “Poderemos optar por uma câmera ou outra, dependendo do tipo de fenômeno que queremos observar, em maior ou menor grau de detalhe e com o tempo de revisita mais adequado.” (Lista com detalhes técnicos das câmeras: http://migre.me/gQsMp)

Infográfico: Marcos Muller/AE

Aplicações. Epiphanio é engenheiro agrônomo por formação, o que serve como exemplo da variedade de empregos que se pode dar ao CBERS. A aplicação mais famosa é a do monitoramento de florestas, principalmente na Amazônia, mas há muitas outras, incluindo o monitoramento de atividades agrícolas e ocupações urbanas, processos de erosão, uso de recursos hídricos, desastres naturais e até vazamentos de petróleo em alto-mar, se for o caso.

As imagens produzidas pelo CBERS-2B, por exemplo, foram baixadas por mais de 50 mil usuários, de mais de 5 mil instituições, em mais de 50 países. “Não tem uma universidade, um órgão de governo no Brasil que não seja usuário do CBERS”, destaca Epiphanio.

Todas as imagens geradas pelo programa são distribuídas gratuitamente na internet pelo Inpe desde 2004. Mais de 1 milhão de imagens já foram baixadas nesse período (para acessar o banco de imagens, clique aqui: http://www.dgi.inpe.br/CDSR/). Entre os principais usuários estão universidades e instituições públicas como o Incra, Funai, Ibama, Embrapa, IBGE, Polícia Federal e Ministério Público, além de várias ONGs, ministérios, prefeituras e secretarias estaduais de governo, que utilizam as imagens de satélite como uma ferramenta fundamental de mapeamento, monitoramento e fiscalização de uma série de atividades relacionadas à ocupação e ao uso do solo, desde questões fundiárias até estimativas de safra e área plantada na agricultura.

Com os avanços tecnológico do CBERS-3, a tendência é que essa demanda aumente ainda mais. “Se os satélites anteriores já eram úteis, esse vai ser muito mais útil ainda”, diz Epiphanio.

O próprio Inpe é um dos principais usuários. No caso do monitoramento da Amazônia em “tempo real”, realizado por meio do programa Deter, a câmera WFI do CBERS-3 permitirá ao Inpe obter imagens de toda a floresta amazônica a cada cinco dias, com resolução espacial de 64 metros, o que será extremamente útil para a detecção rápida de pequenos desmatamentos. Atualmente, o instituto utiliza para isso imagens de sensores MODIS instalados em dois satélites da Nasa (Aqua e Terra), que produzem imagens diariamente, porém com resolução de 250 metros, o que só permite detectar desmatamentos maiores do que 6 hectares, enquanto que a WFI do CBERS-3 poderá detectar clareiras menores até do que 1 hectare. “Não há dúvida de que vamos dar uma turbinada nesse monitoramento”, diz Epiphanio. “A área ambiental como um todo vai se beneficiar muito dessa câmera.” Outra aplicação é no programa Canasat, usado para monitorar o plantio de cana-de-açúcar no Estado de São Paulo.

Ainda que as imagens MODIS sejam gratuitas, assim como as do Landsat e de outros satélites estrangeiros, Epiphanio diz que o Brasil não pode abrir mão de ter seus próprios equipamentos no espaço.

Para provar isso, ele abre no computador mapa do Brasil, sobreposto com um grid no qual estão plotadas todas as imagens solicitadas por usuários do CBERS-2B durante um período qualquer de 30 dias, ao longo dos 3 anos em que o satélite esteve operacional. Não há um centímetro do território nacional cujas imagens não tenham sido baixadas por alguém por algum motivo. “Eu olho para esse mapa e penso: Como é que o Brasil pode não investir na área espacial?”, questiona. “Vale a pena investir em satélites? Sem dúvida nenhuma. O Brasil não pode ficar sem isso.”

Foto de Florianópolis feita pelo CBERS-2 em 2005, com a câmera CCD. Para ver imagens de outras capitais, clique aqui: http://www.cbers.inpe.br/galeria_imagens/imagens_capitais.php)

Investimentos e custo-benefício. A fabricação do CBERS-3 custou cerca de US$ 125 milhões para cada país. Nos primeiros três satélites do programa (CBERS 1, 2 e 2B), a China era responsável por 70% do projeto e o Brasil, por 30%. No acordo assinado para construção dos CBERS-3 e 4, porém, os países passaram a ter participação igualitária: cada um com 50%. O programa é executado pelo Inpe, no Brasil, e pela Academia Chinesa de Tecnologia Espacial (Cast), na China. As decisões são tomadas em conjunto, mas cada um é responsável pela sua parte. Os lançamentos são sempre feitos na China, já que o Brasil não tem ainda capacidade desenvolvida para isso.

O diretor do Inpe, Leonel Perondi, reconhece que seria mais barato comprar um satélite já pronto do exterior, mas argumenta que é muito mais valioso construí-lo no País, como uma ferramenta de estímulo ao desenvolvimento tecnológico e industrial na área espacial. “O sentido de fabricar no Brasil é a capacitação tecnológica da indústria”, argumenta. “O programa espacial é um instrumento de política industrial. Nós colocamos desafios complexos para as empresas e elas têm um prazo determinar para responder, obedecendo a padrões de qualidade extremamente rígidos.”

“Criamos uma base industrial para a área espacial. Pode não ser a ideal, mas ela existe”, disse ao Estado o presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), José Raimundo Braga Coelho.

