Cientistas encontram jiboia mais rara do mundo na Mata Atlântica

Cientistas encontram jiboia mais rara do mundo na Mata Atlântica

Cobra da espécie Corallus cropanii, que era procurada há mais de 60 anos, foi capturada com ajuda de moradores do Guapiruvu, uma comunidade rural do Vale do Ribeira. Ela será devolvida à floresta, para ser estudada na natureza

Herton Escobar

02 Fevereiro 2017 | 07h00

Corallus cropanii. Foto: Lívia Corrêa/Instituto Butantan

Corallus cropanii. Foto: Lívia Corrêa/Instituto Butantan

Pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo e do Instituto Butantan encontraram no Vale do Ribeira uma espécie de cobra raríssima, que nunca foi observada na natureza e há mais de 60 anos era procurada intensamente por cientistas no interior da Mata Atlântica paulista.

Considerada a jiboia mais rara do mundo, a Corallus cropanii foi descrita em 1953 pelo herpetólogo Alphonse Richard Hoge, do Instituto Butantan, com base em um único exemplar, que foi trazido vivo até ele por um morador do município de Miracatu. Desde então, outros cinco exemplares chegaram ao instituto, mas todos eles já mortos — um deles, inclusive, registrado apenas por fotografia; e outro que já estava até enterrado, depois de morto por uma senhora.

Muitos pesquisadores vasculharam as matas do Vale do Ribeira atrás da espécie nessas últimas décadas, mas nunca a encontraram. Como nunca foi observada na natureza, não se sabe praticamente nada sobre o seu comportamento — por exemplo, do que se alimenta, ou se é um bicho predominantemente terrestre, aquático ou arborícola. Sabe-se pela sua anatomia que ela pertence à família das jiboias (Boidae), mas nesse grupo há desde pequenas serpentes que comem pássaros em árvores, como a cobra-veadeira, até gigantes aquáticos que comem capivaras, como a sucuri.


Agora, esse grande mistério da herpetologia pode estar chegando ao fim, graças a uma parceria entre os pesquisadores e moradores do Guapiruvu, um bairro rural do município de Sete Barras, no coração do Vale do Ribeira. Por meio de um trabalho de educação ambiental, iniciado em outubro, os cientistas ensinaram os moradores a identificar as cobras da região — diferenciando as venenosas das inofensivas, por exemplo — e a reconhecer a Corallus cropanii, que foi batizada de “Jiboia do Ribeira”.

Cartazes e panfletos distribuídos pela comunidade davam informações sobre a espécie e pediam para entrar em contato com o biólogo Bruno Rocha, caso o bicho aparecesse por ali. E foi exatamente o que aconteceu; muito mais rápido até do que os mais otimistas dos cientistas imaginavam.

Folder do projeto, distribuído à comunidade para identificação da espécie. Foto: Reprodução

Panfleto do projeto, distribuído à comunidade para identificação da espécie. As fotos da cobra viva são do primeiro animal, feitas pelo pesquisador Alphonse Hoge em 1953. A do animal morto (canto esquerdo inferior) são de um exemplar encontrado em 2002 pelo pesquisador Otavio Marques, também do Butantan. 

 

DESCOBERTA

Na manhã do dia 21 de janeiro, Rocha recebeu a ligação que tanto esperava. Dois jovens da comunidade, André Bezerra e Paulo Vinícius Teixeira, toparam com uma Corallus cropanii atravessando uma estrada de terra, quando caminhavam para o trabalho no campo com outros três amigos. Usando as técnicas que haviam aprendido com o pesquisador, eles capturaram o animal e ligaram para Rocha, que foi para lá no mesmo dia.

“Quando cheguei e vi que era ela mesmo, viva e linda, fiquei muito emocionado”, conta Rocha, de 33 anos, pesquisador do Museu de Zoologia e coordenador de um projeto dedicado à conservação da espécie. “Ela estava dentro de um balde, e o pessoal em volta dela com o nosso panfleto na mão, comparando o bicho com as fotos.”

