Academia e indústria compartilham segredos (e riscos) na busca por novas drogas

Academia e indústria compartilham segredos (e riscos) na busca por novas drogas

Herton Escobar

11 Maio 2014 | 08h00

Herton Escobar / O Estado de S. Paulo

Imagine um mundo no qual as indústrias farmacêuticas emprestam algumas de suas ferramentas de pesquisa mais exclusivas para cientistas no mundo todo, de graça, para que eles façam o que quiserem com elas, sem pagamento de royalties nem amarras contratuais envolvidas. Parece ficção científica, mas esse mundo existe, e o Brasil pode estar prestes a se tornar um protagonista dentro dele, por meio de uma parceria entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e o Structural Genomics Consortium (SGC), um consórcio internacional de empresas e cientistas voltado para o desenvolvimento de novos fármacos baseados na inibição de proteínas.

Nove das maiores indústrias farmacêuticas do mundo – como Pfizer, Bayer e GSK – participam do consórcio, que possui duas bases de operação: a Universidade de Toronto, no Canadá, e a Universidade de Oxford, na Grã-Bretanha. O plano, agora, é incluir a Unicamp nessa lista, como o primeiro centro da rede no Hemisfério Sul. “A ideia é montar um centro verdadeiramente internacional, para produzir ciência de alto nível, orientada por metas específicas”, disse ao Estado o biólogo Paulo Arruda, professor da Unicamp e um dos pioneiros da biotecnologia no Brasil, que está à frente da interlocução com o consórcio.

Um acordo já foi assinado entre as instituições e a Unicamp já se comprometeu a criar espaço para o futuro laboratório, que, segundo Arruda, deverá empregar inicialmente 25 pesquisadores. Só falta o dinheiro: US$ 5 milhões para os primeiros cinco anos, que os organizadores estão tentando levantar junto a agências de fomento e indústria. O diretor do SGC, Aled Edwards, passou recentemente dois meses em Campinas (março e abril) fazendo sondagens e contatos para viabilizar o projeto.

O foco científico do SGC é a pesquisa da estrutura e função de pequenas moléculas (chamadas “sondas”) que inibem a função de proteínas relacionadas a doenças e, por isso, podem servir como ferramentas importantes para o desenvolvimento de novos fármacos. O grande diferencial qualitativo do consórcio é que ele opera num sistema de pesquisa e inovação “abertas”, no qual empresas e pesquisadores acadêmicos compartilham informações livremente para o avanço da ciência básica, sem patentes, royalties ou contratos de exclusividade para inibi-la nos estágios iniciais de pesquisa.

“O princípio básico da parceria é simples: nada de patentes, só ciência”, disse Edwards ao Estado. O tema foi discutido no fim de abril em um encontro na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, organizado pelo SGC, Fapesp e Grupo Editorial Nature (http://migre.me/j5hEH).

“A propriedade intelectual não deixa de existir, ela é apenas transferida para um estágio mais avançado do processo de desenvolvimento”, disse a cientista e editora do grupo Nature, Amy Donner, que mediou uma das mesas do evento.

Funciona assim: As empresas farmacêuticas são as únicas que detêm o expertise e os recursos necessários para desenvolver essas sondas, que são caríssimas, mas não têm cientistas ou laboratórios suficientes para testar todas elas contra diferentes alvos biológicos. A solução proposta pelo consórcio, portanto, é colocar essas moléculas em domínio público, para que qualquer cientista possa trabalhar com elas. Se essas pesquisas, mais tarde, revelarem algum efeito terapêutico importante, as indústrias poderão, então, disputar uma corrida entre elas para ver quem consegue desenvolver o medicamento primeiro.

Os pesquisadores ganham acesso às sondas, que só as indústrias têm e normalmente estariam inacessíveis, protegidos por patentes. As empresas ganham acesso ao conhecimento gerado por esses pesquisadores sobre suas moléculas, por meio de publicações científicas. E a medicina, no final da linha, é beneficiada pelo desenvolvimento de novas drogas, mais eficientes e potencialmente mais baratas.

“Em vez de as empresas competirem entre elas desde os estágios iniciais de pesquisa básica, elas passam a competir apenas num estágio mais avançado de pesquisa aplicada, com foco em moléculas que já mostraram ter um efeito terapêutico promissor”, explica Edwards. Com isso, reduz-se significativamente os riscos e os custos do processo de desenvolvimento de novos fármacos.

Veja também, reportagem da Agência Fapesp sobre o assunto: Brasil poderá ter centro de pesquisa com modelo “open science”

No campo. Além de ser o primeiro centro do SGC no Hemisfério Sul, o laboratório da Unicamp seria o primeiro da rede a trabalhar com pesquisas para o setor agrícola, e não apenas para o setor farmacêutico.

“Vamos desenvolver plataformas para testar essas moléculas inibidoras também em plantas”, afirma Arruda. “Será uma oportunidade fantástica de colocar as duas coisas sob um mesmo teto, com cientistas da área farmacêutica e da área de biotecnologia agrícola trabalhando lado a lado.”

“A indústria vai ter de se envolver no processo (de pesquisa e desenvolvimento) em algum momento, pois é ela quem traz as soluções para o mercado, então é melhor que estejamos envolvidos desde o início, para aumentar as chances de sucesso”, defendeu Philippe Herve, chefe de Gerenciamento de Alianças em Pesquisa e Desenvolvimento da multinacional Bayer, um dos vários representantes de alto nível da indústria que estiveram presentes no evento.

