CIÊNCIA GELADA

CIÊNCIA GELADA

Herton Escobar

05 Janeiro 2012 | 15h55

FOTO: CPC/UFRGS/DIVULGACAO

Depois de três meses escalando montanhas geladas no Himalaia, retornei ao calor brasileiro e a primeira entrevista que fiz na minha volta ao jornal foi com cientistas na Antártida, onde a sensação térmica era de -40 graus Celsius. Imagine só!

A matéria, que pode ser lida neste link, conta a história da instalação de uma estação meteorológica no interior do continente antártico. O módulo, chamado Criosfera 1, é esse contêiner vermelho com a bandeira brasileira que você vê na foto acima, com a equipe de pesquisadores à frente.

O líder da expedição é o glaciologista brasileiro Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Apesar de não termos neve ou gelo no Brasil, precisamos de especialistas como ele para estudar o clima de lugares como a Antártida e o Ártico, pois o que acontece nesses lugares afeta o clima do planeta como um todo … e o Brasil faz parte do planeta! Assim como as pessoas na Groenlândia precisam se preocupar com o que acontece com as árvores da Amazônia, nós precisamos nos preocupar com o que acontece com o gelo das regiões polares.

Quando falei com a expedição por telefone via satélite, na tarde de terça-feira, o Prof. Simões estava ocupado do lado de fora, coletando amostras de gelo. Mais tarde, porém, ele respondeu algumas perguntas por email, que eu copio abaixo para complementar a matéria. Além disso, as notícias da expedição podem ser acompanhadas pela página do Centro Polar e Climático da UFRGS no Facebook.

ESTADO: Qual é o status operacional do Criosfera 1 neste momento?

JEFFERSON: O Criosfera 1 está semioperativo; começou a transmitir dados meteorológicos (temperatura, pressão atmosférica, umidade, velocidade do vento) ontem (dia 1). Em breve irá transmitir dados da concentração de dióxido de carbono na atmosfera. Estamos em fase de teste. O módulo já está em seu lugar definitivo: 84°S, 79°29’39″W, 1.287 metros, no Platô do Manto de Gelo da Antártica Ocidental (onde no dia 3 fez -17°C, com sensação térmica de -42 °C).

ESTADO: Qual o foco das pesquisas neste momento e qual o propósito científico do módulo a longo prazo?

JEFFERSON: O módulo é para pesquisa atmosférica, coleta de dados meteorológicos e da química da atmosfera. Este ano é uma fase de teste, com as medições descritas acima. No futuro teremos medidores de partículas de carbono elementar (“black carbon” em inglês) e parte escura da fuligem, micropartículas e outros gases.

Trata-se do  posto latino-americano mais próximo do Polo Sul Geográfico, que está a somente 670 km de distância. O   Criosfera 1 foi integralmente planejado e implementado pela comunidade científica nacional e marca importante avanço para o Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR).

ESTADO: O módulo precisa de ocupação humana?

JEFFERSON: Não. Seus instrumentos podem ser operados de maneira remota. Todo o módulo é automatizado para reduzir custos. Mas terá manutenção anual.

ESTADO: Com relação aos testemunhos de gelo, como está o trabalho de retirada, o que será feito com essas amostras e o que se espera aprender com elas?

JEFFERSON: Já tiramos 70 metros e estamos avançando. Por enquanto temos mais ou menos 150 anos de dados. As amostras serão derretidas em laboratório e uma bateria de análises químicas será realizada para obter uma série temporal de variações da química da atmosfera e do clima. Os dados do testemunho serão calibrados com os dados do Criosfera 1. É uma contribuição brasileira para experimentos internacionais, como o IPICS (International Ice Core Partnership), que procura reconstruir a história do clima e da química da atmosfera ao longo dos últimos 2000 anos usando testemunhos de gelo obtidos de geleiras de todas as partes do mundo (Antártida, Groenlândia, Alpes, Andes, Himalaias, Montanhas Rochosas, etc).

ESTADO: Qual é a situação operacional da expedição? Tudo funcionando bem até agora? Todo mundo com saúde?

JEFFERSON: Tudo ok. Ano relativamente quente, temperatura mínima até agora -17 °C, sensação térmica mínima -42 °C, todos com saúde e muito trabalho. Fora problemas normais como equipamentos quebrando com o frio, sonda trancando, etc, tudo ok.

E que continue assim, professor!

Abraços a todos.