Japoneses desenvolvem técnica mais simples para produção de células-tronco, sem embriões nem manipulação genética

Japoneses desenvolvem técnica mais simples para produção de células-tronco, sem embriões nem manipulação genética

Herton Escobar

29 Janeiro 2014 | 15h42

FOTO: Embrião de camundongo gerado com células STAP. A cor verde é resultado de uma proteína fluorescente que os cientistas utilizam como marcador, para identificar as células que foram reprogramadas em laboratório. Crédito: Haruko Obokata

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Dez anos atrás, a polêmica sobre a ética das pesquisas com células-tronco embrionárias humanas estava no auge. Até que, em 2007, um grupo de pesquisadores japoneses acalmou os ânimos – e praticamente sepultou o debate – com uma técnica revolucionária, que permitia transformar células da pele em células pluripotentes, equivalentes às embrionárias, com capacidade para se transformar em qualquer tipo de tecido do organismo, sem a necessidade de mexer com a ética de embriões humanos. Conhecida como iPS (células-tronco de pluripotência induzida), a técnica foi rapidamente adotada por laboratórios ao redor do mundo e rendeu ao seu criador, Shinya Yamanaka, o Prêmio Nobel de Medicina em 2012, em reconhecimento do seu incrível potencial para a compreensão e o tratamento de uma enorme variedade de doenças. Um sucesso estrondoso.

Agora, passado pouco mais de um ano da premiação, uma nova revolução em potencial se apresenta nas páginas da revista Nature: uma nova técnica, também desenvolvida por japoneses, que permite transformar células adultas em células equivalentes às embrionárias (indiferenciadas e pluripotentes) de maneira ainda mais simples e totalmente “não invasiva”, apenas com uma modificação do pH do líquido no qual as células são cultivadas em laboratório. As células iPS, em comparação, são produzidas por meio de uma reprogramação genética induzida pela introdução de genes indutores de pluripotência no genoma da célula adulta, o que exige o uso de vetores virais para levá-los até o núcleo celular — uma técnica já consagrada, e que funciona muito bem, mas que não deixa de ser uma barreira à eventual aplicação clínica dessas células.

As células produzidas pela nova técnica foram batizadas de STAP, sigla em inglês para “pluripotência adquirida por estímulo” (stimulus-triggered acquisition of pluripotency), e as pesquisas foram lideradas por Haruko Obokata, do centro de pesquisas RIKEN, no Japão, e da Escola de Medicina de Harvard, nos EUA.

A técnica está descrita em dois trabalhos, publicados simultaneamente pela Nature. No primeiro, os pesquisadores mostram que é possível induzir a reprogramação de células adultas em células pluripotentes apenas pela exposição delas a um meio de cultura mais ácido (de pH mais baixo), sem a necessidade de introduzir novos genes (ou qualquer outra coisa) no seu DNA. Seria o equivalente a você colocar um baralho de cartas em banho ácido e todas elas se transformarem em curingas; imagine só!

A pesquisadora Lygia Pereira, do Instituto de Biociências da USP, considerou o trabalho “surpreendente”. “Que estímulos externos levam a respostas celulares é conhecido, é óbvio. Mas é absolutamente inesperado que um estímulo tão simples leve a uma mudança tão dramática como a regressão para um estado de pluripotência”, disse. “A plasticidade genética das células é ainda maior do que imaginávamos. No início a gente precisava precisava usar a força bruta, enfiando uma célula dentro de um óvulo (técnica de ‘clonagem terapêutica’); depois a gente precisava só de 4 genes; agora, basta 25 minutos em pH baixo e voilá, pluripotência!”

As células reprogramadas foram introduzidas em embriões de camundongos e deram origem a animais quiméricos, com as células STAP incorporadas a todos os seus tecidos — comprovando que elas eram, de fato, células pluripotentes.

Eternidade. Para serem consideradas equivalentes às células-tronco embrionárias, porém, ainda faltava uma característica nesse primeiro artigo: a capacidade de autorrenovação (de se multiplicar eternamente, sem perder seu estado indiferenciado). Sem isso, as células STAP seriam de pouco uso prático para pesquisa, pois viveriam apenas por alguns dias e seria difícil estabelecer linhagens permanentes, como se faz com as células iPS ou embrionárias. Por isso foi feito o segundo trabalho, em que os pesquisadores mostram que é possível induzir essa autorrenovação colocando as células reprogramadas em um meio de cultura usado para cultivar células pluripotentes — ou seja, também por meio de estímulos puramente externos, sem introduzir nada de novo nas células.

Ambos os trabalhos foram feitos apenas com camundongos. A técnica não foi testada ainda em células humanas — a expectativa é que ela funcione da mesma forma, claro, mas não há como ter certeza disso até que os experimentos sejam feitos, revisados e comprovados. Esse foi o caminho percorrido por Yamanaka com as células iPS: o primeiro trabalho, feito com células de camundongos, foi publicado em 2006; um ano depois, veio a confirmação em células humanas.

Caso as células STAP sigam esse mesmo caminho, elas poderão ampliar e acelerar ainda mais as pesquisas com terapia celular ao redor do mundo. “Se os estudos sobre a biologia das células-tronco continuarem avançando nesse ritmo dos últimos anos, não é exagero afirmar que os livros de biologia atuais terão que ser completamente reescritos antes das Olimpíadas”, diz o pesquisador Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, coordenador da Rede Nacional de Terapia Celular do Ministério da Saúde.

Praticidade. Para a pesquisadora Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, a nova técnica — se comprovada em células humanas — também será será extremamente bem-vinda. “A eficiência das células iPS é boa, mas às vezes leva semanas para conseguir reprogramá-las. Não é uma técnica trivial; funciona, mas dá trabalho”, diz ela, que coordena um biobanco com cerca de 500 linhagens de células-tronco (mais de 60 delas geradas pela técnica de iPS), relacionadas ao estudo de várias doenças. “Podemos testar milhares de drogas in vitro, simultaneamente, e fazer um monte de coisas com essas células que jamais poderíamos fazer em seres humanos, além de reduzir o número de animais usados em pesquisa”, completa Mayana.

Cada linhagem de células-tronco, de certa forma, é um “paciente in vitro” que pode ser estudado e testado de todas as formas possíveis, sem infrações éticas.

A expectativa com tudo isso no futuro é que qualquer pessoa possa produzir células-tronco do seu próprio corpo por meio de um método simples e barato, passível de ser realizado em qualquer laboratório. Cada paciente seria o seu próprio banco de células ambulante. Imagine só! (Lembrando que MUITA pesquisa ainda é necessária para tornar esse sonho uma realidade … se isso realmente acontecer.)

Post atualizado às 20h30.

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