“A percepção é que estamos abrindo mão de algumas ferramentas, e estamos mesmo; mas é uma perda de curto prazo que visa a obter um retorno maior no longo prazo”, avaliou Bill Zuercher, pesquisador sênior em química biológica da GlaxoSmithKline (GSK). “Mesmo empresas grandes como a nossa não conseguem resolver tudo sozinhas. Se equiparmos a comunidade científica com ferramentas melhores para pesquisar, isso nos coloca numa posição melhor para avançar (no desenvolvimento de novas drogas)”, disse.

“A grande maioria das moléculas não funciona”, destacou Mark Bunnage, chefe de Pesquisas Químicas e Bioterapêuticas da Pfizer. Por isso, disse ele, vale a pena compartilhar o risco das fases iniciais de pesquisa num formato aberto (não só com os pesquisadores acadêmicos, mas também com as outras empresas do consórcio, que também ganham acesso às informações), para que os investimentos mais pesados da fase de desenvolvimento possam ser feitos de forma mais estratégica, em alvos mais selecionados e com melhores chances de produzir resultados práticos positivos.

FOTO: Ilustração científica da estrutura molecular da proteína (quinase) NEK1, envolvida em alguns tipos de câncer, com uma molécula inibidora encaixada em um de seus sítios ativos. A estrutura foi elucidada por cientistas brasileiros ligados ao SGC (ficha técnica: http://www.thesgc.org/structures/4B9D). Crédito: Cortesia de Wen Hwa Lee, brasileiro, gestor de alianças científicas e estratégicas do SGC

Resultados. Desde que foi criado, em 2004, o consórcio SGC já elucidou a estrutura molecular de aproximadamente 1,5 mil proteínas (o que é preciso conhecer para desenvolver os inibidores, pois eles funcionam num sistema de encaixe tipo chave e fechadura) e as indústrias participantes já colocaram em domínio público cerca de 20 moléculas inibidoras (que custam mais de US$ 2 milhões cada para serem desenvolvidas). Só no ano passado, mais de 1,5 mil cientistas compraram ou receberam gratuitamente amostras dessas moléculas para trabalhar, segundo Edwards.

A média de publicações científicas relacionadas a essas pesquisas é altíssima: 2 trabalhos por semana, segundo ele. Os resultados práticos, também. “Temos seis ensaios clínicos em andamento, contra o câncer, e mais de 25 empresas estão competindo para desenvolver medicamentos com base nessas descobertas todas”, relata o pesquisador, da Universidade de Toronto.

Cada empresa paga US$ 5 milhões para fazer parte do consórcio. “Elas estão pagando para distribuir suas moléculas de graça e obter conhecimento em retorno”, afirma Edwards. Ele compara o efeito desse sistema de pesquisa aberta na indústria farmacêutica ao que sites de compartilhamento aberto de músicas, como o Napster, tiveram na indústria fonográfica alguns anos atrás.

“É uma nova maneira de pensar e fazer ciência”, avalia Arruda.

Prós e contras. Representantes da comunidade científica brasileira mostraram-se favoráveis ao conceito da inovação aberta — entre eles, o presidente do CNPq, Glaucius Oliva, o diretor de Inovação da Finep, Fernando Ribeiro, e o diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz.

“Claramente, há uma demanda clínica que não está sendo atendida; não estamos produzindo novos fármacos na velocidade necessária”, destacou Oliva, que, coincidentemente, é especialista em cristalografia de proteínas e desenvolve pesquisas nessa área. “A complexidade dos sistemas biológicos é grande demais para ser investigada por uma única empresa ou pesquisador.  Todas as coisas ‘fáceis’ já foram feitas; estamos lidando agora com sistemas supercomplexos, doenças multigênicas, que só podem ser solucionados dentro de um esforço colaborativo e aberto.”

Brito Cruz, da Fapesp (fundação que está avaliando um pedido de financiamento para a parceria SGC-Unicamp) também elogiou o conceito, mas disse que é preciso definir claramente onde as coisas deixam de ser abertas e passam a ser fechadas, e qual será o retorno desses investimentos para a sociedade. “As chances de que os resultados dessas pesquisas serão apropriados por grande empresas estrangeiras em vez de empresas brasileiras são muito maiores. Como é que eu explico esse investimento para os pagadores de impostos no Brasil (que financiam a Fapesp)?”, questionou. “Essa prestação de contas terá de ser feita em algum momento.”

Uma solução seria capacitar a indústria farmacêutica brasileira a participar do desenvolvimento de alguma forma, segundo os debatedores. E levar em conta os benefícios que as eventuais novas drogas trariam para a saúde da população brasileira, mesmo que elas sejam desenvolvidas por empresas estrangeiras.

Um caso lembrado no debate foi o do Captopril, um dos anti-hipertensivos mais usados no mundo, cujo princípio ativo foi descoberto na década de 60 por cientistas brasileiros, com base no veneno da jararaca, mas a droga foi desenvolvida e patenteada por uma empresa americana (Bristol-Myers Squibb), porque o Brasil não tinha indústria farmacêutica para fazer esse tipo de desenvolvimento tecnológico e o conhecimento científico sobre a molécula estava livremente disponível na literatura científica. “Serve como um exemplo de inovação aberta que foi aberta demais”, avaliou Ribeiro, da Finep.

Gostou? Compartilhe! Siga o blog no Twitter: @hertonescobar; e Facebook: http://goo.gl/3wio5m