Cientistas buscam novos fármacos em formigas

Cientistas buscam novos fármacos em formigas

Herton Escobar

23 Maio 2014 | 17h40

A busca por moléculas naturais capazes de combater doenças em seres humanos sempre foi um trabalho “de formiguinha” da ciência, envolvendo a coleta, isolamento e análise de milhares de compostos de plantas, animais e micróbios da natureza, que precisam ser testados, um a um, sobre uma grande variedade de alvos terapêuticos. No caso de um novo projeto de pesquisa anunciado ontem, porém, essa expressão ganha sentido literal.

Cientistas do Brasil e dos Estados Unidos vão, literalmente, enfiar a mão em formigueiros e coletar formigas por todo o País em busca de novas moléculas capazes de destruir fungos, parasitas e, quem sabe, até células cancerígenas. Não nos insetos propriamente ditos, mas nas bactérias que vivem sobre suas carapaças e impedem que suas colônias subterrâneas sejam contaminadas por fungos nocivos à sua sobrevivência.

FOTO: Formiga cortadora de folhas no campus da USP Ribeirão Preto. Crédito: Eduardo A. da Silva Junior

O projeto foi aprovado “com louvor” num edital conjunto dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), cujo resultado foi anunciado ontem pelo presidente do NIH, Francis Collins, em sua primeira visita ao Brasil. O projeto é previsto para durar cinco anos; o valor total do financiamento não foi imediatamente divulgado.

Mônica Tallarico Pupo, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, é a pesquisadora principal do lado brasileiro. E Jon Clardy, seu ex-orientador na Medicina de Harvard, lidera pelo lado americano.

A meta, segundo Mônica, é isolar cerca de 500 linhagens de bactérias simbiontes de formigas por ano, para serem testadas contra fungos infecciosos (que atacam, principalmente, pacientes com sistema imunológico comprometido), parasitas tropicais (em especial, os da doença de Chagas e leishmaniose) e células tumorais.

“Vamos começar pelas formigas agricultoras”, diz ela, que já desenvolve um projeto semelhante, de menor escala, com formigas saúvas. Agora, serão coletadas amostras de várias espécies, de biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga.

FOTO: Formiga coberta com uma “capa” de bactérias, sobre uma fazenda de fungos no interior do formigueiro. Crédito: Michael Poulsen

Fazendeiras. O termo “agricultoras” refere-se ao fato de essas formigas cultivarem “plantações” de fungos dentro de seus formigueiros. Os pedaços de folhas e outros materiais orgânicos que elas carregam para dentro das colônias não é alimento para elas, mas para os fungos – que, por sua vez, são o verdadeiro alimento das formigas.

Como todo bom agricultor, as formigas não querem que suas plantações sejam contaminadas por pragas – neste caso, fungos oportunistas, que não servem de alimento para elas. E quem evita que elas carreguem esses outros fungos para dentro dos formigueiros são bactérias que vivem em suas carapaças e destroem rapidamente esses organismos.

A meta dos cientistas é estudar essas bactérias e descobrir as moléculas que elas usam para destruir os fungos. Feito isso, a esperança é que algumas dessas moléculas sirvam como base para o desenvolvimento de novos fármacos. A aplicação mais óbvia, claro, seria contra infecções fúngicas; mas é comum moléculas ativas desse tipo funcionarem também contra outros alvos — por isso a inclusão dos parasitas e câncer no menu de pesquisa.

A vantagem com relação a projetos semelhantes, que buscam moléculas com ação farmacológica na biodiversidade, é que a “triagem inicial de bactérias já foi feita pelas formigas”, aponta Mônica.

Collins falou com entusiasmo do projeto, na Fapesp. “Não é uma ideia incrível? As bactérias são inofensivas para os fungos que as formigas cultivam, mas são tóxicas para fungos invasores”, disse. “Uma série de compostos completamente novos poderá emergir dessa pesquisa.” O projeto recebeu a melhor nota entre todos que foram submetidos no edital, parte de um programa do NIH chamado International Cooperative Biodiversity Groups.

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