Cem porcento da metade brasileira do CBERS-3 foi fabricada, montada e testada no Brasil, por meio de contratos assinados com mais de uma dúzia de empresas nacionais – a maioria delas instaladas em cidades do interior paulista, como São Carlos e São José dos Campos. Ainda assim, vários dos componentes eletrônicos mais sofisticados usados nesses projetos tiveram de ser importados – entre eles, os conversores DC/DC defeituosos que forçaram o adiamento do lançamento em 2012, comprados de uma empresa nos Estados Unidos. (Leia mais detalhes sobre essa história aqui: http://migre.me/gQrr0)

“Ainda não fabricamos nenhum componente eletrônico com qualificação espacial no Brasil, então temos de comprar fora. É uma realidade, não tem jeito”, afirma Coelho. Segundo ele, há algumas tecnologias singulares em satélites que não vale a pena desenvolver no Brasil, porque são extremamente  caras e a demanda é muito pequena. “Infelizmente não podemos contar com a indústria brasileira para isso.”

O problema com os conversores DC/DC dos EUA colocou o Inpe numa saia justíssima, tendo de escolher entre lançar o satélite com os mesmos conversores (aproveitando peças do mesmo lote que não apresentavam defeito, porém correndo o risco de uma delas falhar com o satélite já no espaço) ou trocá-los por algum outro modelo, o que exigiria reprojetar todo o sistema elétrico do satélite e adiar seu lançamento em pelo menos dois anos.

A solução acordada, segundo Perondi, foi reduzir o número de conversores usados no satélite, retirando-os de pontos estratégicos, como os roteadores de sinal que fazem a interface entre as câmeras e os transponders que transmitem os dados coletados para a Terra, nos quais uma falha poderia comprometer toda a operação do satélite. Agora, caso haja uma falha, poderá se perder o funcionamento de um instrumento específico, mas não do sistema como um todo (por exemplo, se houver falha nos conversores de uma câmera, perde-se apenas aquela câmera, enquanto que uma falha nos roteadores implicaria na perda da capacidade de transmissão de dados de ambas as câmeras simultaneamente). “Vamos ter de conviver com uma confiabilidade menor nos instrumentos, mas teremos uma confiabilidade maior nos sistemas”, afirma Perondi. Associado a isso, algumas peças essenciais que necessitavam dos conversores problemáticos passaram a ser fornecidas pela China, em vez do Brasil.

O próximo satélite da série, o CBERS-4, será um irmão gêmeo do CBERS-3. Todas as suas peças já foram construídas e ele deverá ser totalmente montado e testado no Laboratório de Integração e Testes (LIT) do Inpe, a partir de meados de 2014, com lançamento previsto para 2015. Cada satélite tem vida útil prevista de três anos.

FOTO: Cronograma de lançamento de satélites previstos no PNAE. Fonte: AEB

Ambições espaciais. O lançamento do CBERS-3 é uma peça fundamental do

Documento

(AEB), que prevê o lançamento de outros dez satélites até 2020. Tão ambicioso que, para muitos, chega a ser irrealista, dado o histórico de dificuldades e fragilidades crônicas do sistema.

Prestes a completar 20 anos, em fevereiro do ano que vem, a AEB não possui nem mesmo um quadro próprio de recursos humanos. A agência tem apenas sete funcionários: dois motoristas, três assistentes administrativos, um datilógrafo e um auxiliar de serviços gerais. Todos os outros (cerca de 80) são prestadores de serviços ou servidores públicos emprestados de outros órgãos, incluindo o presidente da agência, o matemático José Raimundo Braga Coelho. “Precisamos de um corpo permanente. Se o programa não tem recursos humanos próprios, como é que pode ter sustentabilidade?”, disse ele ao Estado.

Uma lei aprovada em junho deste ano autorizou a contratação de servidores na AEB, mas o concurso até agora não foi aberto. “Aguardamos ansiosamente”, afirma Coelho. A meta, segundo ele, é montar um quadro com 150 servidores.

Para ser executado, o PNAE prevê a necessidade de R$ 900 milhões em investimento por ano, em média, na área espacial até 2020 – cerca de três vezes mais do que o orçamento da AEB nos últimos anos. “Orçamento e resultados andam juntos. Quanto você tem resultados, o governo reage com orçamento, e isso ajuda a trazer mais resultados. Estamos em busca disso”, diz Coelho.

O programa espacial brasileiro está muito atrás dos de outros países emergentes, como China e Índia, que possuem programas bem desenvolvidos tanto no desenvolvimento quanto no lançamento de satélites — e até mesmo projetos de exploração espacial. A China já enviou vários astronautas ao espaço e está construindo uma estação espacial, chamada Tiangong-1 Space Laboratory. A Índia, por sua vez, está com uma sonda científica a caminho de Marte (Mars Orbiter Mission).

O estágio mais avançado desses países na área espacial, porém, deve-se em grande parte a questões bélicas e interesses militares, que não existem no Brasil, segundo Coelho. “O Brasil também precisa de satélites, mas a lógica é outra”, diz. “Cada país tem o seu ritmo e suas razões para ter esse ritmo. Prefiro levar mais tempo para desenvolver um programa e viver num país pacífico do que ter um bilhão para gastar todo dia.”

A missão do programa espacial brasileiro, segundo ele, é “atender às necessidades do povo brasileiro” — sem perder de vista o fato de que o País tem muitas necessidades também em outras áreas, como educação e saúde, por exemplo. “Temos de dividir nosso orçamento de forma equilibrada, para que todos esses setores sejam atendidos. O programa espacial é apenas um deles”, conclui Coelho. “Estou 100% satisfeito? Não. Mas esse é o país que temos.”

FOTO: Imagem divulgada hoje pelo Inpe e Cast mostra o processo de montagem do CBERS-3 dentro da cúpula (terceiro estágio) que será depois acoplada ao foguete Chang Zheng para lançamento. (http://www.inpe.br/noticias/noticia.php?Cod_Noticia=3460)