Cientistas buscam provas definitivas da relação entre zika e microcefalia

Cientistas buscam provas definitivas da relação entre zika e microcefalia

Vírus está "com uma arma na mão, saindo fumaça", diz pesquisador, mas relação causal com a má formação em bebês ainda precisa ser comprovada experimentalmente. Equipe de especialistas do Instituto Pasteur no Senegal está na USP para ajudar pesquisadores brasileiros a estudar e combater a epidemia. Recomendação é que mulheres evitem ao máximo contato com o mosquito Aedes aegypti.

Herton Escobar

09 Janeiro 2016 | 09h15

Pesquisadores do Senegal vão passar duas semanas trabalhando com cientistas no ICB-USP. Foto: Paolo Zanotto

Pesquisadores do Senegal vão passar duas semanas trabalhando com cientistas no ICB-USP. Foto: Paolo Zanotto

Os médicos estão certos em recomendar que mulheres usem repelentes e evitem engravidar neste momento, ainda que a relação entre o vírus zika e a microcefalia não tenha sido totalmente elucidada, segundo o pesquisador Amadou Sall, diretor-científico do Instituto Pasteur de Dakar, no Senegal, que chegou ao Brasil nesta semana para ajudar cientistas brasileiros a investigar a epidemia. “Não podemos dizer com 100% de certeza (que o vírus é a causa da microcefalia), mas é uma possibilidade, então é importante que as mulheres se protejam”, disse o especialista, que já participou de várias campanhas de combate a epidemias na África — incluindo a do vírus ebola, em 2014-2015.

O virologista Paolo Zanotto, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, concorda. Segundo ele, a relação é plausível demais para ser ignorada. “Vamos assumir que essa relação causal existe e agir de acordo com isso. Se depois for mostrado que não há relação, ótimo; fizemos a nossa parte”, disse o pesquisador, em uma coletiva de imprensa realizada sexta-feira no ICB, para apresentar a colaboração com a equipe de Dakar e detalhar a estratégia de pesquisa do grupo para os próximos meses de verão, em que a epidemia só tende a piorar.

“Temos que estar preparados para o que vai acontecer em março-abril; por isso ninguém dormiu aqui nos últimos 40 dias”, disse Zanotto, que coordena uma força-tarefa de vários laboratórios empenhados em desvendar o vírus, com apoio da Fapesp. Ele comparou o esforço ao de um exército que está em campo esperando seu inimigo aparecer do outro lado da colina, sem saber quantos soldados ele têm, qual sua estratégia de combate ou que armas ele usa. Segundo ele, não há como prever qual será a extensão ou a gravidade da epidemia no Estado de São Paulo, que até agora tem poucos casos suspeitos de microcefalia.  “O que vai acontecer eu não sei, mas estamos nos preparando um surto massivo nesse verão.”

As dúvidas devem-se ao fato de que o zika é um inimigo novo, ainda pouco estudado pela ciência. Apesar de já ser conhecido há bastante tempo na África, ele nunca causou grandes problemas, e foi apenas no ano passado que apareceu nas Américas e começou a ser associado à ocorrência de microcefalia em bebês no Brasil. Até então, ele era visto apenas como uma versão mais branda do vírus da dengue. “Estávamos muito mais preocupados com o chikungunya”, disse Zanotto.

Efeito surpresa

Na maioria das pessoas infectadas, o zika não causa sintomas; e quando causa, eles são muito parecidos com os da dengue (o que dificulta tremendamente o diagnóstico e o monitoramento da sua dispersão). O que mais assusta — e o que pegou todo mundo desprevenido — é a provável relação do vírus com a epidemia de microcefalia em bebês que está se espalhando pelo país; um evento inédito no mundo.

Os dados epidemiológicos da dengue (que é transmitida pelo mesmo vetor do zika, o mosquito Aedes aegypti) e da microcefalia sugerem fortemente que uma coisa está relacionada à outra, mas isso ainda precisa ser comprovado cientificamente, por meio da reprodução do fenômeno em modelos animais — o que já está sendo feito com camundongos no ICB-USP, mas ainda sem resultados definitivos.

