Células-tronco clonadas ou reprogramadas: Qual é melhor?

Células-tronco clonadas ou reprogramadas: Qual é melhor?

Cientistas discutem qual tipo de célula tem melhor potencial para aplicações terapêuticas

Herton Escobar

15 Julho 2014 | 10h19

FOTO: Embriões humanos clonados. Crédito: Oregon Health & Science University/via Reuters

Dez anos atrás, as células-tronco extraídas de embriões humanos eram a grande aposta da biomedicina para desenvolver terapias regenerativas, capazes de recuperar ou reconstituir tecidos humanos danificados por doenças ou lesões. O problema é que, para obtê-las, era necessário destruir embriões humanos, o que muitos enxergavam como uma violação ética – apesar de os embriões serem gerados por fertilização in vitro e formados ainda por células totalmente indiferenciadas.

Para superar essa questão ética, muitos pesquisadores tentavam produzir embriões clonados, por meio de uma técnica conhecida como “transferência nuclear” – em que o núcleo de um óvulo é substituído pelo núcleo de uma célula adulta e estimulado a se dividir in vitro, para gerar um embrião “sem pai nem mãe”, geneticamente idêntico ao doador da célula adulta. O problema é que ninguém conseguia fazer isso com células humanas, apesar do sucesso obtido com várias outras espécies de mamíferos. (O coreano Woo Suk Hwang disse ter conseguido em 2004, mas o trabalho se revelou uma farsa.)

Foi então que apareceu uma outra solução: as células-tronco de pluripotência induzida (iPS). Inventadas pelo japonês Shinya Yamanaka, em 2006, elas são células adultas geneticamente reprogramadas em laboratório para se comportarem como células pluripotentes, equivalentes às células-tronco embrionárias, com capacidade para se diferenciar em qualquer tipo de tecido. Sem a necessidade de embriões ou mesmo de óvulos humanos.


DÚVIDAS

A invenção das iPS resolveu o problema ético e deu aos cientistas uma maneira prática de obter células indiferenciadas para uso em pesquisa e, eventualmente, aplicações terapêuticas. E, com isso, a necessidade de clonar embriões humanos foi reduzida quase que a zero. Mas um pesquisador continuou tentando: Shoukhrat Mitalipov, da Oregon Health and Science University. E conseguiu. Em maio de 2013, ele publicou um trabalho na revista Cell, demonstrando pela primeira vez a clonagem de embriões humanos e a derivação de linhagens de células-tronco embrionárias desses embriões.

Com a técnica de produção de células iPS já muito bem estabelecida e sendo usada amplamente com sucesso em todo o mundo há vários anos, porém, ficou a dúvida: Qual seria a utilidade prática dessas células-tronco de embriões clonados? Elas teriam alguma vantagem biológica em relação às células iPS, que justificaria o esforço de trabalhar com elas?

Mitalipov resolveu tirar essa dúvida e publicou, na semana passada, um estudo na revista Nature comparando geneticamente os três tipos de células-tronco: as de embriões gerados por fertilização in vitro (FIV), as de embriões gerados por transferência nuclear (clonados) e as geradas por reprogramação genética (iPS). Os resultados mostram que as células de embriões clonados são, de fato, as que mais se assemelham geneticamente a uma célula-tronco embrionária “verdadeira”, obtida por fertilização in vitro. Mitalipov descreve as iPS como células anormais, e conclui que as células clonadas (que ele “inventou”) são as que oferecem melhor potencial para uso em terapia celular.

Pesquisadores brasileiros que trabalham com células iPS concordam com os dados genéticos apresentados no trabalho, mas discordam de suas conclusões.

VANTAGENS E DESVANTAGENS

“O estudo é interessante e mostra claramente que as células pluripotentes feitas por clonagem têm um epigenoma mais similar ao das derivadas de embriões”, diz Lygia Pereira, do Instituto de Biociências da USP. “Mas o que isso significa funcionalmente?”, questiona ela. “Na prática, elas são capazes de dar origem aos tecidos que queremos usar em medicina regenerativa de forma mais eficiente? Os tecidos gerados são melhores do que os gerados pelas iPS? No fim das contas, isso é o que interessa.”

E é isso, justamente, o que o trabalho de Mitalipov não demonstra ainda, segundo o pesquisador Stevens Rehen, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ. “Ele não pode dizer que as células de clonagem são melhores do que as iPS para medicina regenerativa sem fazer um experimento que comprove isso”, observa. “É uma opinião dele, mas que não está demonstrada experimentalmente no trabalho.”

Para Lygia e Rehen, as iPS têm atendido as necessidades dessa área de pesquisa. São pluripotentes o suficiente, e o fato de não serem tão indiferenciadas quanto uma célula-tronco embrionária pode ser até uma vantagem, pois o risco de elas se transformarem em algo indesejado (como um tumor) é teoricamente menor.

“Além disso, as células de clonagem têm um desvantagem enorme, que é a necessidade de óvulos humanos para serem geradas”, observa Lygia. “As células clonadas precisariam ter uma vantagem biológica muito grande para superar essa desvantagem prática”, avalia Rehen.

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