Celacanto: uma foto incrível (demais para ser verdade??)

Celacanto: uma foto incrível (demais para ser verdade??)

Herton Escobar

18 Abril 2013 | 15h12

Esta é a capa da revista Nature desta semana, que traz uma foto relacionado ao estudo do genoma do celacanto (tema do post anterior).

Quando vi essa foto pela primeira vez, fiquei chocado (positivamente). Que imagem incrível!

Quando olhei para ela a terceira, quarta e quinta vez, porém, comecei a ficar com uma pulga atrás da orelha. Começou a parecer incrível demais até para ser verdade … Por alguns motivos: 1) o celacanto é um peixe de águas profundas, mas a cor e a luminosidade da água, e a sombra do peixe que aparece na areia abaixo dele, sugerem que a foto foi feita em águas rasas e bem iluminadas; 2) o tubarão ao fundo e os organismos bênticos (de fundo) que aparecem na areia também sugerem que se trata de um ambiente de baixa profundidade.

Fui atrás de um remédio (informações) para tirar a pulga de trás da orelha, ou pelo menos aliviar a coceira.

Antes mesmo de a pulga começar a coçar, eu já havia enviado um email para a revista Nature pedindo mais informações sobre a foto (local, data e profundidade), para talvez utilizá-las na reportagem. Uma assessora da revista me remeteu diretamente para o fotógrafo, o francês Laurent Ballesta. Conversei com ele por email e ele me contou que a foto foi feita a 120 metros de profundidade num local chamado Jeser Canyon, próximo à fronteira (submersa) da África do Sul com Moçambique, durante uma expedição liderada por ele em 2010. Ela faz parte de uma série de fotos de celacantos feitas por ele e sua equipe naquela expedição, parte das quais foi publicada na revista National Geographic em março de 2011 e também na Paris-Match.

Laurent contou ainda que sua equipe está de volta no local agora, para uma nova “expedição celacanto”, acompanhada do mergulhador sul-africano Peter Timm (que descobriu o local) e cientistas da França e da África do Sul. Veja o site do projeto: www.coelacanthe-projet-gombessa.com

Ok … mas a pulga ainda estava coçando um pouco (especialmente porque outras pessoas olharam a foto e, sem eu dizer nada, acharam que era uma montagem), e por isso escrevi de novo para o Laurent, perguntando honestamente como poderia haver tanta luz a 120 metros de profundidade. Ele respondeu que lá “é escuro, mas não tão escuro quanto você imagina”, porque a profundidade que a luz penetra depende da transparência da água e do albedo (quantidade de luz refletida) do fundo. No caso do Jeser Canyon, segundo ele, a areia branca do fundo ajuda a iluminar o ambiente, mesmo a 120 metros de profundidade.

Ele ainda revelou dois “segredos” da fotografia, que eu transcrevo aqui: “Eu usei uma Nikon D3s (máquina que pode chegar a 100.000 ISO, o que significa que você pode tirar fotos à noite só com a luz da lua) e o fundo de areia na foto não é plano, mas quase vertical, o que significa que a foto foi tirada de baixo para cima, e portanto diretamente orientada na direção da luz na superfície. Agora você sabe tudo!”

 

Abaixo, uma das fotos divulgadas para a imprensa pela Nature, de um celacanto africano na costa de Tanga, na Tanzânia. Feita por um veículo robô de operação remota (ROV). Crédito: Aquamarine Fukushima