As duas coisas podem estar relacionadas, mas não é necessariamente uma que causa a outra” – Amadou Sall, diretor científico do Instituto Pasteur de Dakar

Segundo Sall, o fato de duas coisas estarem acontecendo ao mesmo tempo num mesmo lugar não significa que uma esteja causando a outra. Por exemplo: o fato de o galo cantar quando o Sol nasce não significa que é o galo que faz o Sol nascer. Mesmo a presença do vírus no organismo de um bebê nascido com microcefalia — que foi a evidência experimental mais forte usada pelo Ministério da Saúde para estabelecer essa relação, em novembro do ano passado — não serve como prova definitiva. “As duas coisas podem estar relacionadas, mas não é necessariamente uma que causa a outra”, explica Sall. Segundo ele, é possível que haja outros fatores envolvidos nos casos de microcefalia; por exemplo, uma combinação do zika com outros vírus, ou fatores imunológicos ou genéticos dos pacientes.

Mas o zika é realmente o principal suspeito. Segundo Zanotto, pode-se dizer que “o vírus está com um revólver na mão, saindo fumaça do cano”.

Importância

Não se trata apenas de preciosismo científico. Entender exatamente como uma coisa leva à outra (ou não) é crucial para que os cientistas possam bolar algum tipo de vacina ou outra forma de prevenção, e também para fazer previsões de como a epidemia poderá se espalhar por outras regiões.

Comprovar a relação causal também é importante para desbancar eventuais terapias conspiratórias e lendas urbanas que já circulam pela internet, como a de que a microcefalia seria causada por vacinas de rubéola com prazo de validade vencido. “A não ser que a doença seja transmitida por seringas que voam, acho muito mais provável que a culpa seja do mosquito”, ironizou Zanotto.

O número de casos suspeitos de microcefalia no País já passou de 3 mil, mas o número de pessoas infectadas pelo zika é desconhecido, porque não existe ainda um kit de diagnóstico capaz de detectar o vírus no sangue dos pacientes (e porque a maioria dos casos é assintomática). Essa é outra peça crucial que falta no quebra-cabeça.

Agora é a hora de aumentar os esforços para prevenir, detectar e responder ao zika vírus” – Editorial da revista The Lancet, identificando o vírus como uma ameaça global

Parece, mas não é

Desenvolver essa capacidade de diagnóstico sorológico o quanto antes é uma das prioridades da cooperação com a equipe senegalesa. O grande complicador, neste caso, é que os vírus da zika e da dengue são extremamente semelhantes, o que torna mais difícil elaborar um teste capaz de diferenciar uma doença da outra. “Há muita semelhança entre eles, e não sabemos ainda se isso é bom ou ruim”, disse o pesquisador Luís Carlos de Souza Ferreira, vice-diretor do ICB e também especialista em microbiologia e desenvolvimento de vacinas. “Para fins de diagnóstico, sem dúvida é ruim. Para vacinas, vamos precisar trabalhar muito nisso ainda. É um grande desafio.”

Ameaça global

A revista The Lancet, o mais respeitado periódico científico na área médica do mundo, publicou hoje um editorial e uma série de artigos sobre o zika, descrevendo o vírus como uma “ameaça global”. Assim como os especialistas do Brasil e do Senegal, a publicação diz que a relação causal entre o vírus e a microcefalia ainda precisa ser comprovada, “mas é uma possibilidade que preocupa”. E chama atenção para o fato de o vírus estar se espalhando também pela América Central e Caribe: “Agora é a hora de aumentar os esforços para prevenir, detectar e responder ao zika vírus”, diz o editorial.

O mosquito Aedes aegypti está presente também no sul dos Estados Unidos, o que significa que o vírus (e talvez a microcefalia) poderá chegar lá também.