CÉREBRO GRANDE NASCEU NA COZINHA

CÉREBRO GRANDE NASCEU NA COZINHA

Herton Escobar

10 Novembro 2012 | 16h20

Imagine só o seguinte: O gorila é três vezes maior do que o homem, mas tem um cérebro três vezes menor. Porquê? Qual foi o fator, ao longo dos milhões de anos de evolução que nos separam dos nossos parentes primatas, que permitiu aos seres humanos desenvolver um cérebro tão grande, proporcionalmente ao tamanho do seu corpo?

Segundo a pesquisa de uma neurocientista brasileira, foi a invenção da cozinha. Tecnicamente falando, a capacidade de utilizar o fogo para “pré-digerir” os alimentos antes de consumi-los, o que permitiu aos nossos antepassados obter uma quantidade muito maior de energia com muito menos esforço e em muito menos tempo. (Experimente comer uma mandioca crua versus uma mandioca cozida para entender a diferença.)

Nosso cérebro corresponde, em média, a 2% da massa total do nosso corpo. Parece pouco, mas é muito! Nos outros grandes primatas (chimpanzés, gorilas e orangotangos), essa proporção é de no máximo 0,6%. Uma diferença crucial, que, no fim das contas, é o que mais nos diferencia deles e do resto do mundo animal.

O grande diferencial do Homo sapiens, afinal de contas, é o tamanho desproporcionalmente grande de seu cérebro. De nada adiantaria andarmos eretos e termos dedos tão maravilhosamente articulados se não tivéssemos um cérebro capaz de raciocinar sobre o que vemos e de controlar esses  dedos com a fineza e a destreza necessárias para produzir ferramentas, ornamentos e coisas desse tipo. Seria uma anatomia sofisticada, mas não tão vantajosa assim … Sem falar, é claro, nas capacidades cognitivas, de raciocínio, linguagem, etc.

Ter um cérebro maior é bom porque nele cabem mais neurônios. E quanto maior o número de neurônios, maior o seu “potencial de inteligência”, por assim dizer.

Mas essa vantagem neuronal não sai de graça. Manter um cérebro grande (e com muitos neurônios) funcionando custa caro, muito caro, em termos energéticos. Seis quilocalorias (6 kCal) por cada bilhão de neurônios, para ser mais exato.

Um cérebro humano tem, em média, cerca de 80 bilhões de neurônios e consome cerca de 20% da energia do corpo (apesar de ocupar apenas 2% da sua massa, como mencionado anteriormente). Funciona como o motor de um carro de corrida: superpoderoso, porém pouco econômico. Precisa de muito combustível para funcionar! E combustível, no nosso caso, significa comida.

Pesquisa comparativa. A pesquisadora Suzana Herculano-Houzel, da UFRJ, comparou os cérebros e os hábitos alimentares de vários primatas (incluindo os do homem moderno e de seus antepassados hominídeos, cuja anatomia conhecemos por meio dos fósseis), e chegou a uma série de conclusões muito interessantes.

A principal delas é que, sem a capacidade de cozinhar, teria sido impossível desenvolver a combinação de corpo pequeno e cérebro grande que temos hoje. Se nos alimentássemos apenas de carnes e vegetais crus, como fazem os outros primatas, precisaríamos passar de 9 a 10 horas por dia comendo sem parar para sustentar um cérebro desse tamanho (correspondendo a 2% da massa corporal total).

Para entender melhor o conceito, vejamos o que acontece com os outros primatas. O gorila passa 9 horas por dia se alimentando de plantas cruas, sem problemas. Mas ele tem um corpo grande (de até 125 kg) com um cérebro proporcionalmente pequeno (com apenas 30 bilhões de neurônios, que é o que tinha o nosso antepassado Homo habilis, cerca de 2 milhões de anos atrás). Ao longo da evolução, portanto, ele optou por um cérebro mais barato e preferiu aplicar suas calorias num corpo maior e mais musculoso.

“Acrescentar neurônios ao cérebro é muito mais caro energeticamente do que acrescentar células ao resto do corpo”, explica Suzana. Para ter um cérebro maior com base em uma dieta crua, o gorila teria que reduzir o tamanho do seu corpo como um todo ou passar muito mais horas por dia ainda se alimentando para pagar a conta … Ou aprender a cozinhar, que foi o que o homem fez.

Suzana explica que o cozimento funciona como uma pré-digestão extracorpórea, que nos permite extrair muito mais calorias de uma quantidade muito menor de alimento. “Comer comida crua é uma maneira muito ineficiente de obter energia. É difícil de mastigar e difícil de digerir; a comida não é quebrada completamente no estômago. Cansa, leva tempo e tem um rendimento muito baixo”, diz. (Mais uma vez, imagine uma mandioca crua versus uma mandioca cozida.)

Com a invenção da cozinha, não só ficou mais fácil obter as calorias extras necessárias para sustentar um cérebro maior e com mais neurônios como passou a sobrar mais tempo livre no dia para fazer uso desses neurônios todos. “Mais tempo para fazer coisas mais interessantes”, afirma Suzana. Entre elas, produzir artefatos e interagir socialmente com outros seres humanos, o que pode ter impulsionado o desenvolvimento da linguagem, da cultura e das relações pessoais, por exemplo — em vez de passar o dia coletando folhas, desenterrando raízes ou caçando.

Evolução. A comparação de crânios fósseis de hominídeos sugere que já havia uma tendência ao aumento do cérebro desde o início da linhagem humana, mas é na época do Homo erectus (quando a cozinha foi inventada, de acordo com o registro fóssil) que damos o salto mais significativo, com o número estimado de neurônios (calculado com base no tamanho da caixa craniana)  dobra, de 30 bilhões para 60 bilhões. Para, mais tarde, chegar aos atuais 80 bilhões.

“A tendência de aumento do cérebro já existia, mas havia uma limitação, imposta pela dieta. Passar 10 horas por dia comendo não só é trabalhoso como é arriscado”, diz Suzana. “Com a invenção da cozinha, aumentar o número de neurônios deixa de ser um risco e passa a ser uma vantagem. É uma mudança qualitativa na dieta que permitiu dar um salto quantitativo na evolução do cérebro humano.”

Imagine só!

PS: Se você está com a sensação de que “já viu isso antes”,  aviso que a pesquisa foi publicada no mês passado na revista PNAS (link). Foi notícia no mundo todo, mas como eu estava de férias, infelizmente, não pude escrever sobre ele naquele momento … Ainda assim, antes tarde do que nunca. É uma pesquisa interessante demais para deixar passar!

Para saber mais sobre pesquisas com cérebros na UFRJ e a técnica desenvolvida por Suzana para contar neurônios, veja minha reportagem publicada em maio: “O cérebro humano, célula por célula”

Abraços a todos.