Cientistas descobrem novo caminho para combater a dor

Cientistas descobrem novo caminho para combater a dor

Pesquisadores do Instituto Butantan e da Universidade Stanford identificaram ação analgésica de uma nova molécula, aparentemente mais segura do que as drogas atuais

Herton Escobar

29 Agosto 2014 | 08h00

Capa da Science Translational Medicine desta semana, com a ilustração de uma pata de rato inflamada. Crédito: B. Small/Stanford University

Se tem uma coisa que não falta no mundo é dor. E se tem uma coisa que não falta na farmácia são analgésicos para tentar amenizar essas dores.

Mas ainda falta algo nesse cardápio farmacêutico: um remédio contra dor aguda que não traga risco de dependência, como ocorre com os opióides (tipo morfina) nem de efeitos colaterais relacionados ao sistema cardiovascular ou ao intestino, como ocorre com os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), classe de medicamentos que inclui a aspirina e outros tradicionais analgésicos consumidos regularmente por milhões de pessoas ao redor do mundo.

Dentro de alguns anos, talvez não falte mais. Em um estudo publicado ontem na revista Science Translational Medicine, pesquisadores brasileiros e americanos anunciam os resultados dos primeiros experimentos pré-clínicos com uma pequena molécula que, segundo eles, poderá ser a primeira de uma nova classe de analgésicos, potencialmente isentos das complicações citadas acima, que afligem os analgésicos atualmente disponíveis no mercado.

A molécula se chama Alda, e sua descoberta foi publicada em 2008 na revista Science, por Daria Mochly-Rosen e Che-Hong Chen, da Universidade Stanford. Nos anos que se seguiram, Daria e Chen uniram forças com pesquisadores brasileiros para testar a droga em modelos animais, e o resultados desse esforço é o que está publicado agora na Science Translational Medicine (com o prestígio adicional de ser o destaque de capa da revista).

Os experimentos relatados no trabalho demonstram que a Alda funciona como um analgésico eficiente em ratos e camundongos, ativando uma enzima chamada ALDH2, que é responsável por degradar aldeídos (compostos nocivos ao organismo que são formados em processos inflamatórios e são uma das causas da sensação de dor associada a essas inflamações). Quanto mais ativa for a ALDH2, menor é a quantidade de aldeídos, e consequentemente, menor é a dor. Aparentemente, sem efeitos colaterais.

“É um mecanismo de ação totalmente diferente dos analgésicos atuais”, destaca a pesquisadora Vanessa Zambelli, do Laboratório Especial de Dor e Sinalização do Instituto Butantan, que é a primeira autora do trabalho – realizado parte em Stanford, parte no Brasil. Também assinam o estudo, pelo Butantan, as brasileiras Yara Cury (sua orientadora) e Vanessa Gutierrez (hoje na iniciativa privada).

Os testes foram realizados com ratos, que tiveram uma inflamação induzida por uma toxina em suas patas, e em camundongos transgênicos, portadores de uma mutação que inibe geneticamente a atividade da ALDH2. Em ambos, a dor foi significativamente reduzida com a aplicação da Alda.

Relação entre álcool e dor; pesquisa básica e aplicada

Curiosamente, a mutação criada nos camundongos transgênicos é a mesma que faz com que muitos asiáticos sejam menos tolerantes ao álcool e fiquem com o rosto vermelho ao consumir bebidas alcoólicas.

Há muito tempo se suspeita que essa intolerância ao álcool esteja relacionada ao fato de muitos asiáticos serem também menos tolerantes à dor. E o fato de a Alda ter funcionado como um analgésico nos camundongos transgênicos sugere que há, de fato, uma origem comum para esses dois efeitos, que seria a menor capacidade dessas pessoas de degradar aldeídos. “Tudo nos leva a crer que haja mesmo essa relação entre a mutação e a menor tolerância à dor”, destaca Vanessa.

O próximo passo, segundo ela, é fazer mais testes em animais, utilizando outros modelos de dor, para mais tarde – se tudo correr bem – iniciar testes clínicos com seres humanos.

Nos EUA, uma outra molécula inibidora de ALDH já está próxima de ser testada em pessoas, justamente como uma droga de emergência contra intoxicação alcoólica.

Daria Moschly-Rosen, a pesquisadora sênior do projeto em Stanford, estuda as enzimas da família ALDH (aldeído desidrogenase) há vários anos, e é uma especialista tanto em pesquisa básica quanto aplicada ao desenvolvimento de fármacos. Em 2011 ela fundou a empresa de biotecnologia Aldea, encarregada de fazer a “translação” das descobertas mais promissoras do laboratório para uso clínico comercial.

Segundo ela, a descoberta da ação analgésica da Alda foi um resultado inesperado, que demonstra a importância da pesquisa básica para a descoberta de novas drogas e novos alvos terapêuticos. “Nós focamos nossas pesquisas nessa enzima (ALDH2) por uma razão completamente diferente, e porque estamos na academia pudemos perseguir essa descoberta acidental e desenvolver uma nova linha de pesquisa (algo quase impossível de se fazer na indústria). Esperamos que essa descoberta, agora, possa ser traduzida em algo que ajude pessoas com dor inflamatória”, afirma Daria, em um texto divulgado pela Universidade Stanford.

Daria é internacionalmente conhecida também como a fundadora do programa Spark, na Faculdade de Medicina de Stanford, que está sendo copiado agora no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP), com o intuito de estimular o empreendedorismo na comunidade acadêmica.

Para mais informações sobre essa iniciativa, leia a reportagem: Pesquisadores da USP se inspiram em Stanford para estimular o empreendedorismo na academia brasileira