Rocha, então, tirou a cobra de dentro do balde, tornando-se o primeiro biólogo a segurar uma Corallus cropanii viva nas mãos desde Hoge, 64 anos atrás.

De cor amarelada, puxando para o laranja próximo à boca, com escamas bem definidas e losangos pretos espalhados pelo corpo, o exemplar é uma fêmea, de 1,70 metro de comprimento e 1,5 quilo. Como todo boídeo (nome científico da família das jiboias), não é venenoso, e pode-se inferir que mata suas presas por constrição (esmagamento).

O único jeito de saber com certeza é observar o bicho na natureza. Para isso, a estratégia dos cientistas é implantar um pequeno radiotransmissor na cobra e colocá-la de volta na mata, para ser rastreada e estudada in loco.

“Queremos devolvê-la à natureza o mais rápido possível, para que ela volte à sua biologia normal”, explica Rocha, que vai seguir a cobra na mata como um espião, onde quer que ela vá. “Vamos ver se ela vai subir numa árvore, ou se entocar embaixo de uma pedra. Simplesmente não sabemos”, completa a colega Daniela Gennari, também do Museu de Zoologia.

Espécime coletado no Guapiruvu tem 1,70 metro e 1,5 kg. Foto: Lívia Corrêa/Instituto Butantan

Espécime coletado no Guapiruvu tem 1,70 metro e 1,5 kg. Foto: Lívia Corrêa/Instituto Butantan

 

PARCERIA

A parceria com a comunidade, segundo eles, foi essencial para a descoberta; e continuará sendo fundamental para a conservação da espécie. Há uma grande preocupação com o risco de o animal ser roubado por “biopiratas” ligados ao tráfico de animais silvestres. O gênero Corallus, ao qual pertence a espécie, é muito popular entre criadores e colecionadores de cobras. “Temos que ficar ligados, porque eles certamente vão aparecer”, afirma Daniela.

Se não fosse o trabalho de educação ambiental — conduzido com apoio da também bióloga Lívia Corrêa, do Butantan — a cobra que cruzava a estrada no dia 21 provavelmente teria sido morta, confundida com uma jararacuçu ou outra cobra peçonhenta, como ocorreu com as outras Corallus cropanii. Na verdade, isso quase aconteceu de novo, mas um dos rapazes (Vinicius) reconheceu o bicho das palestras de Rocha e evitou o pior.

O pesquisador, agora, quer transformá-los em seus auxiliares de pesquisa. “Vou inventar uma nova profissão para eles: Protetor de cropanii”, diz Rocha.

O Vale do Ribeira possui a maior concentração de Mata Atlântica do Estado de São Paulo, mas é também a região mais pobre do Estado. O Guapiruvu é um bairro isolado, vizinho ao Parque Estadual Intervales, e seus moradores sobrevivem principalmente do cultivo de bananas e palmito pupunha. “Esperamos que a visibilidade dessa descoberta traga benefícios para a comunidade”, diz Daniela.

O projeto integra o Plano de Ação Nacional para Conservação da Herpetofauna do Sudeste do Brasil e conta com apoio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios (RAN-ICMBio), do Boa & Python Specialist Group da IUCN e do Mohamed Bin Zayed Species Conservation Fund, uma fundação mantida por um sheik árabe, dedicada à conservação da biodiversidade.

ATUALIZAÇÃO (13/2): A cobra foi inicialmente identificada como macho, mas uma análise mais detalhada acabou concluindo se tratar de uma fêmea. O sexo nos répteis é determinado pela presença ou ausência de um órgão interno chamado hemipênis.

O pesquisador Bruno Rocha com a Corallus cropanii no Guapiruvu. Foto: Lívia Corrêa/Instituto Butantan

O pesquisador Bruno Rocha com a Corallus cropanii no Guapiruvu. Foto: Lívia Corrêa/Instituto Butantan

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