Cientista da USP, Walter Neves será candidato a deputado federal

Cientista da USP, Walter Neves será candidato a deputado federal

“Se pessoas honestas e briguentas não tomarem o poder, tudo vai continuar do jeito que está”, diz o antropólogo, que será candidato pelo Partido Pátria Livre (PPL), com apoio do grupo Cientistas Engajados. Além dele, Mariana Moura, doutoranda do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) será candidata a deputada estadual

Herton Escobar

23 Março 2018 | 22h20

Walter Neves, em seu laboratório na USP. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

O antropólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo (USP), será candidato a deputado federal nas próximas eleições, pelo Partido Pátria Livre (PPL). “A vida foi muito generosa comigo, e quero devolver um pouco disso à sociedade”, disse Neves ao Estado. Sua candidatura foi aprovada hoje de manhã por um grupo de acadêmicos preocupados com a situação política do País, denominado Cientistas Engajados.

Aos 60 anos, recentemente aposentado da universidade, Neves é conhecido internacionalmente por seus estudos nas áreas de evolução humana e ocupação das Américas. Formado em biologia e arqueologia, foi professor titular do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP, onde fundou o Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos. É particularmente famoso pela descrição do fóssil Luzia, considerado o esqueleto mais antigo das Américas — e também pela língua solta, opiniões afiadas e espírito aguerrido.

“Se pessoas honestas e briguentas não tomarem o poder, tudo vai continuar do jeito que está”, afirma Neves. “Os cientistas não podem ficar passivos diante do que está acontecendo com o Brasil.”

Walter Neves em palestra no USP Talks, sobre Evolução Humana. Assista ao vídeo aqui: https://youtu.be/5PZFW-SlCTA. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Um cientista candidato é algo inusitado no país (ainda mais um professor titular da USP), e a candidatura de Neves deverá fomentar uma discussão mais ampla sobre a necessidade (ou não) de um maior engajamento da comunidade científica na política nacional.

Neves confessa que a ideia não partiu dele, mas do PPL, e que nunca havia pensado sobre essa possibilidade antes, mas está decidido a encarar o desafio, e espera que outros sigam seu exemplo, com o sonho de criar uma “bancada do conhecimento” no Congresso. “Do jeito que o sistema nacional de ciência e tecnologia está desmantelado, precisamos da participação direta de cientistas no Parlamento”, diz. “Eu não entendo nada de política, mas, como bom cientista, acho que vou aprender rápido.”

Para Neves, a comunidade científica precisa “descer do salto alto” e se engajar mais com a sociedade, tanto por meio da política quanto da divulgação científica. A ideia de que cientistas não deveriam se envolver com política, segundo ele, representa uma “visão tacanha do mundo acadêmico”, que infelizmente “ajuda a cristalizar aquela ideia de torre de marfim”.

O futuro candidato esclarece que não quer representar apenas a comunidade científica, mas todos os brasileiros. “Jamais aceitaria um cargo desses para defender uma única agenda”, diz. “Minha bandeira número um será a justiça social.”

Minha bandeira número um será a justiça social

Para Neves, “não existe nenhuma razão real para qualquer pessoa passar fome no Brasil”. “Isso só ocorre porque temos uma elite sanguinária”, diz.

Mineiro de Três Pontas, filho de pai pedreiro e mãe vendedora de Yakult, Neves vem de origens humildes. Antes de entrar para o mundo acadêmico, trabalhou na fábrica de turbinas de aviões da Rolls Royce em São Bernardo do Campo (SP), para onde a família se mudou em busca do “milagre econômico”, em 1970. Entrou como office boy aos 13 anos e saiu como assistente de diretoria técnica, aos 21. Trabalhava de dia na fábrica e fazia a graduação em Ciências Biológicas na USP, à noite.

Dessa experiência no mundo corporativo traz, até hoje, uma admiração pela eficiência administrativa da iniciativa privada — que ele diz não existir na administração das universidades públicas. “O mundo acadêmico ainda tem muito a evoluir para chegar minimamente próximo da eficiência do mundo corporativo.” Falta eficiência e meritocracia, diz Neves. “Na iniciativa privada, ou você desempenha a contento ou vai pra rua. Isso não existe no serviço público.”

Outro interesse seu é na área de direitos humanos, com a qual tem tentado se envolver já há algum tempo, sem muito sucesso. “Talvez a política seja uma maneira de fazer isso”, diz.

Deputada estadual

Além da candidatura de Neves para deputado federal, foi aprovada pelo grupo a candidatura de Mariana Moura a deputada estadual. Mariana, 36 anos, é uma das fundadoras do PPL, partido criado em 2009 e registrado oficialmente pela Justiça Eleitoral em outubro de 2011.

Filha de professores universitários — pai economista e mãe socióloga —, Mariana é formada em Relações Internacionais e está concluindo o doutorado no Programa de Pós-Graduação em Energia do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP, desenvolvendo pesquisa sobre a transferência de valores na cadeia energética. Seu trabalho de mestrado, concluído em 2014, foi sobre “Relações entre crise ambiental e energética na assinatura da Convenção do Clima”. É casada e mãe de dois filhos.

As candidaturas, segundo ela, são movidas pela “preocupação com os retrocessos na política nacional de ciência e tecnologia”, assim como a “falta de fundamentação científica na formulação das políticas públicas” de uma forma geral.

“Precisamos de parlamentares que defendam a ciência e tecnologia na política”, diz Mariana. Segundo ela, é preciso ir além de manifestos e passeatas, elegendo pessoas que possam atuar diretamente dentro da política e participar efetivamente do processo decisório. “A área de ciência e tecnologia, pela importância que tem e que pode ter na área econômica, deveria estar muito mais presente em todas as discussões”, diz.

Os integrantes do grupo Cientistas Engajados serão apresentados num evento no dia 7 de abril, na sede do partido, em Brasília, quando serão lançadas oficialmente as candidaturas. “Queremos juntar mais pessoas ainda”, diz Mariana.

Mariana Moura. Foto: Clóvis Monteiro

*Correção: Walter Neves não foi o descobridor do fóssil Luzia, como afirmava a versão original deste texto. O crânio foi descoberto pela arqueóloga franco-brasileira Annette Laming-Emperaire em Minas Gerais, nos anos 1970, e depositado no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Neves, mais especificamente, foi quem desvendou e descreveu a história do fóssil, 20 anos depois.